Parentalidade como discipulado

Intentional Parenting

Ser pai nunca é fácil, mas ser pai cristão traz responsabilidades acrescidas. Quando nos nasce uma adolescente de catorze anos cá em casa, a noção dessas responsabilidades e a prática diária do discipulado encontram-se muitas vezes separadas. Quando a idade da estupidez, vulgarmente conhecida por adolescência, se casa com a inexperiência de determinadas práticas espirituais e com o desconhecimento de uma vida familiar mais estruturada a fotografia fica ainda mais composta – os desafios crescem e multiplicam-se!

Intentional Parenting – Family Discipleship by Design é um livro de Tad Thompson, sobre discipulado familiar, da Cruciform Press – uma editora cristã americana, que tem como plano editar um livro por mês, livro esse que responda a algumas premissas, tem de ter cerca de 100 páginas, ser relevante e biblicamente confiável, simples, com um preço acessível e, no seu conjunto, os livros editados devem explicitar o credo da editora.

A preocupação de Thad Thompson é dupla, por um lado tem constatado a quebra do discipulado nas famílias cristãs, que deixam o ónus para as igrejas, que por incapacidade ou inação pouco têm conseguido alterar esta situação; por outro lado, tenta cativar e capacitar os pais para o discipulado, enquanto prática que se preocupa com a salvação dos seus filhos.

“(…)the discipleship model in which church professionals essentially replace parents as the primary agents of discipleship is just not working.” (p.9)

Thompson é claro ao colocar a responsabilidade do discipulado cristão nos ombros dos pais (Efésios 6:4 e Salmos 78:5)

Thompson escreve pastoralmente para pais que reconhecem ou se desculpam com a sua imperfeição e incapacidade de levar a cabo tal tarefa; usando a passagem de I Coríntios 13:11-13 relembra o leitor de que a perceção dessa incapacidade é vital no discipulado familiar. Deus conhece-nos intimamente e sabe do que somos ou não capazes, apesar disso deu-nos essa responsabilidade, capacitando-nos para essa tarefa (Efésios 3:20).

O objetivo do discipulado é ensinar e “to cultivate truth in the hearts of your children. (…) you should lovingly and prayerfully encourage your children in their walk with Jesus. The nature of the parental role changes as our children mature, but its essence does not, and we are called to steward faithfully all the days the Lord has entrusted to us.” (pág. 21)

Thompson torna-se assustador, ao sistematizar aquilo que o discipulado abarca, i.e., aquilo que o pai deve saber ou investir para discipular o seu filho. Deste modo, sistematiza o discipulado em Evangelho, Teologia Bíblica (A Grande História), Teologia Sistemática (As Grandes Verdades), Grande Comissão, Disciplinas Espirituais, Vida Cristã e Cosmovisão.

O autor demora cerca de um terço do livro, 30 das 108 páginas, a falar destas áreas.

Deixem-me sintetizar (ênfase no sintetizar) os pontos principais feitos pelo autor.

O Evangelho

“you will do whatever it takes to saturate your home life with the message of the gospel!” (p. 23)

Thompson demora algum tempo a distinguir entre o evangelho bíblico (Deus é o santo e soberano Criador do Universo; o Homem rejeitou o santo e soberano governo de Deus; Jesus é o Filho eterno de Deus que veio para resgatar pecadores; O Evangelho exige que todos lhe respondam em arrependimento e fé – p.28-33) e os falsos evangelhos (os falsos evangelhos do aperfeiçoamento pessoal, da prosperidade, da paz e propósito e o Evangelho do “ora esta oração” – p. 24-28)

Teologia BíblicaA Grande História

Conseguimos explicar e explicitar a narrativa bíblica às nossas crianças e adolescentes? Esta tem sido uma área chave para a nossa filha, já que o conhecimento está estilhaçado em várias narrativas,  não há uma noção do conjunto, da Narrativa.

