Feliz Aniversário, Isma e Nocas

Há um ano estava num casamento, a pregar. Tentei dar a nega, duas ou três vezes, sem sucesso, mais por não querer esbardalhar-me sentimentalmente e gaguejar no casamento de dois amigos de looooonga data.

Ainda pensei em escrever a mensagem à mão, para lhes dar, mas acho que não têm tanto interesse em hieróglifos como eu…portanto!

 

Efésios: 5:18-33

Deixem-me começar com uma teoria sobre a percepção do casamento, via cultura popular, nomeadamente, através da televisão, cinema e livros. A cultura popular tem uma visão cínica do casamento.

Os livros, as séries de tv e os filmes abordam os relacionamentos amorosos, o namoro e relacionamentos extra-conjugais com todas as ganas; mas o casamento fica fora da excitação.

Roemos as unhas até ao sabugo para saber se (ou quando) as personagens principais vão ficar juntas, mas raramente o casamento tem o mesmo tempo de antena, interesse ou excitação do que um namoro ou um caso extra-conjugal.

O Clark Kent já não está casado com a Lois Lane.

O Peter Parker já não está casado com a Mary Jane.

O fox Mulder já não está casado com a Danna Scully.

E por aí além…

É difícil escrever sobre casamento, porque o casamento é chato ou então um meio para fins pouco ortodoxos. Há algum casamento recomendável em Game of Thrones?

Ao absorvermos a cultura à nossa volta, absorvemos a visão do casamento veiculada por ela.

 

Olhemos para o texto lido, Efésios 5:18-33, para vermos a visão cristã acerca do casamento.

  1. 18 – “Enchei-vos do Espírito.”
  2. 21 – “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.”

Quando o Antigo Testamento fala de temor ao Senhor, está a dizer-nos que esse temor altera a minha relação com Deus. Temer, neste sentido, é ser tomado de espanto diante da grandeza e do amor de Deus. O temor de Deus “liberta-nos” para o serviço, mas Paulo vai palicar o temor a Deus e o serviço mútuo ao casamento!

Neste contexto, são duas expressões que querem dizer o mesmo, o que está cheio do Espírito Santo teme a Deus. São duas expressões que tiram o foco dos meus esforços para o colocar na acção de Deus na minha vida. (I Jo. 4:19)

É possível ser descrente e ser casado, mas não é possível divorciar a fé do casamento, aliás a fé enriquece, aprofunda o casamento!

Se o casamento é serviço, então é mais acção do que sentimentos!

Neste dia de alegria, felicidade, comida e bebida deixem-me dizer “O casamento não é fácil, concordam comigo?”

Conheço casamentos que duraram a lua de mel, há alguns que nem à lua de mel chegaram! A ideia é “ se estás mal, muda-te!”

Inês, Ismael, o casamento é sobre mudanças e o vosso vai assistir a muitas mudanças.

A visão protestante sempre viu o casamento como uma lugar para formar carácter na união de um homem e de uma mulher.

A interpretação clássica protestante acerca do casamento é a de que é um dom de Deus para a Humanidade. Tem o objectivo de povoar a terra, tem um objectivo de desenvolvimento social (um “local” onde educar crianças em harmonia e amor), é uma escola de aprendizagem, serve para controlar paixões, para negar desejos, para servir um ao outro e a outros.

No século XVIII, com o Iluminismo, a visão cultural do casamento muda porque a visão do homem muda, ao abandonar Deus o homem torna-se livre para fazer o que quer, como bem lhe apetecer, usualmente em função dos seus gostos, prazeres e vontade.

Assim temos duas visões do casamento:

  • Uma instituição que visa o bem comum (nós)
  • Uma visão que visa a satisfação do indivíduo (Eu)

Vocês são dois indivíduos, se ignorarem o nós, se cada um quiser satisfazer o seu ego vai haver problemas!

O Isma e a Inês reconhecem que são pecadores. Essa é a base de um casamento cristão. 2 pessoas imperfeitas, pecadoras que se unem para criar um espaço de consolo, amor e estabilidade debaixo da misericórdia de Deus! Quando nos casamos há mudanças e não há modo de antecipar todas essas mudanças.

Paulo refere-se ao casamento como uma mistério (v.32), porque Paulo está a dizer que só compreendemos totalmente o casamento, só cumpriremos bem o nosso papel no casamento, quando virmos o casamento como uma imagem do relacionamento entre Cristo e a Igreja. Um dos propósitos de Deus para o casamento é retratar a relação entre Cristo e o Seu povo resimido.

Cristo não se aproveitou da sua igualdade com o Pai (Fil. 2), mas tomou a forma de servo, morreu, mas Deus o ressucitou dos mortos.

O casamento só funciona quando se aproxima do modelo de amor abnegado de Deus em Cristo. Quando Deus inventou o casamento já pensava na obra redentora de Cristo!

Somos mais pecadores e imperfeitos do que imaginamos, mas também somos mais amados e aceites em Jesus do que possamos almejar.

O amor salvador de Jesus é caracterizado  por esta verdade radical – somos pecadores; mas também por esta outra, se Jesus é teu salvador, ele tem um compromisso radical e incondicional contigo.

“O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo dos riscos e perturbações do amor é o inferno.” C.S. Lewis

Isma e Inês, vão existir perturbações no vosso casamento:

  • Confessem os vossos pecados uns aos outros e a Deus;
  • Dependam de Deus.

v.21 – “sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo”

De que forma?

  1. 22 – “Mulheres sejam submissas” (submissão)
  2. 25 – “Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.” (Amor Sacrificial)

A submissão faz-nos coceira aos nossos ouvidos ocidentais. O argumento é aprender a servir uns aos outros no poder do Espírito Santo. Paulo está a escrever a uma igreja, a dizer-lhe para ser cheia do Espírito Santo e depois aplica este argumento ao casamento. Paulo tem uma visão espiritual do casamento, se não estivermos cheios do Espírito Santo não serviremos bem o noso conjuge. Como é que sabemos que tememos a Cristo e estamos cheios do Espírito Santo? Mulher casada, se és submissão ao teu esposo. Homem casado, se a amas com amor sacrificial.

Paulo está a desafiar os conjuges a viver um para o outro e não para si mesmos! A fazê-lo no temor de Cristo. (Fil. 2:3)

Paulo coloca o conjuge num duplo papel: conjuge e irmão em Cristo.

O princípio bíblico, atestado por Paulo, no casamento é o da liderança/autoridade masculina, mas ao trazer esta noção de serviço e ao estabelecer que a mulher é uma irmã em Cristo, a ideia de autoridade é alterada. Não é uma autoridade fascista, cega. Para ser sincero, o Isma ficou com a fava – amor sacrificial, em último caso é chamado a dar a sua vida pela Inês!

I Cor. 13:4-5

O serviço sacrificial redunda em felicidade, esta é uma ideia estranha, para nós, veiculada pela Bíblia!

