A Terra de Ninguém de Santana-Maia Leonardo

Oferecer (e receber) livros é uma tarefa ingrata, baseada nos nossos gostos ou no pretenso conhecimento que temos dos outros. Oferecer um livro de que gostei pode chocar com o interesse e gosto do outro. Tiro ao alvo que muitas vezes o falha.

Não que esta tarefa me tenha impedido (ou impeça) de oferecer livros, mas fico sempre na dúvida se o outro gostará (tanto) do livro como eu. Este verão a minha tia Ilda ofereceu-me um livro de crónicas (A Terra de Ninguém, de Santana-Maia Leonardo, Sinapsis), esse género ingrato, facilmente datado, e que dependerá sempre do génio e capacidade do cronista para nos interessar. Um livro de crónicas é também uma forma eficaz de atirar à sorte, entre tantas haverá algumas que atinjam na mouche. Este atingiu no alvo, com pontuação máxima.

Santana-Maia Leonardo é um caso atípico na opinião portuguesa, sendo de direita não come e cala, defendendo sempre a direita, discorda e mostra que é possível fazê-lo sendo coerente com aquilo em que acredita, o corrente livro é disso prova. É alentejano e parte das crónicas têm a ver com essa “natureza”, com o ser alentejano, com as terras alentejanas. Há sempre uma crítica à cidade-estado Lisboa e ao esvaziamento do interior, melhor, aos esvaziamentos, culturais, políticos, sociais, etc. Um cronista do interior esquecido e ostracizado, mas atento.

Pela dificuldade que é acertar ao se oferecer livros, destaco esta oferta e algumas frases.

“Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.” p. 149

“O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão… Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim de semana.” p. 149,150

“(…) um alentejano nasce num sítio qualquer.” p. 153

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Arquipélago de Joel Neto

Estou desempregado há quinze meses, uma eternidade!

A leitura sempre foi para mim um prazer, e tenha sido enquanto estudante ou enquanto trabalhador os livros sempre me acompanharam e ajudaram a ritmar os diferentes períodos do dia, por vezes diferentes livros para diferentes momentos. Nunca apanhei comboio porque me poupava vinte minutos de viagem, e eram menos vinte minutos de leitura! Antes, por vezes durante, e depois das aulas os livros sempre foram âncoras, principalmente nos dias mais atarefados. Um dos maiores prazeres era sair da escola, durante vinte minutos e ler algumas páginas acompanhadas de um café. Claro que fora do trabalho era o mesmo, mas foco no trabalho ou no período de atividade para estabelecer melhor a diferença para os hábitos e disponibilidades de leitura atuais.

Continuo a ler a um ritmo semelhante, mas o interesse, a vontade, a disponibilidade alteraram-se. Pode ter a ver com a idade, os interesses vão mudando e a paciência para algumas coisas esfuma-se, aqui é paradigmático o desinteresse crescente com alguma BD, ainda que este possa ter a ver com a qualidade atual da mesma, mas isso é discussão para outra altura. Pode ter a ver com imensa coisa, mas na realidade penso que é a ausência de ritmos diferentes a causa. A verdade é que cada vez leio mais  não ficção, a dificuldade e desinteresse de continuar a leitura de um romance tem sido uma surpresa e vejo-me a devorar crónicas, a ler ensaios, a ler reportagens.

Talvez por isso a surpresa que foi Arquipélago, de Joel Neto, um livro que me foi chamando e apelando, mas ao qual resisti até à semana passada, depois de ter lido alguns comentários de leitores. A resistência é facilmente explicada, li alguma crónica do autor que me afastou dele, as primeiras impressões são tramadas, mesmos as que são incómodas para o nosso preconceito.

Na última Ler li um artigo de Joel Neto, sobre a estadia na ilha e , penso, a escrita do livro, o regresso às origens, ao interior, neste caso à ilha, interessam-me cada vez mais.

Conheço um pouco de São Miguel; conheço o Pico pelas letras de Dias de Melo, desconhecia a Ilha Terceira, descrita e habitada agora pelas personagens de Joel Neto.

