Dobragens e legendas

Discutia com uns amigos, há umas semanas atrás, (tenho uma filha de catorze anos que nos nasceu cá em casa já com catorze anos) a decisão da maioria dos canais de programas infantis e infanto-juvenis terem emissões (quase) totalmente em português, dizia que numa era como a nossa, em que a tv é digital, é relativamente fácil mudar o áudio dos canais e acrescentar/retirar legendas ao prazer do utilizador, isto claro se ambas as opções estiverem disponíveis.

Lembro-me do Cartoon Network só emitir desenhos animados no original e o meu cunhado, com 6 anos, já perceber e usar determinadas expressões em inglês; deduzo que muitos dos que viram o canal percebam alguma coisa de inglês à custa dele. A minha filha não é propriamente uma poliglota, e tem também algumas dificuldades na leitura do português, como é que conseguimos mitigar essas dificuldades (no que à tv diz respeito) se a tv não ajuda? Há duas semanas descobri que o Disney Channel permite ver as séries com o som original, não tem é legendas, mas se a gaiata não percebe patavina de inglês como a colocar aos catorze anos a ver algo sem que consiga retirar qualquer sentido? Lutas destas na adolescência são muito maiores!

Não pretendo dar respostas às questões colocadas anteriormente, até porque ainda não as temos. A razão desta introdução é pensar que estamos a regredir numa prática portuguesa, a ausência de material dobrado. Historicamente, os anos oitenta tinham mais razões para a existência de programas dobrados  do que a segunda década do século XXI, mas a verdade é que, por culpa dos canais de cabo, a realidade alterou-se.

Somos um país estranho na Europa e nas Américas, a maior parte dos países dobra tudo, que calafrio!, ao contrário de nós.

Os EUA têm dificuldades com legendas e até aqui eu levava essa dificuldade com alguma bonomia. Mas, o ano passado lia que houve queixas contra a versão americana de The Bridge, porque os produtores decidiram que sempre que existissem pelo menos duas personagens mexicanas estas falariam em espanhol e não em inglês. Séries nórdicas de qualidade foram adaptadas, porque a qualidade da dobragem americana é fraca e porque o americano que vê televisão não quer ler legendas e não o sabe fazer! Homeland, por exemplo, é baseada numa série popular isrealita. O mercado televisivo americano tem pouco espaço e necessidade para material estrangeiro, quando este é bom simplesmente adapta-o, quando o dobra a qualidade das vozes nem sempre é a desejada.

Mas agora o “estrangeiro” alarga-se e começam os remakes de séries inglesas – Broadchurch, um sucesso de crítica e público, deu lugar a Graceland, quem viu a primeira não percebe a existência da segunda; e Luther, com Idris Elba, parece estar a fazer a mesma travessia. Estas duas séries são somente dois exemplos, e mais interessantes ainda porque as personagens principais são asseguradas pelo mesmo actor, em ambos os lados do Oceano.

O nosso problema é maior, não temos ficção, ia escrever de qualidade, mas com excepção das telenovelas a nossa ficção é redundante e mínima. Toda a ficção que criamos é sucedâneo de telenovela, se não no tom, pelo menos na forma. Ainda não regredimos aos anos noventa em que a TVI decidiu transmitir séries como A-Team em português do Brasil (Esquadrão Classe A), provavelmente não o faremos, mas quando o Governo decidiu esta semana que o inglês torna-se disciplina obrigatória no primeiro ciclo, constata-se que quase não há programas em inglês para as crianças, pré-adolescentes e adolescentes!

As opções que a tv digital nos dá são reais, mas para que sejam práticas é necessário que haja vontade e dinheiro, para além da dobragem, há que pagar também a legendagem.

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Eles andam aí!

Canais há muitos, palerma.

Efetivamente! Não é minha vontade dissertar sobre canais, mas por vezes sinto que a oferta que temos é falsa, quantos canais vemos na realidade? Quanta da programação oferecida nos interessa verdadeiramente? Não há outros canais com alguma qualidade?

Gostava de pensar um pouco não num canal generalista, mas em canais específicos, com uma temática/”missão”/objetivos específicos. Provavelmente, o canal que melhor ilustra o que quero dizer é o MTV, canal marcante nos anos oitenta e que hoje é tudo menos Music Television. Esta mudança tem acontecido, não acredito que seja por luta de audiências, pelo menos no nosso contexto, mas faz-me confusão ver um canal História com programação pouco “histórica” (O Preço da História?!, Loucos por Carros?!). Acredito que haja um espaço para programas como os anteriormente referidos, mas a ideia de criar um canal com determinada linha e/ou programação parece ter dado lugar ao entretenimento fácil e barato. Obviamente que o canal História seria sempre um canal de nicho, este nicho deixou de ser válido? Teremos de deitar fora o caráter educativo e científico de alguns canais/programas em troca do entretenimento?

Quem fala do canal História fala do Discovery, não quero escalpelizar nem discutir a programação destes dois canais, mas quero criticar o Discovery em particular.

Atenção, nada tenho contra o entretenimento, penso mesmo que aprendemos melhor quando nos divertimos, mas não aprendemos se estivermos preocupados somente com o entretenimento.

O meu animal favorito é o tubarão, ainda não perdi a esperança de um dia nadar, nem que seja dentro de uma jaula, com alguns deles. O interesse pelo tubarão leva-me a ler e ver documentários educativos, sérios, científicos e por outro lado a ver e ler produtos de entretenimento, bons e clássicos como o JAWS do Spielberg ou coisas mais fraquinhas como Tubarão em Veneza ou Sharknado; de qualquer forma a escolha é minha e sei ao que vou.

Um dos momentos altos do ano no que diz respeito a tubarões é a semana do Tubarão, do Discovery Channel, este ano foi um mês, com imensos documentários, alguns novos, ainda a cheirar a celofane, ou repetidos e vistos pela 3ª ou 4ª vez.

O ano passado emitiram um falso documentário, acerca do Megalodon, que deu que falar, menos pelo conteúdo, antes por ter sido emitido como verdadeiro, somente no final é que explicavam que o mesmo era uma obra de ficção. Antes de o ver já sabia do que se tratava, confesso que até achei piada à mistura de dados científicos e parvalheira, o Meg é uma paixão minha e estou há mais de quinze anos à espera que transformem o livro de Steve Alten em filme. Aliás, o ano passado foi pródigo em mockumentaries, com outro falso documentário sobre sereias, com efeitos especiais tenebrosos a la Sharknado, algo que o Agente Mulder veria satisfeito, já que a meias com as sereias havia uma enorme teoria da conspiração.