Quando procuramos servir o outro dentro do casamento em vez de procurar a minha própria alegria, vou encontrar a minha felicidade!!!

O casamento é uma aliança diante de Deus e com Deus. É um voto vertical, com Deus; e um voto horizontal, um com o outro.

A aliança é a combinação entre lei e amor. Tim Keller diz que o amor precisa de uma estrutura de obrigação e compromisso. O namoro é uma relação de consumo, há necessidade de promoção, temos a Inês em photoshop, o Isma em photoshop.

Muitos casamentos terminam porque não percebem que o casamento nos obriga a despir, não só fisicamente, mas também psicologicamente. Temos de ser nós mesmos, com as nossas falhas e pecados 24h, perante o outro. Vocês vão estar diante um do outro sem photoshop!

Os votos de casamento não são presentes, mas votos de amor futuro, a promessa que fazem hoje é um meio para a liberdade e felicidade. A estrição de liberdade no presente é para estarem ao lado de pessoas de confiam em vós. Escondemos o nosso pior dos outros, o casamento é o local para nos desvelarmos ao outro. Se o outro não me conhecer realmente, ele nunca me poderá amar verdadeiramente. Muitas das vezes, a noção de paixão que sentimos é uma erupção de gratificação do ego, mas não ainda a satisfação profunda de ser conhecido e amado.

Daqui a uns anos, quando a Inês conhecer o pior do Ismael, os seus pontos fracos e falhas, os seus pecados e ainda assim se comprometer com ele, isso será uma experiência mais completa e suprema. E vice-versa.

Com o tempo, vão descobrir realmente como é o outro e amá-lo por ele ser quem é, não só pelo prazer publicitário e do ego que proporciona.

Isma, atenta nestes dois versículos:

  1. 25 – “Amai vossa mulher”

v.28 – “devem amar a vossa esposa”

Estes dois versos explicitam uma obrigação, porque há alturas em que não vais sentir grande amor pela Inês, dias em que te vais esquecer do dia de hoje e dos votos de casamento.

Os sentimentos mudam de intensidade, se seguirmos a nossa cultura o normal é o fim do casamento, o abandono!

Age, ama, haverá alturas em que não te sentirás particularmente carinhoso, queres ir jogar à bola ou ver bola, não vais querer ajudar na lida da casa, falar com a Inês ou perdoar a Inês. A prática do amor fará com que os sentimentos se tornem mais constantes.

Terminando, qual é a missão última do casamento?

Se são irmãos em Cristo, ajudar mutuamente a alcançar a identidade gloriosa da nova criação.

O casamento deve ser um processo de refinamento espiritual mútuo. O casamento não é o culminar da procura pela pessoa ideal, é um processo de santificação a dois. Se o conjuge for somente o parceiro sexual ou financeiro, facilmentre descobriremos que precisamos de actividade fora do casamento para nos sentirmos satisfeitos. Se o conjuge for o nosso melhor amigo, o casamento será o relacionamento mais importante da vossa vida.

Muitos casamento entre cristãos começam com a ideia de jornada em direcção de Deus como algo acessório. A fé é encarada somente como factor de compatibilidade.

Há uma cena da cultura popular, acerca do casamento, que me toca especialmente, é no filme Duelo Imortal (Highlander). Nesse filme, um imortal casa com uma escocesa mortal.

O plano é nas terras altas escocesas onde vivem e constroem a sua casa. Vemos o dia a dia feliz deles. As estações do ano passam, e o que transparece é a felicidade do casal.

Vamos Connor a afastar-se de cavalo, e mais tarde a voltar e chamar por ela…ela responde, e vem do vale, lentamente, Connor continua com o mesmo ar de trintão saudável, ela é uma anciã fraquinha.

No seu leito de morte, ela, velhinha e fraca, ele a vender saúde como nunca, ela pergunta-lhe:

– Por que é que ficaste?

– Porque te amo como desde o dia em que te conheci.

– Não quero morrer. Quero ficar contigo para sempre.

– Também quero isso.

Eles não ficaram juntos para sempre, ela morre e o filme continua. Mas o casamento serve para se ajudarem mutuamente a conhecerem-se melhor, a amar um ao outro, mas também a amar e servir Deus, a serem seus imitadores a caminho da Jerusalém Espiritual. (Cant. 8:6-7)

 

Breve Narrativa

A noite desce rapidamente. Os últimos raios de sol já não aqueciam, alumiavam timidamente o território invadido rapidamente pela penumbra. No quintal ainda nenhuma luz eléctrica, ao fundo via-se a raia, espanhola e alentejana, os pássaros cantavam alto em busca de refúgio em algumas azinheiras e oliveiras. O frio levou-o a entrar em casa, aquecida pela lareira, que servia não só para os aquecer, mas também para cozinhar um cozido de grão em panelas de barro.

A avó, viúva e só, quase todo o ano, dividia-se em tarefas caseiras, a mãe ajudava-a. Batem à porta, um tio de noventa anos entra com ar jovial e aquentado pelos copos de vinho tinto. Tem uma simpatia especial por este Tio, Domingos de seu nome, vê-o descer a rua, mora no monte ao lado da vacaria, vem direito que nem um fuso, gosta de vê-lo subir a rua, encostado ao muro para que o álcool o não derrube. Uma vida estranha esta, passada entre a casa, em que nunca entrou, e a taberna, onde há uns chocolates espanhóis.

Durante a tarde viu um pardal não se desviar a tempo de uma carrinha de caixa aberta, apanhou-o já morto e deu-o ao pai, “sem flobber, uh?”. Viu o ritual do pai, a que está habituado, depenar o bicho, cortar-lhe a cabeça, abri-lo ao meio. Juntou o pardal a outros pássaros que foi apanhando com a pressão de ar, uma tarde destas serão o petisco, fritos em alho e azeite.

Falam do acontecido com o pássaro, o tio olha-o sério e diz-lhe se foi a primeira vez que viu tal coisa, “um pássaro atropelado”. Ri-se nervosamente, diz que sim.

-Não é o mesmo, sabes, mas o meu bisavô dizia que quando um pássaro bate contra uma janela e morre, há alguém que morre.

Os adultos olham para ele, que sorri nervosamente.

-Ti Domingos, porquê? Há tanta gente a morrer e não vejo assim tantos pássaros a bater contra as janelas.

-Estas são mortes especiais, encomendadas.

Continua a história com um gesto, despeja o copo de vinho tinto, olhando-o nos olhos e terminando a despejar umas gotas de vinho em cima do pão.

Acordou com o carpir de algumas vizinhas, o Ti Domingos morreu durante a noite. Aquela conversa estranha fica-lhe na memória e liga-a à morte do tio. Um pardal a fazer de Valquíria, levando a alma do tio para outro lugar, no Alentejo não se deve chamar Valhalla.

