Este post acabará por ser sobre cinema

Nunca fui de fazer fretes, e enquanto aluno do ensino superior tive vários. Tive um professor que num semestre inteiro de aulas, deu um artigo da sua autoria de quatro páginas. Durante 12 aulas de hora e meia, bem entendido. O teste era um comentário a tão profundo artigo. Tive um professor que passava uma hora, da tal hora e meia, a contar anedotas que, na sua opinião, punham a ridículo a cultura portuguesa, eu só me ria da sua visão estreita e devo ter ido a… três aulas. Podia continuar a discorrer sobre as amarguras de um aluno que até entrou na faculdade interessado, mas que foi perdendo o interesse em grande parte das aulas. Duas cadeiras houve que me encheram as medidas, Estudos Queirosianos, com o professor Luiz Fagundes Duarte, cadeira dada à 6ª Feira, das 16h30-18h30, horário complicado para um aluno tido como baldas, mas a que devo ter faltado uma aula no máximo. A outra foi uma cadeira opcional, às 08h30, que nunca finalizei, por um lado porque o que queria era o conteúdo, por outro porque nunca me vi capaz de enveredar pelo trabalho final, que era uma análise de um filme, conjunto de obras, aspeto particular ou de um realizador à nossa escolha. A cadeira chamava-se História do Cinema e era dada pelo atual diretor da Cinemateca José Manuel Costa.

Foi o interesse pelo cinema que me levou à cadeira opcional, foi o conteúdo e a estrutura da cadeira, o olhar arguto e conhecedor de José Manuel Costa que ali me mantiveram. A ele devo uma paixão assolapada por Howard Hawks, o único filme que vimos integralmente na aula foi o brilhante Only angels Have Wings, filme que tem o pavoroso título, em português, de Paraíso Infernal.

Mas avancemos, ando a ler o fabuloso livro de François Truffaut, Os filmes da minha vida. Nele reconheço uma facilidade de escrever sobre cinema que me incomoda, pela simplicidade da escrita, pela profundidade da crítica, pela análise capaz e desarmante. Há uns anos convidaram-me para fazer um comentário de um filme numa sessão saudosista desta prática nos idos anos 60. Dificuldade acrescida, não consegui ver o filme antes e fui compondo algumas ideias-base enquanto o via pela primeira vez. Parafraseando um outro professor, dos bons, Abel Barros Baptista, só começamos a ler à terceira ou quarta leitura, como querer ser profundo, prático ou minimamente crítico após somente um visionamento? Estupidez da grossa, o exercício foi rasteirinho e praticamente dedicado à narrativa e interpretação do filme, nem uma palavra, quanto mais frase, sobre planos e ideias visuais.

Confesso esta minha idiossincrasia, fascinar-me pelo que vejo, não querendo antecipar as resoluções ou interpretações até que a experiência esteja terminada. Não que não o faça, descobrir o criminoso a meio do filme ou da leitura é prática comum, mas deixada para último lugar, porque quero, em primeiro lugar, ter o prazer de não ser afastado do conjunto total do objeto.

Ora, um dos aspetos da aula do Professor Fagundes Duarte, era discutir a génese e construção das obras de Eça de Queiroz, como ele escrevia e construía as tramas, mas também o estilo. O trabalho final era, com base num texto ficcional nosso, escrever uma discussão da construção, das escolhas, da escrita do nosso texto. Ora o que será o cinema senão um texto visual, com os seus códigos e escolhas de cada autor? Ler o filme como algo mais do que uma narrativa, mas entender os planos, os significados internos e subliminares de gestos, seja dos atores, seja da câmara.

Truffaut fá-lo com uma, repito, simplicidade e inteligência que me desarmam e humilham, descubro filmes que não vi, anseio por descobri-los pessoalmente e esse é o melhor contributo que qualquer crítico pode dar. E deixa-me a pensar no como gosto do cinema clássico americano, quase tanto como me aborrece o atual, pejado de efeitos especiais,  oco de estilo e conteúdo narrativo.

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A Terra de Ninguém de Santana-Maia Leonardo

Oferecer (e receber) livros é uma tarefa ingrata, baseada nos nossos gostos ou no pretenso conhecimento que temos dos outros. Oferecer um livro de que gostei pode chocar com o interesse e gosto do outro. Tiro ao alvo que muitas vezes o falha.

Não que esta tarefa me tenha impedido (ou impeça) de oferecer livros, mas fico sempre na dúvida se o outro gostará (tanto) do livro como eu. Este verão a minha tia Ilda ofereceu-me um livro de crónicas (A Terra de Ninguém, de Santana-Maia Leonardo, Sinapsis), esse género ingrato, facilmente datado, e que dependerá sempre do génio e capacidade do cronista para nos interessar. Um livro de crónicas é também uma forma eficaz de atirar à sorte, entre tantas haverá algumas que atinjam na mouche. Este atingiu no alvo, com pontuação máxima.

