Gentlemen Prefer Blondes

Poster de Gentlemen Prefer Blondes

Musical de Howard Hawks, de 1953, com Marilyn Monroe e Jane Russell, Gentlemen Prefer Blondes é, até ao momento, o filme de Hawks de que menos gosto.

(Aproveito para referir alguns dos filmes de Hawks que mais gosto, Bringing up Baby, Only Angels Have Wings, To Have and Have Not, The Big Sleep, Rio Bravo e Hatari, para referir somente alguns.)

Historicamente é um dos filmes que impulsiona a carreira de Monroe e que marca a história do cinema com o número musical Diamonds are a Girl’s Best friend.
É o segundo filme de Hawks com Monroe, após Monkey Business, e marca também o encontro do realizador com Russell, após The Outlaw, que Hawks abandonou a meio (o tempo de The Outlaw neste blog há-de chegar).
De Marilyn, Hawks disse:”Marilyn é uma natureza de actriz. Fora desse lugar perdia toda a realidade. Só filmei Gentlemen Prefer Blondes porque Zanuck me pediu. A Fox pensava ter em Marilyn uma futura grande vedeta, sem no entanto a conseguir lançar. Eu disse-lhe: ‘Pois é, vocês querem torná – la real e a realidade dela é a comédia musical´. Eu acho que Marilyn nunca foi verdadeiramente real e acho também que a grande comédia é completamente irreal. Marilyn começou por fazer filmes em que tinha papéis realistas. Não são bons. Foi nas comédias irreais, a partir Monkey Business que ela teve sucesso. Porque exagerava e era disso que o público gostava. (…) Era dificílimo que qualquer outra actriz pudesse fazer o papel de Marilyn nesse filme, porque era preciso alguém ‘saído dum conto de fadas’. No Gentlemen quis fazer do sexo uma coisa cómica e utilizei a fundo as qualidades infantis de Marilyn. O filme não é mais do que uma série de variações sobre a atração sexual(…) A rapariga que se quer casar por dinheiro (…) Com Jane Russell, ao lado dela, estava ganha a partida. Marilyn precisava de Jane que lhe afastava os obstáculos e a completava. Porque Jane é muito, muitíssimo real.”

Neste excerto, compreende-se e interpreta-se todo o filme, um conto de fadas marcado não pelo amor, mas pelo amor ao dinheiro, com uma personagem irreal e quase infantil, que usa o sexo como condutor do seu objetivo. Note-se, no entanto, que o sexo é sempre subentendido e não explícito, como é usual em Hawks e na época, devido à censura do código.
Gentlemen vive da dicotomia entre as duas personagens e actrizes, Lorelei e Dorothy, Monroe e Russel, respectivamente.
Moralmente, é o filme mais imoral que já vi de Hawks, realizador de uma cinematografia muito própria e com características psicológicas muito próprias, ainda que dizê-lo assim é deixar a oração a meio para quem não conheça a obra da Grey Fox de Hollywood, recorrendo-me do título da magistral biografia de Todd McCarthy sobre o realizador. O crítico Hermann Weinberg considerou o filme “uma parada de baixezas”.
A história é rapidamente contada, duas dançarinas amigas vão fazer uma viagem a Paris, paga pelo noivo de Lorelei. O pai deste, desconfiado do amor de Dorothy (Monroe) pelo filho, contrata um detetive para averiguar os reais sentimentos dela, mas este apaixona-se por Dorothy. Ao longo da viagem, Lorelei envolve-se com um velho casado, babado pela beleza desta, e com um rapazinho! Hawks pega numa sátira e transforma-a em burlesco.

Tenho vários problemas com Gentlemen, o mais básico é o facto de não gostar de musicais, da linguagem e narrativa do género. Por outro lado, a maior parte dos filmes de Hawks têm um código moral e narrativo muito próprios, distintos neste filme, o facto de ter duas mulheres como protagonistas pode e faz a diferença, normalmente são os homens que são os protagonistas nos seus filmes.
Hawks define o filme desta forma,”the girls were unreal, the story was unreal, the sets, the whole premise of the thing was unreal. We were working with complete fantasy.‘” Esta irrealidade é relativamente comum em Hawks, mas não a cem por cento, há sempre algo que nos atraca, o que neste caso não acontece. O filme convida-nos a encará-lo como uma fantasia irreal.

Se tenho um carinho especial por diversos filmes de Hawks, deste não gosto, como já referi, talvez pela questão musical, ainda que a cena musical Diamonds are a Girl’s Best Friend seja um dos grandes momentos musicais da história do cinema e o Technicolor brilhe como nunca, com Marilyn de cor de rosa, num fundo vermelho, numa coreografia eternizada até hoje. A voz de hélio de Monroe, o exagero do bâton vermelho, a personalidade burra, o seu sex-appeal são trunfos que me passam ao lado, prefiro-a em Niagara, e é Jane Russell que me convence e impele a terminar o visionamento.

Diomonds are a girl´s best friend

Se não gosto, abomino mesmo, as comédias brejeiras e sexuais, descendentes de Gentlemen, convém, no entanto,firmar o valor do subtexto, do subentendido, do não dito que acabam por consolidar o papel do filme na história do cinema e o seu sucesso imediato, a par da presença de duas das mais famosas estrelas de Hollywood dessa década. É, como o próprio realizador o descreve, uma ´série de variações sobre a atração sexual´, feitas como só um grande realizador o poderia fazer e como só poderiam ser feitas na década de 50, sem problemas para o estúdio.

Marilyn Monroe e Jane Russell

Há cenas que feitas hoje seriam completamente diferentes, tanto no sentido como no contexto, a cena das duas mulheres, vigiadas de perto pela equipa olímpica, junto às piscinas do barco, que termina com a seguinte frase “those girls couldnt drown”, frase pouco dúbia para quem o vê, ou o outro grande número musical do filme, Aint there anyone here for love?, com Russell no meio da equipa olímpica, em pleno treino, cena arrojada para a altura, que termina com ela a ser enviada para a piscina, um acidente na rodagem, mas que encerra em si toda uma metáfora, um subtexto que nenhum fã de Hawks ignora, razão que leva ao corte da cena quando passa na televisão americana.

Os homens, tão bem tratados por Hawks na sua filmografia, são aqui tudo menos do que um exemplo de virilidade, demonstrando que Lorelei quer acima de tudo a riqueza que não possui na sua condição, e que está disponível a tudo para o conseguir, como mostra a última cena que divide com o futuro sogro.

Gentlemen é, a meu ver, um filme estranho no conjunto da obra de Hawks, com o que escrevi não posso deixar de referir que o subentendido está presente nos seus outros filmes, mas é ao nível do argumento, da descrição psicológica que a diferença se acentua.
Termino como comecei, é o filme, até ao momento, de Hawks que menos gosto.

(6/10)

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