Lembrou-se desta história hoje, entrou-lhe um pardal em casa, pela janela aberta. Assustado, tentou voltar à liberdade, matando-se contra as janelas. Já não pensava no Ti Domingos há mais de trinta anos.

Este post acabará por ser sobre cinema

Nunca fui de fazer fretes, e enquanto aluno do ensino superior tive vários. Tive um professor que num semestre inteiro de aulas, deu um artigo da sua autoria de quatro páginas. Durante 12 aulas de hora e meia, bem entendido. O teste era um comentário a tão profundo artigo. Tive um professor que passava uma hora, da tal hora e meia, a contar anedotas que, na sua opinião, punham a ridículo a cultura portuguesa, eu só me ria da sua visão estreita e devo ter ido a… três aulas. Podia continuar a discorrer sobre as amarguras de um aluno que até entrou na faculdade interessado, mas que foi perdendo o interesse em grande parte das aulas. Duas cadeiras houve que me encheram as medidas, Estudos Queirosianos, com o professor Luiz Fagundes Duarte, cadeira dada à 6ª Feira, das 16h30-18h30, horário complicado para um aluno tido como baldas, mas a que devo ter faltado uma aula no máximo. A outra foi uma cadeira opcional, às 08h30, que nunca finalizei, por um lado porque o que queria era o conteúdo, por outro porque nunca me vi capaz de enveredar pelo trabalho final, que era uma análise de um filme, conjunto de obras, aspeto particular ou de um realizador à nossa escolha. A cadeira chamava-se História do Cinema e era dada pelo atual diretor da Cinemateca José Manuel Costa.

Foi o interesse pelo cinema que me levou à cadeira opcional, foi o conteúdo e a estrutura da cadeira, o olhar arguto e conhecedor de José Manuel Costa que ali me mantiveram. A ele devo uma paixão assolapada por Howard Hawks, o único filme que vimos integralmente na aula foi o brilhante Only angels Have Wings, filme que tem o pavoroso título, em português, de Paraíso Infernal.

Mas avancemos, ando a ler o fabuloso livro de François Truffaut, Os filmes da minha vida. Nele reconheço uma facilidade de escrever sobre cinema que me incomoda, pela simplicidade da escrita, pela profundidade da crítica, pela análise capaz e desarmante. Há uns anos convidaram-me para fazer um comentário de um filme numa sessão saudosista desta prática nos idos anos 60. Dificuldade acrescida, não consegui ver o filme antes e fui compondo algumas ideias-base enquanto o via pela primeira vez. Parafraseando um outro professor, dos bons, Abel Barros Baptista, só começamos a ler à terceira ou quarta leitura, como querer ser profundo, prático ou minimamente crítico após somente um visionamento? Estupidez da grossa, o exercício foi rasteirinho e praticamente dedicado à narrativa e interpretação do filme, nem uma palavra, quanto mais frase, sobre planos e ideias visuais.

Confesso esta minha idiossincrasia, fascinar-me pelo que vejo, não querendo antecipar as resoluções ou interpretações até que a experiência esteja terminada. Não que não o faça, descobrir o criminoso a meio do filme ou da leitura é prática comum, mas deixada para último lugar, porque quero, em primeiro lugar, ter o prazer de não ser afastado do conjunto total do objeto.

Ora, um dos aspetos da aula do Professor Fagundes Duarte, era discutir a génese e construção das obras de Eça de Queiroz, como ele escrevia e construía as tramas, mas também o estilo. O trabalho final era, com base num texto ficcional nosso, escrever uma discussão da construção, das escolhas, da escrita do nosso texto. Ora o que será o cinema senão um texto visual, com os seus códigos e escolhas de cada autor? Ler o filme como algo mais do que uma narrativa, mas entender os planos, os significados internos e subliminares de gestos, seja dos atores, seja da câmara.

Truffaut fá-lo com uma, repito, simplicidade e inteligência que me desarmam e humilham, descubro filmes que não vi, anseio por descobri-los pessoalmente e esse é o melhor contributo que qualquer crítico pode dar. E deixa-me a pensar no como gosto do cinema clássico americano, quase tanto como me aborrece o atual, pejado de efeitos especiais,  oco de estilo e conteúdo narrativo.

As conversas da avó

Uma vez por semana, pelo menos, almoço em casa da Avó Joaquina, avó materna, e conhecida na Aldeia como Avó Joaquina. Parece que em pequeno me chateava com o facto de todas as pessoas, petizes incluídos, a tratarem por Avó, hoje já não.

A semana passada, almocei lá, só eu e ela, antes do almoço liguei para uma prima minha, sobrinha dela, perguntei como estavam e passei-lhe o telefone, que as notícias são mais verdadeiras em primeira mão.

Um desfiar de como estão, passando por todos os familiares das redondezas, pelo nome. A determinada altura, uma pergunta que me desarmou, “quem morreu nas últimas semanas?” Cinco minutos à conversa. Um mundo que diminui, ou pela morte ou pela morte e pela memória.

“Já não sei quem é.” Os anos na margem sul, os anos vividos em cima desta terra, as pessoas que passam pela vida… “Já não sei quem é”. Um mundo mais pequeno.

E antes que se eclipse, vou almoçar lá, pelo menos uma vez por semana.

A minha escola secundária já não existe.
Está lá, sim, mas a realidade é outra. A escola onde andei era quase a mesma em que o meu pai andou, tinha uns pavilhões novos, que hoje são velhos, tinha uns pavilhões velhos que hoje já não existem, penso que no último ano em que lá andei demoliram dois ou três, demoliram como quem diz, que os alunos querendo ajudar a empresa de demolições deitou abaixo as paredes ao pontapé!
A minha escola era a pior do concelho, hoje é uma das melhores, à custa de recusar alunos com médias baixas ou dificuldades de aprendizagem. O ano passado, a par do processo de adopção, e tendo de colocar a miúda numa escola, fui lá. A lei diz que o Director tem de aceitar a colocação, o Director diz que não, que tem alunos acima da média por turma, que já tem alunos suficientes com más notas. “Volte no final do terceiro período que vemos o que se pode fazer.”
A minha escola secundária tinha alunos que faziam turismo, outros curso prático de banditismo, lembro-me do jornal da escola fazer uma sondagem sobre quantos alunos do 7º ao 9º eram roubados semanalmente, ficavam de fora os que perpetravam os roubos.
A minha escola secundária tinha bons e maus professores, tive uma professora que deu um 101% a uma colega minha porque a conta dava 101%; tive um professor comunista que nos dava a segunda guerra mundial, a guerra fria e o comunismo a vermelho; tive um finalista em direito que dava biologia sem perceber um caracol daquilo, as notas escritas no teste mudavam consoante a cara do aluno na aula em que os entregava – vi oitos transformarem-se em dezoitos e dezoitos em oito.
A minha escola secundária já não existe, pelo menos quando a comparo com esta versão moderna, higiénica e direccionada para o sucesso.
Mas ao falar com funcionárias e professoras do meu tempo, ao rever os amigos de então, ao ser o que ela me ensinou, a minha escola está ali, mais presente do que nunca.