Arquipélago conta a história de José Artur, professor universitário, que volta à ilha onde cresceu com o intuito de escrever uma tese de doutoramento. Arquipélago não é um romance policial, mas é um romance com mistérios, José Artur não sente os terramotos, até sentimentalmente tem dificuldades em senti-los ou assumi-los; são descobertos ossos na casa do avô, para onde vai morar, ossos que o vão levar a descobrir o papel do avô  nessa morte; mais do que os acontecimentos narrados, mais do que a busca de José Artur, mais do que os mistérios naturais, arqueológicos, antropológicos e históricos que fazem a narrativa andar, ficam as personagens, com as suas idiossincrasias, com a sua humanidade rija e frágil, com os seus medos. Fica a ilha, com os seus lugares mágicos, com os seus rituais, um santuário no meio do oceano, um porto de abrigo, nem sempre seguro.

Um romance pode, por vezes, ser plantado num outro lugar, sem que a história sofra com isso, Arquipélago, no entanto, agarra-se à terra e gentes dos Açores e fá-lo com amor. A mestria de Joel Neto não está tanto na narrativa que urde mas nas descrições físicas e sentimentais, o interesse e a leitura foram crescendo, parafraseando o Ti Elias, porque se trata de gente de verdade, e quando o dizemos de personagens de um livro dizemos muito do livro!

Número Zero de Umberto Eco

Número Zero é o novo romance de Umberto Eco, a ação passa-se em 1992, na redação de um jornal criado para difamar, afastar as atenções, enterrar a notícia no meio de outras, criar um ambiente propício para que o leitor se perca e perca o importante.

“Certo. Os jornais ensinam às pessoas como devem pensar”, interrompera Simei.

“Mas os jornais seguem as tendências das pessoas ou criam-nas?”

“Ambas as coisas, menina Fresia. As pessoas, de início, não sabem que tendências têm, depois, nós dizemos-lhas e elas apercebem-se de que as tinham. (…)”  P.78

“A questão é que os jornais não são feitos para difundir, mas para encobrir as notícias. Acontece o facto X, não podes deixar de falar dele, mas embaraça demasiada gente, e então, nesse mesmo número, metes grandes títulos de fazer eriçar os cabelos, mãe degola os quatro filhos, talvez as nossas poupanças acabem reduzidas a cinzas, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio, e por aí fora, a tua notícia afunda-se no grande mar da informação.”  P.128

A narrativa é então ambientada na redação de um jornal criado para difamar, desinformar e apoiar o seu dono.O título remete para os números zero que o editor quer publicar, e muitas das páginas são exercícios estapafúrdios inseridos na missão pouco ética do jornal. O livro parece, então, um manual de mau jornalismo.

O meu conhecimento de história italiana baseia-se maioritariamente em alguns filmes e séries de televisão, sei vagamente o que foram as Brigadas Vermelhas, tenho conhecimento da alta instabilidade da economia italiana e do papel da máfia e crime organizado. Resumindo, pouco sei sobre a história recente italiana, e digo recente, porque Eco discute a história de Itália desde o fascismo até aos dias de hoje. É um emaranhado de dados factuais e hipóteses mais ou menos fantasiosas, que Eco combina de forma a dificultar o discernimento do leitor.

Número Zero termina com um exemplo de bom jornalismo que tende a perder-se quando já ninguém consegue distinguir o bom do mau jornalismo.

E vais ter com quem?”, perguntou-me. “Primeiro, não te arruínes por minha causa, segundo, aonde vais contar este assunto quando os jornais, percebo-o pouco, são todos feitos da mesma massa? Protegem-se uns aos outros…” p.123

Na minha opinião não é um grande romance de Eco, ainda que tenha todas as características da sua escrita, muitas citações e alusões, clássicas e da cultura popular, por exemplo. Podia ser um ensaio, e os dados estão lá todos, enquanto romance perde para com outros de maior fôlego do autor, no entanto deixa-nos a pensar sobre o jornalismo factual e isento dos dias de hoje.

Parentalidade como discipulado

Intentional Parenting

Ser pai nunca é fácil, mas ser pai cristão traz responsabilidades acrescidas. Quando nos nasce uma adolescente de catorze anos cá em casa, a noção dessas responsabilidades e a prática diária do discipulado encontram-se muitas vezes separadas. Quando a idade da estupidez, vulgarmente conhecida por adolescência, se casa com a inexperiência de determinadas práticas espirituais e com o desconhecimento de uma vida familiar mais estruturada a fotografia fica ainda mais composta – os desafios crescem e multiplicam-se!