E é aqui que divido as águas, quando um canal ou produtora de documentários decide dar uma de Sci-Fi dos documentários a coisa pode não correr bem e começa por correr pior quando se emite um programa destes sem avisar inicialmente de que se trata de uma obra de ficção.

Este ano, durante o tal mês do tubarão, no meio de tantos documentários, que já usam as diversas técnicas  (de realização, escrita e pós-produção) dos programas de entretenimento mais rascos, vi um documentário (Shark of Darkness: Wrath of Submarine) sobre um ataque de tubarões na África do Sul, após um naufrágio. Achei estranho não ter lido ou visto nada sobre o caso, mas avancei. A determinada altura, o documentário  parece transformar-se numa espécie de Mentes Criminosas do mundo animal e somos apresentados a um tubarão de pelo menos 6 metros que aterroriza as águas sul africanas há 3 anos. A meio do documentário, percebendo que estou a ver um mau filme com tubarões, mascarado de documentário, vou ao google e pesquiso.

Sim, era mais um dos falsos documentários que parece estar na moda; sim, era mau e inverosímil, nomeadamente a partir de menos de metade; sim,os efeitos especiais e os atores são piores do que os de um filme de série z; sim, já estava preparado para identificar um documentário destes; mas há algo que me choca e confunde, eu até consigo perceber que um canal ou produtora que produzam documentários sobre tubarões apostem nuns documentários falsos sabendo que vão ter audiência, nos EUA foi o programa mais visto da Shark Week dos últimos anos; o que tenho maior dificuldade em processar é que um canal que dedica uma semana por ano a um animal, que realça que a maior parte dos ataques são causados pela presença do homem no habitat do tubarão, mais do que por este ser uma máquina assassina voraz, produza e emita um programa em que o tubarão é apresentado de forma negativa, como um stalker sádico que está à espreita e apresente tudo isto num pacote de histerismo e guerra pela sobrevivência.

É de supor que teria tido algum gozo a ver Wrath of Submarine se soubesse do que realmente se tratava, se me tivessem dado a escolher o entretenimento pelo entretenimento,  mas senti-me enganado a ver algo que poderia ter saído da cabeça de um dos habitantes de Amity Island ser apresentado como real.

Enquanto encararmos a natureza, a história, a educação no geral, como algo entediante, enquanto fizermos concessões à verdade tornando-a mais apetitosa para o espírito da época nunca chegaremos a lado nenhum enquanto sociedade, trocamos o conhecimento pela futilidade, e tornamos verdadeira a frase de que o meio é a mensagem!

Uma Jornada na Graça

Uma Jornada na Graça, de Richard Belcher é uma novela teológica, editada pela Editora Fiel e que devia estar cá em casa há mais de uma dezena de anos, li-a hoje, de uma penada.

Entendamo-nos, como obra de ficção é fraca, a narrativa é relativamente simples, as personagens são tipológicas e por isso redundam muitas vezes em clichés, mas a ficção é somente um pretexto para discutir o calvinismo.

Ira é um seminarista batista que tenta descobrir, e acaba por se interessar , o que é o calvinismo e se este pode ser defendido biblicamente. Ao longo das páginas, conhecemos alguns colegas de seminário ainda não convertidos, professores que o ajudam ou dificultam na sua tentativa de confirmar a lógica bíblica do calvinismo, a namorada que será a sua esposa, as agruras e alegrias do ministério, os desafios da fé e a defesa do calvinismo, nomeadamente dos cinco pontos, um pouco da história batista.

Como já o referi, o interesse de Uma Jornada na Graça não é a narrativa, previsível e simplista, a maior parte dos capítulos do livro de Richard Belcher é ocupada com a apresentação e defesa dos cinco pontos do calvinismo. No entanto, o mais interessante é perceber que apesar da narrativa não ser de primeira água, é esse aspeto ficional que abre os horizontes do livro e permite não só transmitir, discutir e defender as doutrinas da graça, mas levantar algumas questões laterais de forma natural e “vivida” – o hiper calvinismo, a diferença entre igreja visível e invisível, o ataque intransigente e pouco racional às doutrinas da graça, o papel da oração e santificação – deixando espaço para o leitor pensar em algumas destas questões, até comparando com a sua experiência.

Talvez seja o lado leve e despretensioso da narrativa que eleva a capacidade de argumentação e defesa do autor, o que em si mesmo, e pelo que tenho escrito atrás, é um paradoxo. O cerne do livro é teologia pura e dura e pouco dado a romances, mas foi essa  convivência estranha que  aumentou o meu interesse. Nada do que Belcher diz ou defende, nada na sua exegese, é realmente novo para mim, mas o formato acabou por me permitir reciclar e renovar algumas ideias de forma rápida e natural.

Crazy Busy de Kevin DeYoung

Decidi comprar Crazy Busy num período mais calmo da minha vida profissional, provavelmente há dois anos o livro teria arranhado mais profundamente. Estou a duas semanas de ficar desempregado, no entanto, este pequeno livro ajudou-me a pensar na forma como trabalhei e encarei o trabalho nos últimos oito anos e, por outro lado, como vou redefinir as minhas prioridades e tarefas nos próximos meses.
Facilmente somos toldados pela quantidade de coisas que temos para fazer, muitas das vezes somos dominados pelas tarefas a cumprir e as nossas ocupações tornam-se o objeto da nossa vida, qualquer que elas sejam – não falamos aqui necessariamente de trabalho.
O livro é dirigido a pessoas ocupadas, pessoas que estão ocupadas aqui e acolá (I Reis 20:40) e correm o risco de desaparecer espiritualmente. No segundo capítulo, DeYoung identifica três perigos que uma vida ocupada pode trazer, pode arruinar a nossa alegria, a alegria deve ser a marca de um cristão; pode roubar os nossos corações, o cuidado com as coisas do mundo e o desejo por outras coisas que não as do Reino de Deus e, por último, pode esconder o estado lastimoso da nossa alma/vida espiritual.