Parentalidade como discipulado

Intentional Parenting

Ser pai nunca é fácil, mas ser pai cristão traz responsabilidades acrescidas. Quando nos nasce uma adolescente de catorze anos cá em casa, a noção dessas responsabilidades e a prática diária do discipulado encontram-se muitas vezes separadas. Quando a idade da estupidez, vulgarmente conhecida por adolescência, se casa com a inexperiência de determinadas práticas espirituais e com o desconhecimento de uma vida familiar mais estruturada a fotografia fica ainda mais composta – os desafios crescem e multiplicam-se!

Intentional Parenting – Family Discipleship by Design é um livro de Tad Thompson, sobre discipulado familiar, da Cruciform Press – uma editora cristã americana, que tem como plano editar um livro por mês, livro esse que responda a algumas premissas, tem de ter cerca de 100 páginas, ser relevante e biblicamente confiável, simples, com um preço acessível e, no seu conjunto, os livros editados devem explicitar o credo da editora.

A preocupação de Thad Thompson é dupla, por um lado tem constatado a quebra do discipulado nas famílias cristãs, que deixam o ónus para as igrejas, que por incapacidade ou inação pouco têm conseguido alterar esta situação; por outro lado, tenta cativar e capacitar os pais para o discipulado, enquanto prática que se preocupa com a salvação dos seus filhos.

“(…)the discipleship model in which church professionals essentially replace parents as the primary agents of discipleship is just not working.” (p.9)

Thompson é claro ao colocar a responsabilidade do discipulado cristão nos ombros dos pais (Efésios 6:4 e Salmos 78:5)

Thompson escreve pastoralmente para pais que reconhecem ou se desculpam com a sua imperfeição e incapacidade de levar a cabo tal tarefa; usando a passagem de I Coríntios 13:11-13 relembra o leitor de que a perceção dessa incapacidade é vital no discipulado familiar. Deus conhece-nos intimamente e sabe do que somos ou não capazes, apesar disso deu-nos essa responsabilidade, capacitando-nos para essa tarefa (Efésios 3:20).

O objetivo do discipulado é ensinar e “to cultivate truth in the hearts of your children. (…) you should lovingly and prayerfully encourage your children in their walk with Jesus. The nature of the parental role changes as our children mature, but its essence does not, and we are called to steward faithfully all the days the Lord has entrusted to us.” (pág. 21)

Thompson torna-se assustador, ao sistematizar aquilo que o discipulado abarca, i.e., aquilo que o pai deve saber ou investir para discipular o seu filho. Deste modo, sistematiza o discipulado em Evangelho, Teologia Bíblica (A Grande História), Teologia Sistemática (As Grandes Verdades), Grande Comissão, Disciplinas Espirituais, Vida Cristã e Cosmovisão.

O autor demora cerca de um terço do livro, 30 das 108 páginas, a falar destas áreas.

Deixem-me sintetizar (ênfase no sintetizar) os pontos principais feitos pelo autor.

O Evangelho

“you will do whatever it takes to saturate your home life with the message of the gospel!” (p. 23)

Thompson demora algum tempo a distinguir entre o evangelho bíblico (Deus é o santo e soberano Criador do Universo; o Homem rejeitou o santo e soberano governo de Deus; Jesus é o Filho eterno de Deus que veio para resgatar pecadores; O Evangelho exige que todos lhe respondam em arrependimento e fé – p.28-33) e os falsos evangelhos (os falsos evangelhos do aperfeiçoamento pessoal, da prosperidade, da paz e propósito e o Evangelho do “ora esta oração” – p. 24-28)

Teologia BíblicaA Grande História

Conseguimos explicar e explicitar a narrativa bíblica às nossas crianças e adolescentes? Esta tem sido uma área chave para a nossa filha, já que o conhecimento está estilhaçado em várias narrativas,  não há uma noção do conjunto, da Narrativa.

“The Bible is about God working in the lives of men, women, and children, directing all of history toward a sure conclusion.” (p. 35)

“Reading the Bible to extract its “life lessons” puts much of the focus on the reader of Scripture. But the real story of the Bible is about the Author.” (p.35)

Thompson reitera o ponto, a Bíblia foi-nos dada para nos ensinar acerca do carácter e propósitos de Deus, não para reforçar as nossas opiniões pessoais acerca de Deus. (p. 36) Quando conhecemos e reconhecemos a Grande História acerca de Deus e dos Seus propósitos conseguimos interpretar e compreender melhor as passagens mais difíceis, lê-las à luz do Plano de Deus, nomeadamente à luz da pessoa do Seu Filho, Jesus Cristo.

Teologia Sistemática 

Ou na terminologia do autor, As Grandes Verdades, que verdades são estas? A Palavra de Deus, o Carácter de Deus, a Trindade, a Criação e o Domínio Providencial de Deus, a Natureza Humana e o Pecado, a Pessoa de Jesus, a Obra e Ministério de Jesus, a Pessoa e Obra do Espírito Santo, Salvação, a Igreja, e as Últimas Coisas.

“Your children are going to formulate their ideas about the Bible, God, man, and salvation from somewhere. If you do not teach your children biblical doctrine, they will be forced to synthesize key ideas (about who God is and who they are) from random bits of truth and falsehood they collect from church, peers, teachers and the media.” (p. 40)

Deste modo, conhecer e ensinar estas Grandes Verdades às nossas crianças é vital para o seu crescimento espiritual e desenvolvimento. (p. 41)

A Grande Comissão

Temos sido bons dispenseiros do evangelho e discípulos de Jesus? As nossas crianças devem perceber o alcance do evangelho, não só nas nossas casas, mas também a partir delas.

“God has not given us Christ so that people will make much of us; he has given us Christ so that we will make much of him!” (p.43)

“How vital is that our children understand the heart of God for the nations. Our eternity is in heaven, but God keeps us on this earth for a purpose!” (p. 43)

Disciplinas Espirituais

Thompson convida-nos a perceber que as disciplinas espirituais são um meio essencial para o crescimento espiritual (I Timóteo 4:7,8)

Vida Cristã

A ideia nesta área é viver a vida de forma cristã. Como agimos e vivemos no que, por exemplo, ao perdão, pureza sexual, paternidade, casamento e vida familiar, diz respeito? Que exemplo temos sido para as nossas crianças?