Intentional Parenting – Family Discipleship by Design é um livro de Tad Thompson, sobre discipulado familiar, da Cruciform Press – uma editora cristã americana, que tem como plano editar um livro por mês, livro esse que responda a algumas premissas, tem de ter cerca de 100 páginas, ser relevante e biblicamente confiável, simples, com um preço acessível e, no seu conjunto, os livros editados devem explicitar o credo da editora.

A preocupação de Thad Thompson é dupla, por um lado tem constatado a quebra do discipulado nas famílias cristãs, que deixam o ónus para as igrejas, que por incapacidade ou inação pouco têm conseguido alterar esta situação; por outro lado, tenta cativar e capacitar os pais para o discipulado, enquanto prática que se preocupa com a salvação dos seus filhos.

“(…)the discipleship model in which church professionals essentially replace parents as the primary agents of discipleship is just not working.” (p.9)

Thompson é claro ao colocar a responsabilidade do discipulado cristão nos ombros dos pais (Efésios 6:4 e Salmos 78:5)

Thompson escreve pastoralmente para pais que reconhecem ou se desculpam com a sua imperfeição e incapacidade de levar a cabo tal tarefa; usando a passagem de I Coríntios 13:11-13 relembra o leitor de que a perceção dessa incapacidade é vital no discipulado familiar. Deus conhece-nos intimamente e sabe do que somos ou não capazes, apesar disso deu-nos essa responsabilidade, capacitando-nos para essa tarefa (Efésios 3:20).

O objetivo do discipulado é ensinar e “to cultivate truth in the hearts of your children. (…) you should lovingly and prayerfully encourage your children in their walk with Jesus. The nature of the parental role changes as our children mature, but its essence does not, and we are called to steward faithfully all the days the Lord has entrusted to us.” (pág. 21)

Thompson torna-se assustador, ao sistematizar aquilo que o discipulado abarca, i.e., aquilo que o pai deve saber ou investir para discipular o seu filho. Deste modo, sistematiza o discipulado em Evangelho, Teologia Bíblica (A Grande História), Teologia Sistemática (As Grandes Verdades), Grande Comissão, Disciplinas Espirituais, Vida Cristã e Cosmovisão.

O autor demora cerca de um terço do livro, 30 das 108 páginas, a falar destas áreas.

Deixem-me sintetizar (ênfase no sintetizar) os pontos principais feitos pelo autor.

O Evangelho

“you will do whatever it takes to saturate your home life with the message of the gospel!” (p. 23)

Thompson demora algum tempo a distinguir entre o evangelho bíblico (Deus é o santo e soberano Criador do Universo; o Homem rejeitou o santo e soberano governo de Deus; Jesus é o Filho eterno de Deus que veio para resgatar pecadores; O Evangelho exige que todos lhe respondam em arrependimento e fé – p.28-33) e os falsos evangelhos (os falsos evangelhos do aperfeiçoamento pessoal, da prosperidade, da paz e propósito e o Evangelho do “ora esta oração” – p. 24-28)

Teologia BíblicaA Grande História

Conseguimos explicar e explicitar a narrativa bíblica às nossas crianças e adolescentes? Esta tem sido uma área chave para a nossa filha, já que o conhecimento está estilhaçado em várias narrativas,  não há uma noção do conjunto, da Narrativa.

“The Bible is about God working in the lives of men, women, and children, directing all of history toward a sure conclusion.” (p. 35)

“Reading the Bible to extract its “life lessons” puts much of the focus on the reader of Scripture. But the real story of the Bible is about the Author.” (p.35)

Thompson reitera o ponto, a Bíblia foi-nos dada para nos ensinar acerca do carácter e propósitos de Deus, não para reforçar as nossas opiniões pessoais acerca de Deus. (p. 36) Quando conhecemos e reconhecemos a Grande História acerca de Deus e dos Seus propósitos conseguimos interpretar e compreender melhor as passagens mais difíceis, lê-las à luz do Plano de Deus, nomeadamente à luz da pessoa do Seu Filho, Jesus Cristo.