“The Bible is about God working in the lives of men, women, and children, directing all of history toward a sure conclusion.” (p. 35)

“Reading the Bible to extract its “life lessons” puts much of the focus on the reader of Scripture. But the real story of the Bible is about the Author.” (p.35)

Thompson reitera o ponto, a Bíblia foi-nos dada para nos ensinar acerca do carácter e propósitos de Deus, não para reforçar as nossas opiniões pessoais acerca de Deus. (p. 36) Quando conhecemos e reconhecemos a Grande História acerca de Deus e dos Seus propósitos conseguimos interpretar e compreender melhor as passagens mais difíceis, lê-las à luz do Plano de Deus, nomeadamente à luz da pessoa do Seu Filho, Jesus Cristo.

Teologia Sistemática 

Ou na terminologia do autor, As Grandes Verdades, que verdades são estas? A Palavra de Deus, o Carácter de Deus, a Trindade, a Criação e o Domínio Providencial de Deus, a Natureza Humana e o Pecado, a Pessoa de Jesus, a Obra e Ministério de Jesus, a Pessoa e Obra do Espírito Santo, Salvação, a Igreja, e as Últimas Coisas.

“Your children are going to formulate their ideas about the Bible, God, man, and salvation from somewhere. If you do not teach your children biblical doctrine, they will be forced to synthesize key ideas (about who God is and who they are) from random bits of truth and falsehood they collect from church, peers, teachers and the media.” (p. 40)

Deste modo, conhecer e ensinar estas Grandes Verdades às nossas crianças é vital para o seu crescimento espiritual e desenvolvimento. (p. 41)

A Grande Comissão

Temos sido bons dispenseiros do evangelho e discípulos de Jesus? As nossas crianças devem perceber o alcance do evangelho, não só nas nossas casas, mas também a partir delas.

“God has not given us Christ so that people will make much of us; he has given us Christ so that we will make much of him!” (p.43)

“How vital is that our children understand the heart of God for the nations. Our eternity is in heaven, but God keeps us on this earth for a purpose!” (p. 43)

Disciplinas Espirituais

Thompson convida-nos a perceber que as disciplinas espirituais são um meio essencial para o crescimento espiritual (I Timóteo 4:7,8)

Vida Cristã

A ideia nesta área é viver a vida de forma cristã. Como agimos e vivemos no que, por exemplo, ao perdão, pureza sexual, paternidade, casamento e vida familiar, diz respeito? Que exemplo temos sido para as nossas crianças?

Cosmovisão

“A worldview that is not genuinely and therefore God-centered will inevitably be man-centered. But as we pass along to our children a sound Christian worldview, we equip them to navigate the waters of our humanistic, postmodern culture. This may include teaching them how to argue against atheism or scientific naturalism/evolution, and to speak clearly on ethical issues such as abortion, stem cells research, and homosexuality. Worldview also helps us develop biblical philosophies for education, economics, and law. Make sure your own view of the world in wich God has placed us is solidly biblical, and then pass it along your children.” (p.47)

Como é que um pai cristão gere este conhecimento e prática e se dedica a esta tarefa? Thompson é prático, compromete-se a ler a Bíblia, “if you won´t commit yourself to read your Bible, you will never commit to family discipleship.” (p.49); lê, pelo menos, um livro acerca de cada uma destas áreas por ano; escreve o que tem aprendido e discute-o com outros pais, cara a cara ou através de um blog, por exemplo; compromete-se a servir numa igreja que valorize a pregação e o discipulado teológico; recicla o que tem aprendido.

Antes de discutir as quatro áreas do discipulado familiar (a casa, a comunidade, a igreja e o mundo), Thompson relebra que não podemos discipular as nossas crianças para além do nosso próprio nível de discipulado. Baseando-se em Deuteronómio 6: 7-9, mostra que o ensino é rotina e repetição. “Etching requires routine, dedication, focus, knowledge, skill, and consistency, as we repeatedly teach God´s word and apply its truths to everyday life.” (p.58)

O ponto é tão simples quão complicado, saturar a vida familiar e comunitária da Palavra de Deus, em oposição à forma como somos (pais e filhos) saturados pela cultura e cosmovisão seculares.

“How will our children believe that the Bible  is all about all of life if we only talk about it during the Bible lesson?” (p.59)

Qual o propósito do discipulado? Não é oprimir as nossas crianças, mas ajudá-las a adorar Deus em resposta à sua graça salvadora.