Cosmovisão

“A worldview that is not genuinely and therefore God-centered will inevitably be man-centered. But as we pass along to our children a sound Christian worldview, we equip them to navigate the waters of our humanistic, postmodern culture. This may include teaching them how to argue against atheism or scientific naturalism/evolution, and to speak clearly on ethical issues such as abortion, stem cells research, and homosexuality. Worldview also helps us develop biblical philosophies for education, economics, and law. Make sure your own view of the world in wich God has placed us is solidly biblical, and then pass it along your children.” (p.47)

Como é que um pai cristão gere este conhecimento e prática e se dedica a esta tarefa? Thompson é prático, compromete-se a ler a Bíblia, “if you won´t commit yourself to read your Bible, you will never commit to family discipleship.” (p.49); lê, pelo menos, um livro acerca de cada uma destas áreas por ano; escreve o que tem aprendido e discute-o com outros pais, cara a cara ou através de um blog, por exemplo; compromete-se a servir numa igreja que valorize a pregação e o discipulado teológico; recicla o que tem aprendido.

Antes de discutir as quatro áreas do discipulado familiar (a casa, a comunidade, a igreja e o mundo), Thompson relebra que não podemos discipular as nossas crianças para além do nosso próprio nível de discipulado. Baseando-se em Deuteronómio 6: 7-9, mostra que o ensino é rotina e repetição. “Etching requires routine, dedication, focus, knowledge, skill, and consistency, as we repeatedly teach God´s word and apply its truths to everyday life.” (p.58)

O ponto é tão simples quão complicado, saturar a vida familiar e comunitária da Palavra de Deus, em oposição à forma como somos (pais e filhos) saturados pela cultura e cosmovisão seculares.

“How will our children believe that the Bible  is all about all of life if we only talk about it during the Bible lesson?” (p.59)

Qual o propósito do discipulado? Não é oprimir as nossas crianças, mas ajudá-las a adorar Deus em resposta à sua graça salvadora.

Casa

Thompson afirma que a casa, o lar, deve ser o local seguro onde se discutem verdades espirituais profundas e se respondem a questões difíceis acerca de Deus e da Sua palavra. Os pais devem aproveitar as refeições para expressar gratidão a Deus e uns aos outros; no que diz respeito à hora de deitar, o autor defende não só a oração em conjunto, mas dá a sua prática, orar pelos filhos na presença destes, para que eles percebam as preocupações e desejos espirituais dos pais para eles; quanto ao culto familiar, Thompson refere uma prática que me parece importante, e com a qual nos temos debatido e falhado, discutir em família a pregação de domingo ao longo da semana.

Thompson tem ainda uma palavra no que diz respeito à disciplina.

“Discipline in the home, whether physical or verbal, is not about getting your children to behave in a certain way. Children cannot obey perfectly and they never will. If you discipline your children to condition them to perform certain behaviors, you are not raising them in the fear and admonition of the Lord. You are training them in self-righteousness.” (p.64)

A Comunidade

O ponto mais importante nesta área é viver na comunidade de forma a discipular quando as coisas acontecem.

“As parents we should be less concerned overall with whether our children are exposed to non-Christian influences and more concerned with what we do about it when they inevitably are exposed. Let us seize those moments and convert them into discipleship opportunities. That is how Christians are prepared to make an impact on secular society.” (p.71)

A Igreja

O argumento aqui é perceber de que forma a igreja local pode ajudar a educar as crianças a ter esperança e fé em Deus. Como? Fazê-las compreender que a igreja não é tanto um local, mas um conjunto de pessoas, o corpo vivo de Cristo; que ali adoram juntas como uma família, ajudá-las a compreender a autoridade da Palavra de Deus, “children need to learn how to listen to sermons” (p.73).

O Mundo

Esta última área consiste em ensiná-las a amar o mundo e perceber a importância e privilégio da Grande Comissão.

O penúltimo capítulo versa sobre o coração dos nossos filhos, o nosso objectivo enquanto pais cristãos é revelar o evangelho e o Reino de Deus às nossas crianças. “Our treasure is Jesus, Lord of the Kingdom of heaven. To reveal the Kingdom is to reveal the King.” (p.81)

“The goal of family discipleship is to raise children who treasure Jesus above all things.” (p.83)

Thompson destaca quatro objetivos dos pais no seu relacionamento com os filhos que falham o alvo, querer que as crianças os amem acima de tudo (“Parents who long for approval tend to obey their children.” p.86); querer crianças que se amem a elas mesmas (“Parents who raise their children with this goal teach them that their greatest treasure is themselves, not Jesus. (…) The biblical call, therefore, is not that our children would love themselves more than they do, but that they would love others as much as they love themselves, and God even more – more than anything and anyone.” p. 86); querer que sejam moralmente correctas (“Morality that flows from a heart focused on duty cannot please God and does not please God.” p. 87); e por último, crianças que tenham sucesso (“They want their children to achieve in sports so badly they are willing to sacrifice the corporate worship of Jesus on a regular basis” p.88).

Como ensinar, então, as nossas crianças a valorizar (“treasure”) Jesus acima de todas as coisas? Orando por elas, sendo exemplo para elas, em casa, ajudando-as a desenvolver as disciplinas espirituais, sendo fiel.

“Fathers must look for opportunities to encourage their children on a regular basis, pointing out their strenghts while coaching them through their weaknesses.” (p. 96)

Thompson termina com Josué 24

14Agora, portanto, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com sinceridade: lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos antepassados do outro lado do Rio e no Egito, e servi de coração a Yahweh.15Porém, se não vos parece bem servir a Yahweh, escolhei agora a quem quereis servir: se as divindades às quais serviram vossos antepassados além do rio Eufrates, na terra da Mesopotâmia ou os deuses dos amorreus em cuja terra agora habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR!”…

“God does not call us to accomplish what we can do in our own stregth. He calls us to accomplish things only he can achieve. (…) consecrate your home to the service of the Lord” (p.101)

Concluindo, um livro pequeno, mas cheio de desafios e “pragmatismo” bíblico, um livro que nos chama, a nós pais, a sermos discípulos melhores e mais conscientes por amor aos nossos filhos, amando e sendo amados por Deus.

Dobragens e legendas

Discutia com uns amigos, há umas semanas atrás, (tenho uma filha de catorze anos que nos nasceu cá em casa já com catorze anos) a decisão da maioria dos canais de programas infantis e infanto-juvenis terem emissões (quase) totalmente em português, dizia que numa era como a nossa, em que a tv é digital, é relativamente fácil mudar o áudio dos canais e acrescentar/retirar legendas ao prazer do utilizador, isto claro se ambas as opções estiverem disponíveis.

Lembro-me do Cartoon Network só emitir desenhos animados no original e o meu cunhado, com 6 anos, já perceber e usar determinadas expressões em inglês; deduzo que muitos dos que viram o canal percebam alguma coisa de inglês à custa dele. A minha filha não é propriamente uma poliglota, e tem também algumas dificuldades na leitura do português, como é que conseguimos mitigar essas dificuldades (no que à tv diz respeito) se a tv não ajuda? Há duas semanas descobri que o Disney Channel permite ver as séries com o som original, não tem é legendas, mas se a gaiata não percebe patavina de inglês como a colocar aos catorze anos a ver algo sem que consiga retirar qualquer sentido? Lutas destas na adolescência são muito maiores!