Teologia Sistemática 

Ou na terminologia do autor, As Grandes Verdades, que verdades são estas? A Palavra de Deus, o Carácter de Deus, a Trindade, a Criação e o Domínio Providencial de Deus, a Natureza Humana e o Pecado, a Pessoa de Jesus, a Obra e Ministério de Jesus, a Pessoa e Obra do Espírito Santo, Salvação, a Igreja, e as Últimas Coisas.

“Your children are going to formulate their ideas about the Bible, God, man, and salvation from somewhere. If you do not teach your children biblical doctrine, they will be forced to synthesize key ideas (about who God is and who they are) from random bits of truth and falsehood they collect from church, peers, teachers and the media.” (p. 40)

Deste modo, conhecer e ensinar estas Grandes Verdades às nossas crianças é vital para o seu crescimento espiritual e desenvolvimento. (p. 41)

A Grande Comissão

Temos sido bons dispenseiros do evangelho e discípulos de Jesus? As nossas crianças devem perceber o alcance do evangelho, não só nas nossas casas, mas também a partir delas.

“God has not given us Christ so that people will make much of us; he has given us Christ so that we will make much of him!” (p.43)

“How vital is that our children understand the heart of God for the nations. Our eternity is in heaven, but God keeps us on this earth for a purpose!” (p. 43)

Disciplinas Espirituais

Thompson convida-nos a perceber que as disciplinas espirituais são um meio essencial para o crescimento espiritual (I Timóteo 4:7,8)

Vida Cristã

A ideia nesta área é viver a vida de forma cristã. Como agimos e vivemos no que, por exemplo, ao perdão, pureza sexual, paternidade, casamento e vida familiar, diz respeito? Que exemplo temos sido para as nossas crianças?

Cosmovisão

“A worldview that is not genuinely and therefore God-centered will inevitably be man-centered. But as we pass along to our children a sound Christian worldview, we equip them to navigate the waters of our humanistic, postmodern culture. This may include teaching them how to argue against atheism or scientific naturalism/evolution, and to speak clearly on ethical issues such as abortion, stem cells research, and homosexuality. Worldview also helps us develop biblical philosophies for education, economics, and law. Make sure your own view of the world in wich God has placed us is solidly biblical, and then pass it along your children.” (p.47)

Como é que um pai cristão gere este conhecimento e prática e se dedica a esta tarefa? Thompson é prático, compromete-se a ler a Bíblia, “if you won´t commit yourself to read your Bible, you will never commit to family discipleship.” (p.49); lê, pelo menos, um livro acerca de cada uma destas áreas por ano; escreve o que tem aprendido e discute-o com outros pais, cara a cara ou através de um blog, por exemplo; compromete-se a servir numa igreja que valorize a pregação e o discipulado teológico; recicla o que tem aprendido.

Antes de discutir as quatro áreas do discipulado familiar (a casa, a comunidade, a igreja e o mundo), Thompson relebra que não podemos discipular as nossas crianças para além do nosso próprio nível de discipulado. Baseando-se em Deuteronómio 6: 7-9, mostra que o ensino é rotina e repetição. “Etching requires routine, dedication, focus, knowledge, skill, and consistency, as we repeatedly teach God´s word and apply its truths to everyday life.” (p.58)

O ponto é tão simples quão complicado, saturar a vida familiar e comunitária da Palavra de Deus, em oposição à forma como somos (pais e filhos) saturados pela cultura e cosmovisão seculares.

“How will our children believe that the Bible  is all about all of life if we only talk about it during the Bible lesson?” (p.59)

Qual o propósito do discipulado? Não é oprimir as nossas crianças, mas ajudá-las a adorar Deus em resposta à sua graça salvadora.

Casa

Thompson afirma que a casa, o lar, deve ser o local seguro onde se discutem verdades espirituais profundas e se respondem a questões difíceis acerca de Deus e da Sua palavra. Os pais devem aproveitar as refeições para expressar gratidão a Deus e uns aos outros; no que diz respeito à hora de deitar, o autor defende não só a oração em conjunto, mas dá a sua prática, orar pelos filhos na presença destes, para que eles percebam as preocupações e desejos espirituais dos pais para eles; quanto ao culto familiar, Thompson refere uma prática que me parece importante, e com a qual nos temos debatido e falhado, discutir em família a pregação de domingo ao longo da semana.