Nos sete capítulos seguintes, DeYoung leva a cabo diversos diagnósticos, que de uma forma ou outra mostram como as diversas áreas da nossa vida podem ser desgastadas pelas ocupações, mas também como a nossa vida espiritual é mascarada e escondida pela forma como nos ocupamos sempre com qualquer coisa.
Os sete diagnósticos são, no original, 1. You are beset with many manifestations of pride; 2. You are trying to do what God does not expect you to do; 3. You can´t serve others without setting priorities; 4. You need to stop freaking out about your kids; 5. You are letting the screen strangle your soul; 6. You´d better rest yourself before you wreck yourself; 7.You suffer more because you don´t expect to suffer at all.

O primeiro diagnóstico tem a ver com o facto de sermos criaturas pecaminosas e mais especificamente com o nosso orgulho, este capítulo parece-me essencial para qualquer cristão consciente da sua natureza; Deyoung diz que muito do que fazemos e muito daquilo com que nos ocupamos é uma forma dos outros olharem para nós, uma maneira de nos fazermos visíveis aos olhos dos outros e de esperarmos bajulação/agradecimento pelos nossos esforços, uma das verdades elencadas neste capítulo que mais mexeu comigo foi a noção, que muitas vezes temos, de que somos a única pessoa que pode fazer determinada tarefa (“But the truth is, you´re only indispensable until you say no. You are unique. Your gifts are important. People love you. But you´re not irreplaceable.”), há outras formas de orgulho presentes na forma como agimos, como fazemos as coisas, no final o resumo é concreto e objetivo, para quem fazemos as coisas? A quem é devida a honra por aquilo que fazemos? (“Am i trying to do good or to make myself look good?”, “Ask yourself: am I serving me or serving them?”, “Feed people, not your pride”).
De seguida, o autor mostra que não conseguimos fazer tudo, nem tudo o que nos aparece à frente. Aqui, somos relembrados de que não somos Cristo, não podemos acudir a todas as situações, nem o próprio Salvador o fez; cuidar das pessoas nem sempre é sinónimo de fazer algo por elas; por vezes, a nossa preocupação não tem obrigatoriamente de ter uma face ATIVA na erradicação ou solução desse problema; os nossos dons e talentos são distintos, por isso é possível que sejamos chamados a fazer algumas coisas e não outras; o autor convida-nos a pensar na natureza e missão da Igreja e pensar no que temos feito nela, por ela e para ela (em última instância para Deus), terminando na importância da oração. Resumindo, “It´s a cross that says i´ll do anything to follow Christ, not a cross that says i have to do everything for Jesus.”
Com base no texto de Marcos 1:35-39, DeYoung estabelece o 3º diagnóstico, não podemos servir os outros sem estabelecer prioridades, o ponto é que Jesus percebeu que todas as coisas que fez não foram necessariamente todas as coisas que podia ter feito. Estabelecer prioridades é de algum modo trabalhar arduamente para descansar, ser disciplinado. Para o autor, estabelecer prioridades é necessário para que possamos perceber que não podemos fazer tudo, para servir os outros de forma mais efetiva e deixar que os outros também estabeleçam prioridades.
O 4º diagnóstico tem a ver com os filhos, DeYoung mostra como a família atual é a única que é estabelecida a partir das crianças e diz que a parentalidade é o último bastião do legalismo. “One of the most resiliente and cherished myths of parenting is that parenting creates the child”. “We may not be able to shape our child´s future identity as much as we´d like, but we can profoundly shape their experience of childhood in the present.”
O 5º diagnóstico tem a ver com o tempo que passamos online e a forma como perdemos tempo na internet (seja em pesquisas ou no Facebook) de forma leviana. Ocupamo-nos com coisas sem interesse e achamos que estamos ocupados porque elas nos roubam tempo, tempo necessário e importante para estar com a família, Deus e amigos. Os perigos elencados são o vício com as novas tecnologias, o pecado da acédia, o perigo de nunca estarmos sós e de não estabelecermos relações verdadeiras, quando criamos em nós somente a noção de que as temos.
O penúltimo diagnóstico convida-nos ao descanso antes que implodamos, o autor mostra a importância de um dia de descanso a partir do Sábado judaico e do Domingo Cristão, explica como Deus ao longo de toda a Bíblia mostra a necessidade do descanso, do estabelecimento de ritmos. “It´s hard to trust God, hard to let go, and hard to stop. When thinking about busyness, people talk as if hard work is the problem. But we´re not actually in danger of working too hard. We simply work hard at things in the wrong proportions.” “We all know we need rest from work, but we   don´t realize we have to work hard just to rest.”

Por último, DeYoung diz que sofremos mais porque não esperamos sofrer sequer. Por um lado, explica que o antídoto para a ocupação desmedida é descanso, ritmo, matar o orgulho, aceitar a nossa própria finitude e confiar na providência divina; por outro lado, lembra-nos de que o sofrimento é parte do caminho cristão, Deyoung dá o exemplo de Paulo, que esteve sempre ocupado e muitas das vezes exaurido com a reação de igrejas e irmãos. Sofreu com o seu ministério, mas não encarou esse sofrimento primariamente como uma falha sua, mas como uma consequência da nossa natureza e do plano de Deus.
DeYoung termina o livro estabelecendo “a Martha work ethic in a lazy Mary world”, muitas vezes criticamos Marta, irmã de Lázaro, mas quantas vezes a visão de Marta é a nossa? Devemo-nos lembrar de guardar as coisas boas em primeiro lugar, de praticar o que Maria fez, descansar e aprender aos pés de Jesus.
“If someone recorded your life for a week and then showed it to a group of strangers, what would they guess is the ´good portion´of your life?”
A resposta a esta questão pode ser depressiva, Crazy Busy é um pequeno livro que nos atinge dura mas amorosamente numa área importante das nossas vidas, pelo menos, da minha. Diminuir o ritmo é também mudar o foco, é buscar a santificação pessoal, é crescer no conhecimento da Palavra, na prática da vida cristã e na comunhão com Deus, com a nossa família e os nossos irmãos.