Não pretendo dar respostas às questões colocadas anteriormente, até porque ainda não as temos. A razão desta introdução é pensar que estamos a regredir numa prática portuguesa, a ausência de material dobrado. Historicamente, os anos oitenta tinham mais razões para a existência de programas dobrados  do que a segunda década do século XXI, mas a verdade é que, por culpa dos canais de cabo, a realidade alterou-se.

Somos um país estranho na Europa e nas Américas, a maior parte dos países dobra tudo, que calafrio!, ao contrário de nós.

Os EUA têm dificuldades com legendas e até aqui eu levava essa dificuldade com alguma bonomia. Mas, o ano passado lia que houve queixas contra a versão americana de The Bridge, porque os produtores decidiram que sempre que existissem pelo menos duas personagens mexicanas estas falariam em espanhol e não em inglês. Séries nórdicas de qualidade foram adaptadas, porque a qualidade da dobragem americana é fraca e porque o americano que vê televisão não quer ler legendas e não o sabe fazer! Homeland, por exemplo, é baseada numa série popular isrealita. O mercado televisivo americano tem pouco espaço e necessidade para material estrangeiro, quando este é bom simplesmente adapta-o, quando o dobra a qualidade das vozes nem sempre é a desejada.

Mas agora o “estrangeiro” alarga-se e começam os remakes de séries inglesas – Broadchurch, um sucesso de crítica e público, deu lugar a Graceland, quem viu a primeira não percebe a existência da segunda; e Luther, com Idris Elba, parece estar a fazer a mesma travessia. Estas duas séries são somente dois exemplos, e mais interessantes ainda porque as personagens principais são asseguradas pelo mesmo actor, em ambos os lados do Oceano.

O nosso problema é maior, não temos ficção, ia escrever de qualidade, mas com excepção das telenovelas a nossa ficção é redundante e mínima. Toda a ficção que criamos é sucedâneo de telenovela, se não no tom, pelo menos na forma. Ainda não regredimos aos anos noventa em que a TVI decidiu transmitir séries como A-Team em português do Brasil (Esquadrão Classe A), provavelmente não o faremos, mas quando o Governo decidiu esta semana que o inglês torna-se disciplina obrigatória no primeiro ciclo, constata-se que quase não há programas em inglês para as crianças, pré-adolescentes e adolescentes!

As opções que a tv digital nos dá são reais, mas para que sejam práticas é necessário que haja vontade e dinheiro, para além da dobragem, há que pagar também a legendagem.

Eles andam aí!

Canais há muitos, palerma.

Efetivamente! Não é minha vontade dissertar sobre canais, mas por vezes sinto que a oferta que temos é falsa, quantos canais vemos na realidade? Quanta da programação oferecida nos interessa verdadeiramente? Não há outros canais com alguma qualidade?

Gostava de pensar um pouco não num canal generalista, mas em canais específicos, com uma temática/”missão”/objetivos específicos. Provavelmente, o canal que melhor ilustra o que quero dizer é o MTV, canal marcante nos anos oitenta e que hoje é tudo menos Music Television. Esta mudança tem acontecido, não acredito que seja por luta de audiências, pelo menos no nosso contexto, mas faz-me confusão ver um canal História com programação pouco “histórica” (O Preço da História?!, Loucos por Carros?!). Acredito que haja um espaço para programas como os anteriormente referidos, mas a ideia de criar um canal com determinada linha e/ou programação parece ter dado lugar ao entretenimento fácil e barato. Obviamente que o canal História seria sempre um canal de nicho, este nicho deixou de ser válido? Teremos de deitar fora o caráter educativo e científico de alguns canais/programas em troca do entretenimento?

Quem fala do canal História fala do Discovery, não quero escalpelizar nem discutir a programação destes dois canais, mas quero criticar o Discovery em particular.

Atenção, nada tenho contra o entretenimento, penso mesmo que aprendemos melhor quando nos divertimos, mas não aprendemos se estivermos preocupados somente com o entretenimento.

O meu animal favorito é o tubarão, ainda não perdi a esperança de um dia nadar, nem que seja dentro de uma jaula, com alguns deles. O interesse pelo tubarão leva-me a ler e ver documentários educativos, sérios, científicos e por outro lado a ver e ler produtos de entretenimento, bons e clássicos como o JAWS do Spielberg ou coisas mais fraquinhas como Tubarão em Veneza ou Sharknado; de qualquer forma a escolha é minha e sei ao que vou.

Um dos momentos altos do ano no que diz respeito a tubarões é a semana do Tubarão, do Discovery Channel, este ano foi um mês, com imensos documentários, alguns novos, ainda a cheirar a celofane, ou repetidos e vistos pela 3ª ou 4ª vez.

O ano passado emitiram um falso documentário, acerca do Megalodon, que deu que falar, menos pelo conteúdo, antes por ter sido emitido como verdadeiro, somente no final é que explicavam que o mesmo era uma obra de ficção. Antes de o ver já sabia do que se tratava, confesso que até achei piada à mistura de dados científicos e parvalheira, o Meg é uma paixão minha e estou há mais de quinze anos à espera que transformem o livro de Steve Alten em filme. Aliás, o ano passado foi pródigo em mockumentaries, com outro falso documentário sobre sereias, com efeitos especiais tenebrosos a la Sharknado, algo que o Agente Mulder veria satisfeito, já que a meias com as sereias havia uma enorme teoria da conspiração.

E é aqui que divido as águas, quando um canal ou produtora de documentários decide dar uma de Sci-Fi dos documentários a coisa pode não correr bem e começa por correr pior quando se emite um programa destes sem avisar inicialmente de que se trata de uma obra de ficção.

Este ano, durante o tal mês do tubarão, no meio de tantos documentários, que já usam as diversas técnicas  (de realização, escrita e pós-produção) dos programas de entretenimento mais rascos, vi um documentário (Shark of Darkness: Wrath of Submarine) sobre um ataque de tubarões na África do Sul, após um naufrágio. Achei estranho não ter lido ou visto nada sobre o caso, mas avancei. A determinada altura, o documentário  parece transformar-se numa espécie de Mentes Criminosas do mundo animal e somos apresentados a um tubarão de pelo menos 6 metros que aterroriza as águas sul africanas há 3 anos. A meio do documentário, percebendo que estou a ver um mau filme com tubarões, mascarado de documentário, vou ao google e pesquiso.