Thompson tem ainda uma palavra no que diz respeito à disciplina.

“Discipline in the home, whether physical or verbal, is not about getting your children to behave in a certain way. Children cannot obey perfectly and they never will. If you discipline your children to condition them to perform certain behaviors, you are not raising them in the fear and admonition of the Lord. You are training them in self-righteousness.” (p.64)

A Comunidade

O ponto mais importante nesta área é viver na comunidade de forma a discipular quando as coisas acontecem.

“As parents we should be less concerned overall with whether our children are exposed to non-Christian influences and more concerned with what we do about it when they inevitably are exposed. Let us seize those moments and convert them into discipleship opportunities. That is how Christians are prepared to make an impact on secular society.” (p.71)

A Igreja

O argumento aqui é perceber de que forma a igreja local pode ajudar a educar as crianças a ter esperança e fé em Deus. Como? Fazê-las compreender que a igreja não é tanto um local, mas um conjunto de pessoas, o corpo vivo de Cristo; que ali adoram juntas como uma família, ajudá-las a compreender a autoridade da Palavra de Deus, “children need to learn how to listen to sermons” (p.73).

O Mundo

Esta última área consiste em ensiná-las a amar o mundo e perceber a importância e privilégio da Grande Comissão.

O penúltimo capítulo versa sobre o coração dos nossos filhos, o nosso objectivo enquanto pais cristãos é revelar o evangelho e o Reino de Deus às nossas crianças. “Our treasure is Jesus, Lord of the Kingdom of heaven. To reveal the Kingdom is to reveal the King.” (p.81)

“The goal of family discipleship is to raise children who treasure Jesus above all things.” (p.83)

Thompson destaca quatro objetivos dos pais no seu relacionamento com os filhos que falham o alvo, querer que as crianças os amem acima de tudo (“Parents who long for approval tend to obey their children.” p.86); querer crianças que se amem a elas mesmas (“Parents who raise their children with this goal teach them that their greatest treasure is themselves, not Jesus. (…) The biblical call, therefore, is not that our children would love themselves more than they do, but that they would love others as much as they love themselves, and God even more – more than anything and anyone.” p. 86); querer que sejam moralmente correctas (“Morality that flows from a heart focused on duty cannot please God and does not please God.” p. 87); e por último, crianças que tenham sucesso (“They want their children to achieve in sports so badly they are willing to sacrifice the corporate worship of Jesus on a regular basis” p.88).

Como ensinar, então, as nossas crianças a valorizar (“treasure”) Jesus acima de todas as coisas? Orando por elas, sendo exemplo para elas, em casa, ajudando-as a desenvolver as disciplinas espirituais, sendo fiel.

“Fathers must look for opportunities to encourage their children on a regular basis, pointing out their strenghts while coaching them through their weaknesses.” (p. 96)

Thompson termina com Josué 24

14Agora, portanto, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com sinceridade: lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos antepassados do outro lado do Rio e no Egito, e servi de coração a Yahweh.15Porém, se não vos parece bem servir a Yahweh, escolhei agora a quem quereis servir: se as divindades às quais serviram vossos antepassados além do rio Eufrates, na terra da Mesopotâmia ou os deuses dos amorreus em cuja terra agora habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR!”…

“God does not call us to accomplish what we can do in our own stregth. He calls us to accomplish things only he can achieve. (…) consecrate your home to the service of the Lord” (p.101)

Concluindo, um livro pequeno, mas cheio de desafios e “pragmatismo” bíblico, um livro que nos chama, a nós pais, a sermos discípulos melhores e mais conscientes por amor aos nossos filhos, amando e sendo amados por Deus.

Com um pé no passado

preface to Theologians on the Christian Life (Crossway)

 

O texto da imagem é o prefácio da série Theologians on Christian Life da Crossway. A ideia é contar um pouco da biografia de determinado teólogo e explicitar o seu pensamento e prática na vida cristã. Fazemos parte de um corpo de 2000 anos, individualmente somos pouco menos do que um sopro, não façamos do nosso tempo a condição e base da nossa fé e prática, podemos aprender com os que vieram antes de nós.