Captain America 2 : The Winter Soldier

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Ou muito me engano ou a introdução vai ser maior do que o texto sobre o filme, ficam avisados…

Tenho uma relação ambígua com adaptações, neste caso, de bandas desenhadas ao cinema, desde que me conheço que coleciono comics, sinto que as adaptações ficam quase sempre aquém, as escolhas (alterações de personagens, guarda-roupa, finais, etc) nem sempre fazem sentido e a liberdade artística numa folha de papel tem consequências enormes para a imagem ou budget de um filme, o que se traduz normalmente em diversos constrangimentos (nomeadamente, ao nível do argumento ou do guarda-roupa). 

A  ideia de construir um universo cinematográfico com base em personagens chave foi um risco bem calculado por parte dos Marvel Studios, a primeira fase consistiu em 6 filmes (Iron Man, The Incredible Hulk, Iron Man 2; Thor e Captain America: The First Avenger), que culminou em The Avengers, um dos filmes mais lucrativos de sempre.

A grande dificuldade por vezes é encarar o filme como outro media, e não estar constantemente à procura de referências, de oportunidades para criticar o fato de determinada personagem. Confesso-me desde já, The Avengers foi o meu guilty pleasure do ano passado, não é um grande filme, mas é grande entretenimento. Pessoalmente, os Iron Men pouco ou nada me dizem, talvez por nunca ter gostado muito da personagem, tirando o que Bob Layton e David Michelinie fizeram com Tony Stark na década de oitenta, nos comics; o Thor pareceu-me interessante, mas passou-me um pouco ao lado, ainda não vi o segundo filme, e penso que o primeiro é sempre o mais complicado, é tarefa ingrata tentar apresentar a personagem para um público mais vasto do que somente o seguidor de banda desenhada; o primeiro Captain America foi, surpreendentemente para mim, o meu favorito desta primeira onda de filmes. Vi o The Incredible Hulk mas sinceramente não me lembro de grande coisa.

Steve Rogers, o Capitão América, é uma personagem idealista, um peregrino em terra estranha (um homem da década de 40 no século XXI), um devoto à causa e valores americanos. Normalmente, é esta exaltação americana que me impede de relacionar totalmente com a personagem – os comics tendiam muitas das vezes a serem sermões das virtudes e espírito americanos. No entanto, o primeiro filme era uma homenagem não só à banda desenhada original, como ao espírito dessa mesma banda desenhada, dando-nos a origem da personagem, a sua utilização na propaganda de guerra é mostrada de forma cínica e em oposição à personalidade de Rogers e a participação na guerra propriamente dita é fruto dessa herança dos comics casada de forma agradável e espetacular com os efeitos especiais. De entre todos os filmes dessa primeira fase, é facilmente o filme mais divertido, simples e despretensioso, o mais direto, talvez por isso me tenha agradado tanto.

A segunda fase vai a meio, Iron Man 3, Thor: The Dark World, Captain America 2: The Winter Soldier já estrearam, faltam somente dois filmes, Guardians of Galaxy e o regresso do grupo de heróis mais conhecido da Marvel em The Avengers 2: Age of Ultron. De referir que a par do universo  cinematográfico, a Marvel Studios está já presente na televisão, com Agents of S.H.I.E.L.D. (fraquinha e penosa, na minha modesta opinião) e parece querer apostar em Agent Carter (o love interest de Steve Rogers no primeiro Captain America), sem esquecer o acordo firmado com a NetFlix, quatro séries de 13 episódios (Daredevil, Jessica Jones, Iron Fist and Luke Cage) e uma mini-série que juntará estas quatro personagens (The Defenders).

O tempo dirá se a Marvel não estará a colocar demasiados ovos no cesto, se o interesse do público não esfriará perante tanta oferta e se algumas apostas (Agents of SHIELD) não são contraproducentes.

Ontem fui ver o segundo Captain America (não, não vi nem Iron Man 3, nem Thor:The Dark World), e este não podia ser mais distinto que o anterior. Se o primeiro filme funcionava como uma homenagem ao espírito das histórias criadas por Joe Simon e Jack Kirby, este segundo filme expira Ed Brubaker em todos os seus poros. O primeiro era retro, simples,  não intrusivo, divertido e até pateta,  este segundo continua a ter humor, mas é mais negro, a violência parece ser mais crua, mais realista, menos encenada, alguns dos problemas atuais estão presentes.  Os realizadores deste último filme quiseram fazer uma obra que fosse inspirada by 1970s thrillers, and working with Redford — who featured in ’70s classics like Three Days of the Condor . 

O filme essencialmente anda à volta de um ataque à Shield, com The Winter Soldier a liderá-lo, sendo que a equipa de heróis no ativo é composta por Capitão América, Viúva Negra e Falcão. O filme tem algumas surpresas, nomeadamente a alteração de alguns status quo que deverão influenciar o futuro deste universo. Como já escrevi, continua a haver humor, as cenas de luta são mais estilizadas, mais rápidas, mais imprevisíveis, pela primeira vez existe uma sensação de fraqueza/perigo para as personagens. O filme, ainda que use  efeitos especiais, parece fazer com que os espectadores os ignorem mais do que em outros filmes da Marvel. As cenas de perseguição automóvel, a presença e utilização do escudo parecem mais orgânicas e menos cinematográficas (menos festivas) do que no primeiro filme.Na primeira fase, a ligação entre os diversos filmes é por vezes ténue, mas normalmente é feita pela Shield, uma aparição aqui ou acolá, muita das vezes depois dos créditos finais (Fury no final de Iron Man; Coulson no final de Iron Man 2 e afins). Com o sucesso de The Avengers, as ligações tornam-se mais objetivas, e a presença central da Shield como agregador do universo é feito de uma forma natural e lógica.

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A grande diferença deste filme para os outros, pelo menos aqueles que vi, é a forma como consegue ressoar a realidade atual – as fugas de informação (Snowden?), a vigilância constante por parte do Estado (EUA e os recentes casos diplomáticos ou os drones na ordem do dia) – envolvendo estas questões no universo da Marvel. As questões éticas e a forma como Steve Rogers as vê, nascido e criado nos anos 40, tornam o filme extremamente interessante. As lutas de poder, as black ops, o poder e domínio da informação, as organizações terroristas são questões levantadas ao longo do filme, que se torna num thriller de conspiração ao estilo dos anos 70, sim, mas que resume muitas das histórias contadas nos últimos 10 anos nos comics, piscando o olho ao contexto em que vivemos.