Sim, era mais um dos falsos documentários que parece estar na moda; sim, era mau e inverosímil, nomeadamente a partir de menos de metade; sim,os efeitos especiais e os atores são piores do que os de um filme de série z; sim, já estava preparado para identificar um documentário destes; mas há algo que me choca e confunde, eu até consigo perceber que um canal ou produtora que produzam documentários sobre tubarões apostem nuns documentários falsos sabendo que vão ter audiência, nos EUA foi o programa mais visto da Shark Week dos últimos anos; o que tenho maior dificuldade em processar é que um canal que dedica uma semana por ano a um animal, que realça que a maior parte dos ataques são causados pela presença do homem no habitat do tubarão, mais do que por este ser uma máquina assassina voraz, produza e emita um programa em que o tubarão é apresentado de forma negativa, como um stalker sádico que está à espreita e apresente tudo isto num pacote de histerismo e guerra pela sobrevivência.

É de supor que teria tido algum gozo a ver Wrath of Submarine se soubesse do que realmente se tratava, se me tivessem dado a escolher o entretenimento pelo entretenimento,  mas senti-me enganado a ver algo que poderia ter saído da cabeça de um dos habitantes de Amity Island ser apresentado como real.

Enquanto encararmos a natureza, a história, a educação no geral, como algo entediante, enquanto fizermos concessões à verdade tornando-a mais apetitosa para o espírito da época nunca chegaremos a lado nenhum enquanto sociedade, trocamos o conhecimento pela futilidade, e tornamos verdadeira a frase de que o meio é a mensagem!

Montejuntos

Montejuntos (ou Montes Juntos) é uma pequena aldeia pespegada junto à fronteira. Ao lado corria-lhe, só e orgulhoso, o Guadiana, hoje vê-se água como nunca se viu, como se a água do dilúvio teimasse em secar, o Alqueva serve de moldura a uma paisagem ora verdejante, ora amarela ressequida, a tender no fim do verão para o castanho seco, quente.

Montejuntos sempre esteve demasiado longe e ao mesmo tempo perto. A viagem durava quase quatro horas (hoje a viagem faz-se entre duas e duas horas e meia), horas em que a cassete de cante alentejano do progenitor dava a volta várias vezes, a minha humilde cultura musical no que ao cante diz respeito é fruto dessas viagens. Vendo Monsaraz o coração batia mais forte, a viagem aproximava-se do fim, a estrada agora acompanhava as aldeias distribuídas ao longo do campo, sprint final duma corrida muitas das vezes noturna.

Os topónimos são-me familiares, Évora, Reguengos, Monsaraz, São Pedro do Corval, Motrinos, Cabeça de Carneiro, mas também Vila Viçosa, Mourão, Terena, Barragem do Lucefécit, são etapas da viagem, de viagens, são locais presentes nas conversas, nas vidas que ali habita(va)m.

A aldeia é pequena, um largo com três cafés, duas mercearias, cafés que, na minha infância, eram o ponto de encontro de todos os homens da aldeia, velhos e novos, habituei-me a ver ali os anciãos a dar dois dedos de conversa e despejar outros dois dedos de tinto, de cigarro ao canto da boca. Hoje os cafés estão vazios, a gente é pouca, a vida é feita a alguns, vários, muitos, quilómetros, o fim de semana enche a aldeia de vida, incha-a um pouco, por um pouco. Os velhos da minha infância já não moram ali, foram morrendo, alguns com idades bonitas, já não vejo muitas das caras e corpos presentes na minha memória. A aldeia despojou-se de gente, mas o largo continua igual, caiado de branco, nenhuma casa nova, a fotografia mental corresponde ao que vi.

Montejuntos era o tio Chico, um homem grande, de sorriso fácil, amoroso e duro. Que amava os sobrinhos, que se pelava por os ter ali. Lembro-me de ir com ele à água, na carroça puxada pelo Manjerico, um burro que habitou toda a minha infância e um pouco mais além. Um homem do campo, que ali toda a vida labutou, que cuidou de gado, passámos um natal numa herdade com ele, uma casa enorme, gigante, fria, incómoda (num inverno dos mais frios e chuvosos que que tenho memória) mas que habita ainda as minhas memórias mais quentes. O Tio Chico que nunca nos deixou fazer amizade com as ovelhas, não são animais de estimação, de casa, são de sustento. O tio Chico que vi uma última vez, sem uma perna por causa dos diabetes, já cego, apertando-me sem me poder ver, a mim de lágrima ao canto do olho, a despedir-me antecipadamente. Ontem, revi com alegria a Ti Antónia, metro e meio de mulher, viúva, mas mulher grande, divertida, afável, e vi o meu tio Chico, no filho, também ele Chico.

Os verões eram quentes, alguns pareciam chapa em lume, antes de almoço éramos irradiados do mundo, enfiados dentro de casa, podíamos descer rapidamente a rua até casa do Tio Chico, mas o sol, o calor, o suor impedia-nos de estar na rua, quase sempre com uma bola, onde as vacas passavam de manhã e à tardinha rumo à vacaria, hoje já não há vacas, a vacaria é um espaço vazio, um espectro de uma realidade ainda minha vizinha. Os verões eram as escondidas à noite, entre as crianças da aldeia e os primos, sobrinhos que ali passavam uma temporada.

Os verões eram a pesca ou a caça dos adultos, acompanhados em brincadeiras petizes. Dormi várias vezes num moinho, passando ali o dia, dentro de água, de rabo para o ar à procura de espargos, respirando o ar puro do campo, vendo Espanha do outro lado da margem. Espanha era no outro lado da margem, era no monte que se via ali ao longe, sentado no muro, onde parti o pulso na véspera de fazer anos, mil novecentos e oitenta e sete? ou nove? Tiago, desce do muro que partes um braço. Tiago, desce. Já não ouvia o meu avô, nenhum neto ouvia, ele antecipava tragédias, um passo dado por nós era desculpa para um aviso, dito, repetido, ecoado durante largos momentos. Tiago desce do muro. Avô, se partir um braço fico com outro. Fiquei com os dois, a bem dizer, verdade das verdades, mas no dia seguinte soprei as velas de braço ao peito e o avô repetia Eu disse-te, não te avisei? Espanha era também na televisão, a TVE e a Antena 3, os jogos do Real e do Barcelona, também do Futre no Atlético. Era estar com os primos, na rua, dentro de casa, sempre juntos.

Montejuntos era a festa, vacas na praça, rifas, chuva. Ainda hoje as vacas estão ali, uma vez por ano, a correr atrás dos rapazes, toda a aldeia unida em torno daqueles animais, lembro-me duma a entrar por uma porta, gritos femininos, louça a partir-se, e regressar à lida da festa, atrás de rapazes, de homens, homens e mulheres empoleirados em troncos, em “carros”, a comer, a rir, a rever família.