Santana-Maia Leonardo é um caso atípico na opinião portuguesa, sendo de direita não come e cala, defendendo sempre a direita, discorda e mostra que é possível fazê-lo sendo coerente com aquilo em que acredita, o corrente livro é disso prova. É alentejano e parte das crónicas têm a ver com essa “natureza”, com o ser alentejano, com as terras alentejanas. Há sempre uma crítica à cidade-estado Lisboa e ao esvaziamento do interior, melhor, aos esvaziamentos, culturais, políticos, sociais, etc. Um cronista do interior esquecido e ostracizado, mas atento.

Pela dificuldade que é acertar ao se oferecer livros, destaco esta oferta e algumas frases.

“Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.” p. 149

“O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão… Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim de semana.” p. 149,150

“(…) um alentejano nasce num sítio qualquer.” p. 153

Número Zero de Umberto Eco

Número Zero é o novo romance de Umberto Eco, a ação passa-se em 1992, na redação de um jornal criado para difamar, afastar as atenções, enterrar a notícia no meio de outras, criar um ambiente propício para que o leitor se perca e perca o importante.

“Certo. Os jornais ensinam às pessoas como devem pensar”, interrompera Simei.

“Mas os jornais seguem as tendências das pessoas ou criam-nas?”

“Ambas as coisas, menina Fresia. As pessoas, de início, não sabem que tendências têm, depois, nós dizemos-lhas e elas apercebem-se de que as tinham. (…)”  P.78

“A questão é que os jornais não são feitos para difundir, mas para encobrir as notícias. Acontece o facto X, não podes deixar de falar dele, mas embaraça demasiada gente, e então, nesse mesmo número, metes grandes títulos de fazer eriçar os cabelos, mãe degola os quatro filhos, talvez as nossas poupanças acabem reduzidas a cinzas, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio, e por aí fora, a tua notícia afunda-se no grande mar da informação.”  P.128

A narrativa é então ambientada na redação de um jornal criado para difamar, desinformar e apoiar o seu dono.O título remete para os números zero que o editor quer publicar, e muitas das páginas são exercícios estapafúrdios inseridos na missão pouco ética do jornal. O livro parece, então, um manual de mau jornalismo.

O meu conhecimento de história italiana baseia-se maioritariamente em alguns filmes e séries de televisão, sei vagamente o que foram as Brigadas Vermelhas, tenho conhecimento da alta instabilidade da economia italiana e do papel da máfia e crime organizado. Resumindo, pouco sei sobre a história recente italiana, e digo recente, porque Eco discute a história de Itália desde o fascismo até aos dias de hoje. É um emaranhado de dados factuais e hipóteses mais ou menos fantasiosas, que Eco combina de forma a dificultar o discernimento do leitor.

Número Zero termina com um exemplo de bom jornalismo que tende a perder-se quando já ninguém consegue distinguir o bom do mau jornalismo.

E vais ter com quem?”, perguntou-me. “Primeiro, não te arruínes por minha causa, segundo, aonde vais contar este assunto quando os jornais, percebo-o pouco, são todos feitos da mesma massa? Protegem-se uns aos outros…” p.123

Na minha opinião não é um grande romance de Eco, ainda que tenha todas as características da sua escrita, muitas citações e alusões, clássicas e da cultura popular, por exemplo. Podia ser um ensaio, e os dados estão lá todos, enquanto romance perde para com outros de maior fôlego do autor, no entanto deixa-nos a pensar sobre o jornalismo factual e isento dos dias de hoje.

Dos dias que correm

A semana passada, a primeira do outono, trouxe mudanças climatéricas, dias mais frios, enevoados, cinzentos. Esta semana o outono aproximou-se do verão.

O futebol cada vez me interessa menos, o tempo para ler é menor e custa mais, será sinal de velhice? No verão costumo ler cerca de uma dezena de livros, este ano li três, dei maior atenção a publicações jornalisticas, voltei a matar saudades com os comics, deixei os romances e livros técnicos um pouco para trás.

A situação económica, social e política do país é o que se sabe, se fala e discute. Não tenho paciência para matar neurónios a ler opiniões e factos diariamente. Há cinco anos atrás era leitor assíduo de jornais, diários e semanais, hoje contenho-me.

Hoje fui dar a primeira aula, em vão. Sinceramente, gosto de dar aulas, do nervosismo dos estudantes, da cara de pau de alguns, de poder ser útil, de ensinar coisas. Nesta altura, as praxes tomam conta do espírito e corpo estudantil, hoje não foi diferente, apareceram três ou quatro. Irritado não fico, nunca fui, ainda não sou, apoiante das praxes, envolvi-me enquanto estudante duas vezes nas praxes, nada de humilhante, nada de exacerbado, umas pinturas aqui e acolá, uma pala a Camões, um perfume que durou semanas a sair do corpo. Compreendo a ligação que se estabelece, temo a falta de senso e a necessidade de libertar alguma coisa através da humilhação, do poder, do álcool. Irrita-me sobretudo fazer quilómetros para dar aulas, perder tempo a preparar aulas, perder uma semana de aulas por causa de algo que é lateral, afinal na Academia o conhecimento devia estar em primeiro lugar. Tontices, eu sei.