Casa

Thompson afirma que a casa, o lar, deve ser o local seguro onde se discutem verdades espirituais profundas e se respondem a questões difíceis acerca de Deus e da Sua palavra. Os pais devem aproveitar as refeições para expressar gratidão a Deus e uns aos outros; no que diz respeito à hora de deitar, o autor defende não só a oração em conjunto, mas dá a sua prática, orar pelos filhos na presença destes, para que eles percebam as preocupações e desejos espirituais dos pais para eles; quanto ao culto familiar, Thompson refere uma prática que me parece importante, e com a qual nos temos debatido e falhado, discutir em família a pregação de domingo ao longo da semana.

Thompson tem ainda uma palavra no que diz respeito à disciplina.

“Discipline in the home, whether physical or verbal, is not about getting your children to behave in a certain way. Children cannot obey perfectly and they never will. If you discipline your children to condition them to perform certain behaviors, you are not raising them in the fear and admonition of the Lord. You are training them in self-righteousness.” (p.64)

A Comunidade

O ponto mais importante nesta área é viver na comunidade de forma a discipular quando as coisas acontecem.

“As parents we should be less concerned overall with whether our children are exposed to non-Christian influences and more concerned with what we do about it when they inevitably are exposed. Let us seize those moments and convert them into discipleship opportunities. That is how Christians are prepared to make an impact on secular society.” (p.71)

A Igreja

O argumento aqui é perceber de que forma a igreja local pode ajudar a educar as crianças a ter esperança e fé em Deus. Como? Fazê-las compreender que a igreja não é tanto um local, mas um conjunto de pessoas, o corpo vivo de Cristo; que ali adoram juntas como uma família, ajudá-las a compreender a autoridade da Palavra de Deus, “children need to learn how to listen to sermons” (p.73).

O Mundo

Esta última área consiste em ensiná-las a amar o mundo e perceber a importância e privilégio da Grande Comissão.

O penúltimo capítulo versa sobre o coração dos nossos filhos, o nosso objectivo enquanto pais cristãos é revelar o evangelho e o Reino de Deus às nossas crianças. “Our treasure is Jesus, Lord of the Kingdom of heaven. To reveal the Kingdom is to reveal the King.” (p.81)

“The goal of family discipleship is to raise children who treasure Jesus above all things.” (p.83)

Thompson destaca quatro objetivos dos pais no seu relacionamento com os filhos que falham o alvo, querer que as crianças os amem acima de tudo (“Parents who long for approval tend to obey their children.” p.86); querer crianças que se amem a elas mesmas (“Parents who raise their children with this goal teach them that their greatest treasure is themselves, not Jesus. (…) The biblical call, therefore, is not that our children would love themselves more than they do, but that they would love others as much as they love themselves, and God even more – more than anything and anyone.” p. 86); querer que sejam moralmente correctas (“Morality that flows from a heart focused on duty cannot please God and does not please God.” p. 87); e por último, crianças que tenham sucesso (“They want their children to achieve in sports so badly they are willing to sacrifice the corporate worship of Jesus on a regular basis” p.88).

Como ensinar, então, as nossas crianças a valorizar (“treasure”) Jesus acima de todas as coisas? Orando por elas, sendo exemplo para elas, em casa, ajudando-as a desenvolver as disciplinas espirituais, sendo fiel.

“Fathers must look for opportunities to encourage their children on a regular basis, pointing out their strenghts while coaching them through their weaknesses.” (p. 96)

Thompson termina com Josué 24

14Agora, portanto, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com sinceridade: lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos antepassados do outro lado do Rio e no Egito, e servi de coração a Yahweh.15Porém, se não vos parece bem servir a Yahweh, escolhei agora a quem quereis servir: se as divindades às quais serviram vossos antepassados além do rio Eufrates, na terra da Mesopotâmia ou os deuses dos amorreus em cuja terra agora habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR!”…

“God does not call us to accomplish what we can do in our own stregth. He calls us to accomplish things only he can achieve. (…) consecrate your home to the service of the Lord” (p.101)

Concluindo, um livro pequeno, mas cheio de desafios e “pragmatismo” bíblico, um livro que nos chama, a nós pais, a sermos discípulos melhores e mais conscientes por amor aos nossos filhos, amando e sendo amados por Deus.