Montejuntos é uma pequena aldeia com largos, imensos laços familiares. A cada passo, a cada esquina, a cada novo dia cumprimentava um parente. Ontem, de todos aqueles que vi e com quem falei, dois ou três não eram familiares, mas alegraram-se em me ver, em me reconhecer, um sorriso largo, memórias de um passado recente, a mim afluíram-me várias. E eu, qual filho pródigo, que em dez anos ali fui, o quê?, cinco, seis vezes? a mim reconheceram-me melhor do que à minha mãe que duas, três, quatro vezes, todos os anos visita a terra, a família. Um primo, envelhecido, esqueci-me do nome dele, dá-me um passou bem e trata-me pelo nome. Montejuntos é isto, é família, um local que é casa, mesmo que já não a reconheçamos, que não visitemos como deveríamos, uma casa onde a família é incansável, onde cuida de nós de modos que nos, a mim, pelo menos, envergonha. Onde todos são família, mesmo não o sendo.

Ontem lembrei-me do brunhol, que é o mesmo que dizer farturas, de manhã, no largo da aldeia, feito por uma prima. Lembro-me de pequeno-almoçar leite, ou tofina, ou brasa com brunhol. Ontem, trouxe filhoses, nógado, doces caseiros, tradições carnavalescas, mas também trouxe chouriços, chouriças, farinheiras, um peru inteiro, envergonhado pelo carinho, amor, cuidado que a família nos dispensa.

Montejuntos é lá longe, tão longe que por vezes me esqueço, é tão perto, está tão dentro de mim… ontem voltei por três horas, visita rápida, mas as memórias encheram a barriga, o coração relembrou-se disto, daquilo e de pessoas que habitaram a minha vida.

Montejuntos é uma aldeia pequena, mas é tão grande, tão grande…

Hondo

hondo Hondo é um western de John Farrow, com John Wayne e Geraldine Page, baseado numa short story de um dos mais famosos autores de westerns, Louis L´Amour. As cenas finais foram realizadas por John Ford, ainda que não creditadas, já que a filmagem demorou mais do que o previsto e Farrow teve de abandonar o filme para ir realizar outro já contratado!

Nos anos cinquenta, o western passou por algumas modificações, nomeadamente pela realização de filmes dirigidos a um público mais adulto, o filme encaixa-se nesta tentativa de amadurecer o género, esquecendo a velha dinâmica herói-vilão de uma forma simplista, e tentando criar personagens e narrativas moralmente mais cinzentas.

A história transmite esta dinâmica, Wayne é Hondo Lane, um batedor da cavalaria americana, que encontra uma mulher, Angie Lowe, que vive sozinha com o filho, Johnny, em território apache. O marido desapareceu, presumivelmente morto, mas os apaches sempre os deixaram em paz e, a meio do filme, o chefe apache, Vittorio, estabelece uma trégua definitiva com ela, por admirar a personalidade do filho, estabelece, no entanto, que ou o marido volta ou ela tem de casar com um guerreiro apache.

Hondo acaba por matar o marido de Angie, sem o saber e quando se apercebe de tal coisa já está a viver com Angie, que para o defender da morte disse a Vittorio que este era o seu esposo. O filme acabará com a decisão de Hondo em revelar a verdade a Angie e ao seu filho,  e com uma luta entre Cavalaria e apaches (duh!).

Se Wayne é perfeito neste papel, um cowboy duro, solitário e dividido entre dois mundos, Geraldine Page é uma autêntica surpresa, pelo menos para mim, que a desconhecia. É impossível ver o filme e não perceber que a interpretação de Page é segura, distinta. É uma atriz de outro calibre, veio do teatro e isso percebe-se. Não o consigo explicar melhor do que isto, vejam o filme, Page foi nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária, mas perderia para Donna Reed, pela interpretação desta em From Here to Eternity (Até à eternidade).

GP-geraldinepage-hondo-plainwoman

Uma das razões para o atraso nas filmagens, e uma das características mais interessantes presente no filme, é a filmagem em 3D, na época utilizada em Hollywood. Farrow teve imensas dificuldades com a utilização das câmaras específicas no deserto (entre avarias, peso e dificuldades de locomoção das mesmas), mas teve a inteligência de não abusar  delas, ao ver o filme percebe-se que algumas cenas de luta/batalha final (facas, lanças e setas atiradas à câmara) usam este artifício, mas li que o 3D foi usado nas paisagens panorâmicas e nas silhuetas das personagens. O filme só ganha com esta opção e distingue-se da maior parte dos filmes que utilizaram essa tecnologia pelo uso assertivo que faz dela.

Hondo é, então, uma personagem dividida entre dois mundos, viveu entre os apaches, teve uma mulher índia que morreu, e vive de acordo com alguns dos conhecimentos e hábitos índios. Consegue ter uma visão total das razões que assistem a qualquer um dos povos (americanos e índios) na guerra, mas respeita os índios, como nenhuma outra personagem, pelo respeito ser fruto da vivência nos dois universos. É acompanhado por um cão, não o alimenta para que este não se habitue a depender dos outros e treinou-o para detetar índios. É um cão selvagem que rosna quando Johnny tenta fazer-lhe festas, o que espelha a condição de Hondo.

Hondo – He doesn´t need anybody, i want him to be that way. It´s a good way.

Mrs. Lowe – Everyone needs someone.

Hondo – Yes, m´am. Most everyone. Too bad, isn´t it?

No início do filme, Hondo dirige-se à quinta de Mrs. Lowe e ali passa algum tempo, enquanto se restabelece, e leva emprestado um cavalo, como o cavalo que tenta domar, também Hondo tem dificuldades em ser domado, mas as cenas iniciais entre Wayne e Page mostram uma química entre os dois, ainda que ensombrada pela figura do marido, ausente, e a decisão de Hondo em dificultar qualquer ligação entre eles.

Women always figure every man who comes along wants them. – é o que lhe responde quando acha que ela está a tornar-se demasiado familiar.

A ligação entre Johnny e Vittorio é uma ligação de sangue, mas antes de o ser é pela admiração que Vittorio sente pela personalidade, braveza e coragem da criança que esta se estabelece. No meio de uma guerra insana, há lugar para uma decisão, estranhada por índios e soldados, proteger e defender uma mulher e uma criança. Não os atacar. Essa admiração leva a que o índio ofereça um dos seus como marido a Lowe, já que uma criança não pode viver sem pai e precisa de um modelo masculino que o ensine a ser um guerreiro.

O diálogo entre Hondo e Lowe, quando esta se apercebe que o marido está morto e pelas mãos de Hondo, é o momento alto do filme, mais ainda quando ele luta por dizer a verdade a Johnny.

Lowe – You think truth is the most importante thing.

Hondo – It´s the measure of a man.

Lowe – Not from a woman. A man can afford to have noble sentiments. But a woman only has the man she marries, that´s the truth. And if he´s no good, that´s still her truth.

O filme é sobre relacionamentos e a noção de verdade, que aqui é escondida por um bem maior, mas é também sobre as diferenças culturais entre dois povos, o valor da palavra e a noção de honra, a guerra final é apoteótica o quanto baste, é outro dos momentos altos do filme, mas para além das guerras e brutalidade (entre)vistas, é com tristeza que Hondo prevê o final da guerra com os apaches.

“É o fim de um bom estilo de vida.”

(7/10)