O elenco, como no primeiro filme, volta a ser forte, Samuel L. Jackson (Nick Fury), Scarlett Johansson (Viúva Negra), Hayley Atwell (Peggy Carter) e Cobie Smulders (Maria Hill) envolvem-se em mais um capítulo da saga da Marvel; mas Robert Redford (Alexander Pierce) e Howard Mackie (Sam Wilson/Falcão) são duas novas personagens, esta última uma personagem que conheceu maior sucesso na década de 70, nas páginas a quadradinhos.

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O filme falha um pouco naquilo que é mais característico nos filmes dos Marvel Studios, há piscares de olhos a outras personagens que poderão aparecer mais para a frente, Stan Lee faz o cameo do costume, Agente 13 aparece mais como promessa futura do que como personagem concreta. O título poderia até ter sido outro, a personagem de The Winter Soldier ainda que central e importante na mitologia de Steve Rogers deverá despontar com maiores cuidados na próxima  sequela. Quem conhece a história da personagem sabe da sua importância no universo do Capitão América, aqui divide-se a sua participação entre o papel de vilão e esse outro papel que fica guardado para o 3º filme, a sua definição foge um pouco das temáticas deste filme e acaba por ser mais uma pista para o futuro do franchise, mas diminui a unidade temática do filme, em certo sentido. Mais do que um stand-alone que é, o filme marca então a passagem de testemunho para Avengers 2 e para Captain America 3, o que pode irritar algumas pessoas, mas que é também uma marca do sucesso dos filmes e uma obrigatoriedade pelo menos enquanto os filmes forem vistos.

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Captain America 2 é uma produção segura, um filme de ação interessante, que vive da boa química entre as personagens, que pretende demonstrar a evolução do universo (cinematográfico e televisivo) e que parece conseguir fazê-lo, mas essencialmente prova que a mudança pode ser uma boa coisa, não existem grandes semelhanças entre os dois primeiros filmes de Captain America, o que é bom é que cada um funciona bem à sua maneira, a ver se a fórmula é para seguir na 3ª fase.

Uma última nota só para enaltecer a qualidade do genérico final, muito bom!

 

 

 

 

 

The Monuments Men

 

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Recentemente vi The Great Escape (A grande Evasão), filme de John Sturges, de 1963, com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson e Donald Pleasence.
O filme baseia-se vagamente ( na realidade não houve americanos envolvidos, as nacionalidades envolvidas eram em maior número, etc, etc) em factos reais e conta a história da fuga de soldados aliados de um campo de concentração durante a II Guerra Mundial.
O que me marcou foi o sentimento de leveza e humor em situações extremas que o filme veicula, em oposição ao final, em que vários dos fugitivos são mortos após a evasão. Esta contradição entre o espírito do filme e o final, a esperança e esforço humano face a uma realidade mais crua e cruel, deixou-me um sentimento agridoce, mas positivo. Acima de tudo A Grande Evasão é um excelente escape, é cinema como espetáculo (ainda que o cinema dos anos 60 seja muito diferente do contemporâneo) e um bom veículo para as suas estrelas.

É por isso que começo pelo filme de Sturges para falar do novo filme de George Clooney, The Monuments Men, que falha nessas três missões acima descritas. Clooney realiza, escreve, protagoniza e produz então esta história de um grupo de homens que tem como missão encontrar, resgatar e devolver peças de arte roubadas pelos nazis, missão que começa após o Dia D.
O filme conta com um elenco recheado de estrelas, Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Jean Dujardin, Hugh Bonneville, Cate Blanchett e Bob Balaban.

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Onde é que o filme falha?

É episódico, ainda que o não seja expressamente, carece de uma unidade narrativa.

O humor não convence, a narrativa é convulsa e cheia de clichés, o maior deles o final, o elenco parece ser mais um grupo de amigos que se juntou para festejar esse acontecimento e não para trabalhar e parece-me dos maiores esbanjamentos de talento dos últimos anos.
O filme é pouco mais do que uma série de quadros/sketches/episódios que acompanham as diferentes personagens nas suas diferentes missões/localizações, Clooney tem muito (tudo?) para aprender com Tarantino, estou-me a lembrar de Inglorious pelo período histórico, pela estrutura episódica, mas também pela riqueza dos diálogos (e, sim, a comparação só ajuda a minorizar o filme de Clooney). As personagens são pouco desenvolvidas, algumas delas, como Stahl (um oficial nazi) e um oficial soviético, pouco mais são do que caricaturas, o que me irritou. Blanchett, que é uma das atrizes que mais admiro, aqui parece rasa, em esforço para nos convencer da sua personagem, esforço que me parece inglório; Damon é Damon a fazer uma versão do humor presente na série Ocean´s. As personagens acabam por ser caricaturas de outras que estes atores já vestiram e o filme parece ficar órfão deste passado cinematográfico, as personagens parecem ser ecos de outras, o filme ecoa uma tradição cinematográfica que nunca concretiza, deixando cair sombras de outras cenas já vistas, mais do que uma homenagem ao espírito daqueles homens, parece-me uma degradação (no sentido de falhar a homenagem). Exemplo disto, são as mortes de duas das personagens, que me pareceram algo de somenos importância, mal filmadas, sem suscitar sentimento algum neste espetador, sem veicular a noção do valor da vida/morte pela arte. O filme torna-se mais interessante pelas temáticas que aborda do que pela narrativa que as ilustra, o papel da arte, o valor da vida humana face à cultura e arte são discussões que podem ser iniciadas pelo filme, ainda que este não resista a dar a resposta, o tal final desnecessário, de certa forma um pastiche de, escolha óbvia, O Resgate do Soldado Ryan.

Resumindo, The Monuments Men não foi o escape imaginado, o elenco parece ter encarado a participação “pro bono” da forma errada e já vi Clooney a filmar e a “pregar” (Boa noite e Boa Sorte) melhor. Uma desilusão.

Montejuntos

Montejuntos (ou Montes Juntos) é uma pequena aldeia pespegada junto à fronteira. Ao lado corria-lhe, só e orgulhoso, o Guadiana, hoje vê-se água como nunca se viu, como se a água do dilúvio teimasse em secar, o Alqueva serve de moldura a uma paisagem ora verdejante, ora amarela ressequida, a tender no fim do verão para o castanho seco, quente.

