Ford & Sturges

DrumsalongthemohawkVi recentemente quatro westerns, dois de John Ford e dois de John Sturges. Vi-os sem a preocupação de escrever sobre eles, mas quero perorar um pouco acerca de dois deles.

De Ford, vi Drums along the Mohawk e My Darling Clementine, de Sturges, Gunfight at the OK Corral e Last Train from Gun Hill, estes dois com Kirk Douglas.

Vou ignorar, por enquanto, My Darling Clementine e Gunfight at Ok Corral, não porque Doc Holliday e Wyatt Earp não me incutam respeito, mas porque os filmes não me marcaram tanto como os dois de que escrevo neste post e porque havendo uma série de filmes sobre essas personagens e acontecimentos míticos, mais cedo ou mais tarde voltarei a eles.

Drums along the Mohawk (Ouvem-se Tambores ao Luar) não é um western típico, até pelo período temporal que aborda, final do século XVIII, uns anos antes da Guerra da Secessão, durante a guerra contra os Ingleses. Não é per si um filme histórico, porque Ford não dá espaço e tempo às batalhas e aos homens que as levaram a cabo.

Drums conta com Henry Fonda (Gilbert) e Claudette Colbert (Lana), vencedora de um Óscar no divertido It Happened One Night, nos papeis principais, um casal recém casado, que se dirige para território virgem para iniciar a sua vida. Para mim, o filme é sobre o casamento, sobre o relacionamento entre marido e mulher, com a guerra e as dificuldades em tempos periclitantes como pano de fundo. Como não o entender assim, quando a primeira cena do filme nos mostra o casamento de Gilbert e Lana, depois vemos a consequente viagem, as dificuldades de relacionamento, os temperamentos distintos, a diferença entre a vida folgada e luxuosa em Nova Iorque e a vida agreste, manual e difícil no terreno inóspito, no vale Mohawk. Como disse anteriormente, Ford não filma a guerra, as batalhas, somente as consequências destas, filma, isso sim, as mulheres, os velhos e as crianças, a incerteza e o medo na face delas perante o inimigo e a ausência dos seus homens, o medo da morte deles.

Ford vai filmando a vida do casal, a dificuldade de Lana em ajustar-se a esse novo papel e local, o aborto espontâneo, a incerteza do regresso do marido. O filme acompanha esta mudança, a evolução dos sentimentos entre Gilbert e Lana, a consubstanciação dos mesmos, a evolução de menina da cidade em Mulher é explícita na mudança do guarda roupa de Lana.

Mrs. McKlennar, uma viúva, é uma das personagens mais fortes do filme, meio caminho entre o comic relief, pela sua força e autonomia, e uma personalidade feminina forte e definida como poucas no cinema dos anos 30 (o papel valeu, aliás, um Óscar a Edna May Oliver para melhor atriz secundária, justíssimo, sem ter visto as outras candidatas).

Finalmente, o filme é um hino à América, ao sonho americano e aos seus valores. A cena final é disso prova, com a bandeira americana içada no alto de uma igreja, com homens, mulheres e índios debaixo dela, ao som de Star Sprangled Banner.

(7/10)

last train

Last Train from Gunn Hill é um filme diferente, um western duro, rijo como um cowboy, que foi para mim uma surpresa.

Kirk Douglas (Matt Morgan) e Anthony Quinn (Craig Belden) são dois velhos amigos, que se revêem quando a mulher de Morgan, uma índia, é morta e violada. Morgan vai atrás dos assassinos e descobre que um deles é filho do antigo amigo.

O filme coloca a nú muitos dos estigmas atuais e contemporâneos, colocando o preconceito e o valor da vida humana na mulher de Morgan, vale mais uma índia do que um caucasiano? COmo agirá Morgan que tem uma dívida de sangue para com Belden? A vingança é sempre suplantada pela ideia de justiça, mas Belden encarna o poder, é “dono” de uma cidade, todos lhe obedecem e nem um xerife tem ali mais poder do que ele.

O título alude à tentativa desesperada e justificada de Morgan levar o assassino à justiça, contra Belden e toda a cidade. É um filme físico, mas também psicológico, em que as mulheres, tendo um papel curto, são importantes na definição do relacionamento masculino e no desenrolar destes.

(7/10)

Terminando, dois excelentes exemplos de um género maior durante grande parte do século XX.