A Terra de Ninguém de Santana-Maia Leonardo

Oferecer (e receber) livros é uma tarefa ingrata, baseada nos nossos gostos ou no pretenso conhecimento que temos dos outros. Oferecer um livro de que gostei pode chocar com o interesse e gosto do outro. Tiro ao alvo que muitas vezes o falha.

Não que esta tarefa me tenha impedido (ou impeça) de oferecer livros, mas fico sempre na dúvida se o outro gostará (tanto) do livro como eu. Este verão a minha tia Ilda ofereceu-me um livro de crónicas (A Terra de Ninguém, de Santana-Maia Leonardo, Sinapsis), esse género ingrato, facilmente datado, e que dependerá sempre do génio e capacidade do cronista para nos interessar. Um livro de crónicas é também uma forma eficaz de atirar à sorte, entre tantas haverá algumas que atinjam na mouche. Este atingiu no alvo, com pontuação máxima.

Santana-Maia Leonardo é um caso atípico na opinião portuguesa, sendo de direita não come e cala, defendendo sempre a direita, discorda e mostra que é possível fazê-lo sendo coerente com aquilo em que acredita, o corrente livro é disso prova. É alentejano e parte das crónicas têm a ver com essa “natureza”, com o ser alentejano, com as terras alentejanas. Há sempre uma crítica à cidade-estado Lisboa e ao esvaziamento do interior, melhor, aos esvaziamentos, culturais, políticos, sociais, etc. Um cronista do interior esquecido e ostracizado, mas atento.

Pela dificuldade que é acertar ao se oferecer livros, destaco esta oferta e algumas frases.

“Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.” p. 149

“O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão… Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim de semana.” p. 149,150

“(…) um alentejano nasce num sítio qualquer.” p. 153

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