Montejuntos sempre esteve demasiado longe e ao mesmo tempo perto. A viagem durava quase quatro horas (hoje a viagem faz-se entre duas e duas horas e meia), horas em que a cassete de cante alentejano do progenitor dava a volta várias vezes, a minha humilde cultura musical no que ao cante diz respeito é fruto dessas viagens. Vendo Monsaraz o coração batia mais forte, a viagem aproximava-se do fim, a estrada agora acompanhava as aldeias distribuídas ao longo do campo, sprint final duma corrida muitas das vezes noturna.

Os topónimos são-me familiares, Évora, Reguengos, Monsaraz, São Pedro do Corval, Motrinos, Cabeça de Carneiro, mas também Vila Viçosa, Mourão, Terena, Barragem do Lucefécit, são etapas da viagem, de viagens, são locais presentes nas conversas, nas vidas que ali habita(va)m.

A aldeia é pequena, um largo com três cafés, duas mercearias, cafés que, na minha infância, eram o ponto de encontro de todos os homens da aldeia, velhos e novos, habituei-me a ver ali os anciãos a dar dois dedos de conversa e despejar outros dois dedos de tinto, de cigarro ao canto da boca. Hoje os cafés estão vazios, a gente é pouca, a vida é feita a alguns, vários, muitos, quilómetros, o fim de semana enche a aldeia de vida, incha-a um pouco, por um pouco. Os velhos da minha infância já não moram ali, foram morrendo, alguns com idades bonitas, já não vejo muitas das caras e corpos presentes na minha memória. A aldeia despojou-se de gente, mas o largo continua igual, caiado de branco, nenhuma casa nova, a fotografia mental corresponde ao que vi.

Montejuntos era o tio Chico, um homem grande, de sorriso fácil, amoroso e duro. Que amava os sobrinhos, que se pelava por os ter ali. Lembro-me de ir com ele à água, na carroça puxada pelo Manjerico, um burro que habitou toda a minha infância e um pouco mais além. Um homem do campo, que ali toda a vida labutou, que cuidou de gado, passámos um natal numa herdade com ele, uma casa enorme, gigante, fria, incómoda (num inverno dos mais frios e chuvosos que que tenho memória) mas que habita ainda as minhas memórias mais quentes. O Tio Chico que nunca nos deixou fazer amizade com as ovelhas, não são animais de estimação, de casa, são de sustento. O tio Chico que vi uma última vez, sem uma perna por causa dos diabetes, já cego, apertando-me sem me poder ver, a mim de lágrima ao canto do olho, a despedir-me antecipadamente. Ontem, revi com alegria a Ti Antónia, metro e meio de mulher, viúva, mas mulher grande, divertida, afável, e vi o meu tio Chico, no filho, também ele Chico.

Os verões eram quentes, alguns pareciam chapa em lume, antes de almoço éramos irradiados do mundo, enfiados dentro de casa, podíamos descer rapidamente a rua até casa do Tio Chico, mas o sol, o calor, o suor impedia-nos de estar na rua, quase sempre com uma bola, onde as vacas passavam de manhã e à tardinha rumo à vacaria, hoje já não há vacas, a vacaria é um espaço vazio, um espectro de uma realidade ainda minha vizinha. Os verões eram as escondidas à noite, entre as crianças da aldeia e os primos, sobrinhos que ali passavam uma temporada.

Os verões eram a pesca ou a caça dos adultos, acompanhados em brincadeiras petizes. Dormi várias vezes num moinho, passando ali o dia, dentro de água, de rabo para o ar à procura de espargos, respirando o ar puro do campo, vendo Espanha do outro lado da margem. Espanha era no outro lado da margem, era no monte que se via ali ao longe, sentado no muro, onde parti o pulso na véspera de fazer anos, mil novecentos e oitenta e sete? ou nove? Tiago, desce do muro que partes um braço. Tiago, desce. Já não ouvia o meu avô, nenhum neto ouvia, ele antecipava tragédias, um passo dado por nós era desculpa para um aviso, dito, repetido, ecoado durante largos momentos. Tiago desce do muro. Avô, se partir um braço fico com outro. Fiquei com os dois, a bem dizer, verdade das verdades, mas no dia seguinte soprei as velas de braço ao peito e o avô repetia Eu disse-te, não te avisei? Espanha era também na televisão, a TVE e a Antena 3, os jogos do Real e do Barcelona, também do Futre no Atlético. Era estar com os primos, na rua, dentro de casa, sempre juntos.

Montejuntos era a festa, vacas na praça, rifas, chuva. Ainda hoje as vacas estão ali, uma vez por ano, a correr atrás dos rapazes, toda a aldeia unida em torno daqueles animais, lembro-me duma a entrar por uma porta, gritos femininos, louça a partir-se, e regressar à lida da festa, atrás de rapazes, de homens, homens e mulheres empoleirados em troncos, em “carros”, a comer, a rir, a rever família.

Montejuntos é uma pequena aldeia com largos, imensos laços familiares. A cada passo, a cada esquina, a cada novo dia cumprimentava um parente. Ontem, de todos aqueles que vi e com quem falei, dois ou três não eram familiares, mas alegraram-se em me ver, em me reconhecer, um sorriso largo, memórias de um passado recente, a mim afluíram-me várias. E eu, qual filho pródigo, que em dez anos ali fui, o quê?, cinco, seis vezes? a mim reconheceram-me melhor do que à minha mãe que duas, três, quatro vezes, todos os anos visita a terra, a família. Um primo, envelhecido, esqueci-me do nome dele, dá-me um passou bem e trata-me pelo nome. Montejuntos é isto, é família, um local que é casa, mesmo que já não a reconheçamos, que não visitemos como deveríamos, uma casa onde a família é incansável, onde cuida de nós de modos que nos, a mim, pelo menos, envergonha. Onde todos são família, mesmo não o sendo.

Ontem lembrei-me do brunhol, que é o mesmo que dizer farturas, de manhã, no largo da aldeia, feito por uma prima. Lembro-me de pequeno-almoçar leite, ou tofina, ou brasa com brunhol. Ontem, trouxe filhoses, nógado, doces caseiros, tradições carnavalescas, mas também trouxe chouriços, chouriças, farinheiras, um peru inteiro, envergonhado pelo carinho, amor, cuidado que a família nos dispensa.