Uma Jornada na Graça

Uma Jornada na Graça, de Richard Belcher é uma novela teológica, editada pela Editora Fiel e que devia estar cá em casa há mais de uma dezena de anos, li-a hoje, de uma penada.

Entendamo-nos, como obra de ficção é fraca, a narrativa é relativamente simples, as personagens são tipológicas e por isso redundam muitas vezes em clichés, mas a ficção é somente um pretexto para discutir o calvinismo.

Ira é um seminarista batista que tenta descobrir, e acaba por se interessar , o que é o calvinismo e se este pode ser defendido biblicamente. Ao longo das páginas, conhecemos alguns colegas de seminário ainda não convertidos, professores que o ajudam ou dificultam na sua tentativa de confirmar a lógica bíblica do calvinismo, a namorada que será a sua esposa, as agruras e alegrias do ministério, os desafios da fé e a defesa do calvinismo, nomeadamente dos cinco pontos, um pouco da história batista.

Como já o referi, o interesse de Uma Jornada na Graça não é a narrativa, previsível e simplista, a maior parte dos capítulos do livro de Richard Belcher é ocupada com a apresentação e defesa dos cinco pontos do calvinismo. No entanto, o mais interessante é perceber que apesar da narrativa não ser de primeira água, é esse aspeto ficional que abre os horizontes do livro e permite não só transmitir, discutir e defender as doutrinas da graça, mas levantar algumas questões laterais de forma natural e “vivida” – o hiper calvinismo, a diferença entre igreja visível e invisível, o ataque intransigente e pouco racional às doutrinas da graça, o papel da oração e santificação – deixando espaço para o leitor pensar em algumas destas questões, até comparando com a sua experiência.

Talvez seja o lado leve e despretensioso da narrativa que eleva a capacidade de argumentação e defesa do autor, o que em si mesmo, e pelo que tenho escrito atrás, é um paradoxo. O cerne do livro é teologia pura e dura e pouco dado a romances, mas foi essa  convivência estranha que  aumentou o meu interesse. Nada do que Belcher diz ou defende, nada na sua exegese, é realmente novo para mim, mas o formato acabou por me permitir reciclar e renovar algumas ideias de forma rápida e natural.

Police de Jo Nesbo

Jo Nesbo é um dos meus autores favoritos, dentro e fora do género policial, ainda que a minha preferência vá para a sua série com Harry Hole, como personagem principal.
Os livros da série Harry Hole são uma viagem aos infernos, em que Hole é destruído lentamente. Se não é raro que as personagens dos policiais sejam atormentadas, pelos vícios, psicoses ou passado, a verdade é que Nesbo leva Hole a extremos, veja-se o final de Phantom, o título anterior.
A ação desta série passa-se maioritariamente na Noruega, Hole é alcoólico, a determinada altura torna-se adicto em droga, mas continua a ser um investigador de primeira água.
Phantom parece devolver Hole a uma existência mais aprazível, mas no final percebemos que ele nunca desceu tão fundo e que será preciso um milagre para o voltarmos a ter como personagem principal.
Police começa algum tempo depois do final de Phantom. Não vou escrever nada sobre o argumento, e ainda só vou a meio do livro. Mas gostava de dizer duas coisas. Nunca Nesbo esteve tão à vontade no seu estilo, lentamente vai contando a sua história e Hole só aparece a pouco menos de um terço do livro, Nesbo surpreende como nunca neste livro, parece ter prazer em enganar o leitor e é dessa brincadeira que nasce o prazer deste Police. Hole é o mesmo, ainda que não o seja, as circunstâncias mudaram-no, mas novas circunstâncias parecem obrigá-lo a voltar ao que era. A descida às profundezas parece ser uma necessidade para a atividade e ação da personagem.
A ver em que redunda a segunda metade do livro.
Como sempre, altamente recomendável, ainda que não para estomagos mais sensíveis.