Li 30 páginas de Casual Vacancy de J. K. Rowling. Os fãs de Harry Potter terão dificuldade e serão surpresos por esta obra. Daquilo que li não há ali nada que me faça querer voltar, a ação passa-se numa pequena cidade inglesa, e trata das vidas privadas e semi-secretas dos seus habitantes. Em trinta páginas já há tantos palavrões como num filme de Guy Ritchie, parece-me tudo um pouco gratuito, há pouca magia literariamente falando. Não sei se volto a abrir as páginas, acho que é desta que releio o Harry Potter.

Portugal é fantasia?

Ando a ler Acácia, obra de fantasia de David Anthony Durham. O mundo é criado de raíz, sem semelhanças com o nosso, na página 50 lê-se “Tinha as pernas cruzadas pelo joelho e um copo de Porto entre…”

Engraçado como um país pequeno, caído em desgraça, devedor a não sei quantos credores, em crise política e financeira consegue estar presente numa obra de Fantasia. Não é crível que Portugal exista no mundo de Acácia, mas se o vinho do Porto se bebe lá…como será o reino português na fantasia?

ouvidos de mercador

“Neste Julho de 1975, pedi a O Jornal a publicação do excerto que se segue: considero-o contributo para uma leitura em profundidade dos actuais acontecimentos políticos em curso de crise. Quem aprendeu a importância que o passado tem nos actos colectivos deve aferir as suas decisões por bitolas que tenham também esse passado em conta.

A vida de milhões de portugueses e a independência do país estão neste momento em causa. Que os defensores do fragmentado poder político saibam pensar acima do acinte – seja ele de natureza ideológica, partidária ou simplesmente de vaidade.

O povo português, uma vez mais na sua história, sente-se de esperanças: que a ele seja facultado o parto, e muitos aparentes impossíveis se tornarão realidade com repercussões à escala do planeta. Senhores da política: não nos obriguem novamente a matar-nos uns aos outros; não nos vendam outra vez.”

(Nuno Brangança O Jornal, Julho de 1975 – a propósito da publicação de um excerto da obra Directa)

A Culpa é das estrelas

Cedi a este livro pelo tema, “A culpa é das estrelas” aborda o cancro, narra a vida de alguns adolescentes com cancro, nomeadamente dois, Hazel Grace e Augustus. Cedi com cautela.

O livro tem consciência do sentimentalismo exacerbado e do politicamente correto a que o tema se presta e várias vezes refere-o. “Cancer books suck”, diz logo no início Hazel Grace, a narradora de 16 anos.

“A Culpa é das estrelas” ( John Green, editado pela Asa) é contado na primeira pessoa e narra a história de Hazel, uma jovem de 16 anos com cancro nos pulmões, que é acompanhada por uma garrafa de oxigénio. Hazel conhece Augustus (Gus), que tem uma prótese em vez de uma perna, e o livro é a história de amor entre eles os dois.  

O título é inspirado numa frase da peça Júlio César de Shakespeare, “The fault, dear Brutus, is not in our stars, / But in ourselves, that we are underlings.'”

Hazel tem um livro preferido An Imperial Affliction, sobre uma rapariga que tem cancro, mas que apesar disso vive uma vida boa. O livro termina a meio de uma frase e a ignorância do futuro das persoagens aflige Hazel. Quando conhece Gus, Hazel convence-o a ler a obra de Van Houten e juntos tentam ter sucesso onde Hazel falhou, entrar em contacto com o autor da obra preferida dela.

“A culpa é das estrelas” é um romance duro e sincero, contado por uma adolescente que recusa viver com a deferência dos outros pela sua doença, descobri entretanto o sucesso deste livro nos EUA e a definição de Young Adult Fiction, a verdade é que não é fácil de o catalogar e se este é um exemplo do que se faz em YA Fiction então o género está de muito boa saúde e é mais lato do que poderia ser.

O livro aborda a questão da fé, da religião e normalmente brinca acidamente com ela, ainda que com respeito; é acima de tudo um romance sincero que demonstra as diferentes reações daqueles que vivem com cancro e dos que estão à sua volta. Há algumas passagens fortíssimas, outras com muito humor, mas há, acima de tudo, uma preocupação com aquelas personagens, preocupação/interesse que passa para o leitor.

Há uma passagem extremamente interessante acerca do Facebook – alguém morre e uma das personagens abre o Facebook e lê (escreve também) o que outros, que ela desconhece, escrevem acerca daquele que morreu. Ficamos perante a participação ativa na vida de pessoas e a participação ativa na wall dessa mesma pessoa. Quando ela escreve na wall percebe que o mais importante não é o que escreveu ou a atenção que isso irá ter, mas aquilo que guarda da pessoa desaparecida.

Um livro extremamente interessante, uma boa surpresa neste outono editorial.

Deixo-vos o primeiro capítulo lido pelo autor.