Montejuntos é lá longe, tão longe que por vezes me esqueço, é tão perto, está tão dentro de mim… ontem voltei por três horas, visita rápida, mas as memórias encheram a barriga, o coração relembrou-se disto, daquilo e de pessoas que habitaram a minha vida.

Montejuntos é uma aldeia pequena, mas é tão grande, tão grande…

Hondo

hondo Hondo é um western de John Farrow, com John Wayne e Geraldine Page, baseado numa short story de um dos mais famosos autores de westerns, Louis L´Amour. As cenas finais foram realizadas por John Ford, ainda que não creditadas, já que a filmagem demorou mais do que o previsto e Farrow teve de abandonar o filme para ir realizar outro já contratado!

Nos anos cinquenta, o western passou por algumas modificações, nomeadamente pela realização de filmes dirigidos a um público mais adulto, o filme encaixa-se nesta tentativa de amadurecer o género, esquecendo a velha dinâmica herói-vilão de uma forma simplista, e tentando criar personagens e narrativas moralmente mais cinzentas.

A história transmite esta dinâmica, Wayne é Hondo Lane, um batedor da cavalaria americana, que encontra uma mulher, Angie Lowe, que vive sozinha com o filho, Johnny, em território apache. O marido desapareceu, presumivelmente morto, mas os apaches sempre os deixaram em paz e, a meio do filme, o chefe apache, Vittorio, estabelece uma trégua definitiva com ela, por admirar a personalidade do filho, estabelece, no entanto, que ou o marido volta ou ela tem de casar com um guerreiro apache.

Hondo acaba por matar o marido de Angie, sem o saber e quando se apercebe de tal coisa já está a viver com Angie, que para o defender da morte disse a Vittorio que este era o seu esposo. O filme acabará com a decisão de Hondo em revelar a verdade a Angie e ao seu filho,  e com uma luta entre Cavalaria e apaches (duh!).

Se Wayne é perfeito neste papel, um cowboy duro, solitário e dividido entre dois mundos, Geraldine Page é uma autêntica surpresa, pelo menos para mim, que a desconhecia. É impossível ver o filme e não perceber que a interpretação de Page é segura, distinta. É uma atriz de outro calibre, veio do teatro e isso percebe-se. Não o consigo explicar melhor do que isto, vejam o filme, Page foi nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária, mas perderia para Donna Reed, pela interpretação desta em From Here to Eternity (Até à eternidade).

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Uma das razões para o atraso nas filmagens, e uma das características mais interessantes presente no filme, é a filmagem em 3D, na época utilizada em Hollywood. Farrow teve imensas dificuldades com a utilização das câmaras específicas no deserto (entre avarias, peso e dificuldades de locomoção das mesmas), mas teve a inteligência de não abusar  delas, ao ver o filme percebe-se que algumas cenas de luta/batalha final (facas, lanças e setas atiradas à câmara) usam este artifício, mas li que o 3D foi usado nas paisagens panorâmicas e nas silhuetas das personagens. O filme só ganha com esta opção e distingue-se da maior parte dos filmes que utilizaram essa tecnologia pelo uso assertivo que faz dela.

Hondo é, então, uma personagem dividida entre dois mundos, viveu entre os apaches, teve uma mulher índia que morreu, e vive de acordo com alguns dos conhecimentos e hábitos índios. Consegue ter uma visão total das razões que assistem a qualquer um dos povos (americanos e índios) na guerra, mas respeita os índios, como nenhuma outra personagem, pelo respeito ser fruto da vivência nos dois universos. É acompanhado por um cão, não o alimenta para que este não se habitue a depender dos outros e treinou-o para detetar índios. É um cão selvagem que rosna quando Johnny tenta fazer-lhe festas, o que espelha a condição de Hondo.

Hondo – He doesn´t need anybody, i want him to be that way. It´s a good way.

Mrs. Lowe – Everyone needs someone.

Hondo – Yes, m´am. Most everyone. Too bad, isn´t it?

No início do filme, Hondo dirige-se à quinta de Mrs. Lowe e ali passa algum tempo, enquanto se restabelece, e leva emprestado um cavalo, como o cavalo que tenta domar, também Hondo tem dificuldades em ser domado, mas as cenas iniciais entre Wayne e Page mostram uma química entre os dois, ainda que ensombrada pela figura do marido, ausente, e a decisão de Hondo em dificultar qualquer ligação entre eles.

Women always figure every man who comes along wants them. – é o que lhe responde quando acha que ela está a tornar-se demasiado familiar.

A ligação entre Johnny e Vittorio é uma ligação de sangue, mas antes de o ser é pela admiração que Vittorio sente pela personalidade, braveza e coragem da criança que esta se estabelece. No meio de uma guerra insana, há lugar para uma decisão, estranhada por índios e soldados, proteger e defender uma mulher e uma criança. Não os atacar. Essa admiração leva a que o índio ofereça um dos seus como marido a Lowe, já que uma criança não pode viver sem pai e precisa de um modelo masculino que o ensine a ser um guerreiro.

O diálogo entre Hondo e Lowe, quando esta se apercebe que o marido está morto e pelas mãos de Hondo, é o momento alto do filme, mais ainda quando ele luta por dizer a verdade a Johnny.

Lowe – You think truth is the most importante thing.

Hondo – It´s the measure of a man.

Lowe – Not from a woman. A man can afford to have noble sentiments. But a woman only has the man she marries, that´s the truth. And if he´s no good, that´s still her truth.

O filme é sobre relacionamentos e a noção de verdade, que aqui é escondida por um bem maior, mas é também sobre as diferenças culturais entre dois povos, o valor da palavra e a noção de honra, a guerra final é apoteótica o quanto baste, é outro dos momentos altos do filme, mas para além das guerras e brutalidade (entre)vistas, é com tristeza que Hondo prevê o final da guerra com os apaches.

“É o fim de um bom estilo de vida.”

(7/10)

350 caracteres

Algumas brevíssimas narrativas, escritas para um concurso que tinha como limite a utilização de 350 caracteres.

1. João viu um unicórnio pela primeira vez aos seis anos. Aos dez viu um dragão, aos doze um vampiro e uma banshee. Aos dezasseis anos, quatro parede almofadadas, no sanatório. Quando morreu já não viu as paredes do caixão. A fantasia pode ser ligeiramente aconchegante.