Portugal Assombrado

histórias de um portugal assombrado

Vanessa Fidalgo é jornalista e escreveu um livro de sucesso, Histórias de um Portugal Assombrado, que já vai na 4ª edição, demonstrando que o tema tem leitores em Portugal. Durante as férias comprei esse e a sua obra mais recente, 101 lugares para ter medo em Portugal, livro que continua o périplo pelas lendas (antigas e urbanas),  mitos e histórias de terror que habitam o nosso país.

Convém afirmar dois factos antes de perorar sobre o díptico de Vanessa Fidalgo, em primeiro lugar, revelar uma tara minha, o hábito de comprar livros relacionados com as zonas que visito, livros normalmente editados pelas Câmaras Municipais e/ou Juntas de Freguesia, de autores da região, sobre hábitos, costumes e história dessa mesma região. Há uns anos, de férias na Serra da Estrela trouxe alguns livros sobre a Serra, que abordam questões históricas ou linguísticas, nessas férias, comprei também um livro sobre costumes, hábitos e superstições da Beira Baixa; ou referir ainda um dos meus favoritos, editado pelo município onde trabalho, As Ruas do Lavradio, de que espero ansiosamente a edição do segundo volume.

O outro facto é a fé, sendo cristão protestante, a forma como se olha para mitologias e histórias de assombrações tende a ser ligeiramente diferente do usal ateu ou agnóstico.

Importante, também, é reconhecer o papel destas lendas e histórias de terror na história, cultura e religião de um povo.

O primeiro livro de Vanessa Fidalgo é um resumo de histórias sobre o numinoso, misterioso e lendário, sendo que cada capítulo inicia-se com uma análise científica, e por vezes, paracientífica dessas mesmas questões. A escrita obedece ao objetivo do livro e muitas vezes assalta o espírito do leitor, há histórias bem (d)escritas, que interagem com o nosso subconsciente, recriando a narrativa através de testemunhos diretos ou através das lendas e narrativas recontadas geração após geração, mas Vanessa Fidalgo fá-lo de forma, por vezes, poética e obedecendo ao estilo do género. O papel das histórias, desastres e incidentes na memória coletiva de um povo (nacional ou regionalmente falando) é descrito e percebido pelo leitor, que reconhece as pernas que as histórias têm pernas e o(s) caminho(s) que percorre(m), reconhece o início de costumes e hábitos, medos e temores a partir delas. fui surpreendido pela história da região onde vivo (no caso dos livros de Vanessa Fidalgo, a histórias e rumores acerca do hotel do Muxito ou do Castelo do “rei do lixo”, em Coina) ou de locais que visitei (a ponte de Mizarela, no Gerês, o cromeleque dos Almendres e a Capela dos Ossos, em Évora, o hotel Monte Palace, em São Miguel).

O segundo livro parece-me mais mecânico, menos literário, mais jornalístico na sua abordagem, por vezes ignorei a razão de ter medo presente no título do livro, que se torna numa espécie de roteiro do estranho e macabro, mais do que do medo. Neste sentido é um livro distinto no estilo de escrita, menos capaz de cumprir o díptico prometido, uma espécie de resumo do que ficou por contar por alguém que se cansou da temática e que o escreve de forma cansada e mecânica. Alguns dos subcapítulos são pouco mais do que adendas históricas e geográficas, por vezes, um pouco sociológicas dos locais e acontecimentos que narra. A fraqueza deste livro é também uma das suas forças, o inominável fica de fora e a descrição vale pela historicidade da narração. O sentido de humor, jocoso ou cínico, presente no primeiro volume torna-se mais ausente neste.

Terminando (até porque escrever sobre livros que se leram e não os tendo presentes fisicamente, neste momento, é complicado -lá está presente uma das temáticas secundárias do livro, pelo menos, para mim, que é o papel e ação da memória nas narrativas), e fugindo a um comentário geral, estes dois livros de Vanessa Fidalgo parecem-me uma excelente porta de entrada para a noção e estudo da Literatura Oral, para um descobrir da obra de J. Leite de Vasconcelos (mais presente no primeiro volume) e para um conhecimento mais aprofundado da nossa história e cultura, já que muitos hábitos e tradições religiosas são aqui referidos e contextualizados.

Parece-me interessante também perceber como o religioso, numa aceção mais ampla do termo, está presente até aos nossos dias e como o medo molda, e tolda o pensamento e ações.