2.O barco afunda-se, batendo nas rochas, uma morte gélida. Luís chora, não pela morte anunciada, mas por desejar ouvir o canto de uma sereia, a visão de um ser mitológico antes do grande desconhecido.

3. Hércules fundou Lisboa. Esta é a mitologia resgatada por Pessoa, uma loucura poética que relembra a imaginação de uma cidade.

4.  Criámos sereias para poetizar a morte, desculpar os erros humanos, sonhar o incógnito, imaginar quimeras marinhas. Criámos sereias porque a imaginação alimenta a modorra dos dias. Experimenta viajar num barco, durante uma semana. Imagina fazê-lo há 2000 anos atrás!

5. João tinha tendências suicidas. Um dia saltou do primeiro andar, a fratura exposta curou-o.

 

The Maltese Falcon

In 1539 the Knight Templars of Malta, paid tribute to Charles V of Spain, by sending him a Golden Falcon encrusted from beak to claw with rarest jewels——but pirates seized the galley carrying this priceless token and the fate of the Maltese Falcon remains a mystery to this day.

The Maltese Falcon (1941) marca a estreia de John Huston na cadeira de realizador e é protagonizado por Humphrey Bogart, Mary Astor, Sydney Greenstreet (que também se estreia no grande ecrã) e Peter Lorre. Foi nomeado para Óscar de melhor filme, melhor ator secundário e melhor argumento adaptado.

Bogart é Sam Spade, o detetive criado por Dashiel Hammet. O filme passa-se em São Francisco e começa com a reunião de dois detetives privados, Sam Spade (Bogart) e Miles Archer, com uma cliente, Ruth Wonderly (Astor), que lhes pede que encontrem a irmã desaparecida. Spade rapidamente se vê a braços com uma situação complicada, já que o colega é morto, a cliente desaparece, dois polícias começam a desconfiar dele como o responsável pela morte do colega, dois novos “clientes” oferecem-lhe dinheiro para encontrar uma estatueta de um pássaro, e os três clientes estão interligados entre si.

Roger Ebert considerou The Maltese Falcon como o primeiro policial negro de história do cinema e o responsável pela génese e desenvolvimento do género cinematograficamente, nomeadamente, na década de 40.

“You´re an amazing character”

Bogart é perfeito como Spade, cínico machista encantador, os diálogos estão cheios de precious, good girl, angel, darling e afins, com olhares lascivos, relações extra-maritais, em que o sentido de humor e a subjetividade matreira são essenciais. Não é à toa que a figura dele enquanto detetive privado e este filme sejam glosados até aos dias de hoje, conhecemos de ginjeira as convenções do género, ainda que a principal delas, a voz of, esteja ausente. Spade veste-se como imaginamos, por causa do cinema, que um detetive privado da década de 40 se vista, fato e casaco, gabardine, gravata e chapéu. O álcool e o tabaco são também presenças contantes no género e aqui não faltam.

O falcão do título pouco interessa na realidade, é um macguffin, um pretexto para que a ação decorra. Ação que se passa em San Francisco, mas tirando o shot inicial pouco mais nos indica a localização, até porque o filme é um pouco “claustrofóbico”, já que mais de 95% das cenas são em estúdio.
“I´m a man who likes to talk to a man who likes to talk!”, parece ser a máxima do filme, daí o pouco recurso a cenas ao ar livre. O filme é marcado pela procura do falcão e pela fuga aos problemas que Spade parece encontrar a cada esquina. A personalidade cínica envolve e esconde a incapacidade de compreender a situação em que se encontra, Spade pode não compreender tudo, mas vai inferindo, sugerindo e tentando descortinar as soluções para o mistério, ainda que a sua personalidade se mostre superior à sua incapacidade momentânea.
Se Bogart me convence, Mary Astor fica um pouco aquém no papel de femme fatale, fisicamente não me convence e a química entre os dois parece-me um embuste. Peter Lorre, como sempre, é perfeito num papel viperino, serpenteante e cobarde, não resisto a referir as diferenças tonais entre a sua voz e a de Bogart, principalmente nas cenas em que se “batem” os dois.
A música pareceu-me intrusiva, pouco natural, tanto que a determinada altura irritou-me.
 
“Não tentes perceber-me, tentei uma vez, mas desisti!”
 
Confesso que nunca vira The Maltese Falcon e a minha perceção do mesmo é marcada, por um lado, por um conhecimento alargado da filmografia de Bogart, ele é perfeito neste papel, como o será em The Big Sleep, To Have and Have Not e Casablanca, por exemplo, para dar alguns exemplos mais óbvios, por outro, não consegui descortinar o cinismo e humor dos diálogos como nos filmes já citados. Os diálogos não me parecem tão naturais (e, paradoxalmente, ao mesmo tempo tão artificiais) como nos dois filmes referidos. O que não é tão verdade, quanto isso, per si, os diálogos têm cinismo e humor q.b., mas o que não me passou foi a força e naturalidade, ainda que artificialmente, deles.
 
“Stuff that dreams are made of”
 
A procura do falcão é marcada não tanto pelos sonhos, mas pela cobiça e pelo desejo. No final, Spade dirige-se à femme fatale, afinal envolvida e presa (não, não é um spoiler) e revela-lhe o seu amor, mas também a sua necessidade de a entregar à polícia, se ela quiser, ele esperará por ela, vinte anos que sejam, mas deverá primeiro sofrer a justiça dos seus atos.
Termino por referir a genialidade do trabalho de câmara de Huston, muitas das vezes comparada a Citizen Kane, há aqui, na verdade, uma renovação e inovação no que aos planos dizem respeito, ainda que feitos de uma forma tão natural que parecem usuais, quando são tudo menos isso.
 
Concluindo, The Maltese Falcon não me marcou tanto como esperava, talvez pelos diálogos não serem, para mim, tão naturais/fortes como em outras obras, mas é um mimo, setenta anos depois este filme continua a ser “the stuff that dreams are made of”. Uma série de diálogos cheios de vitalidade, subjetivos e viperinos, uma personagem negra, um anti herói perspicaz, quase amoral, mas com uma moralidade e personalidade próprias.
 
(8/10)