Captain America 2 : The Winter Soldier

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Ou muito me engano ou a introdução vai ser maior do que o texto sobre o filme, ficam avisados…

Tenho uma relação ambígua com adaptações, neste caso, de bandas desenhadas ao cinema, desde que me conheço que coleciono comics, sinto que as adaptações ficam quase sempre aquém, as escolhas (alterações de personagens, guarda-roupa, finais, etc) nem sempre fazem sentido e a liberdade artística numa folha de papel tem consequências enormes para a imagem ou budget de um filme, o que se traduz normalmente em diversos constrangimentos (nomeadamente, ao nível do argumento ou do guarda-roupa). 

A  ideia de construir um universo cinematográfico com base em personagens chave foi um risco bem calculado por parte dos Marvel Studios, a primeira fase consistiu em 6 filmes (Iron Man, The Incredible Hulk, Iron Man 2; Thor e Captain America: The First Avenger), que culminou em The Avengers, um dos filmes mais lucrativos de sempre.

A grande dificuldade por vezes é encarar o filme como outro media, e não estar constantemente à procura de referências, de oportunidades para criticar o fato de determinada personagem. Confesso-me desde já, The Avengers foi o meu guilty pleasure do ano passado, não é um grande filme, mas é grande entretenimento. Pessoalmente, os Iron Men pouco ou nada me dizem, talvez por nunca ter gostado muito da personagem, tirando o que Bob Layton e David Michelinie fizeram com Tony Stark na década de oitenta, nos comics; o Thor pareceu-me interessante, mas passou-me um pouco ao lado, ainda não vi o segundo filme, e penso que o primeiro é sempre o mais complicado, é tarefa ingrata tentar apresentar a personagem para um público mais vasto do que somente o seguidor de banda desenhada; o primeiro Captain America foi, surpreendentemente para mim, o meu favorito desta primeira onda de filmes. Vi o The Incredible Hulk mas sinceramente não me lembro de grande coisa.

Steve Rogers, o Capitão América, é uma personagem idealista, um peregrino em terra estranha (um homem da década de 40 no século XXI), um devoto à causa e valores americanos. Normalmente, é esta exaltação americana que me impede de relacionar totalmente com a personagem – os comics tendiam muitas das vezes a serem sermões das virtudes e espírito americanos. No entanto, o primeiro filme era uma homenagem não só à banda desenhada original, como ao espírito dessa mesma banda desenhada, dando-nos a origem da personagem, a sua utilização na propaganda de guerra é mostrada de forma cínica e em oposição à personalidade de Rogers e a participação na guerra propriamente dita é fruto dessa herança dos comics casada de forma agradável e espetacular com os efeitos especiais. De entre todos os filmes dessa primeira fase, é facilmente o filme mais divertido, simples e despretensioso, o mais direto, talvez por isso me tenha agradado tanto.

A segunda fase vai a meio, Iron Man 3, Thor: The Dark World, Captain America 2: The Winter Soldier já estrearam, faltam somente dois filmes, Guardians of Galaxy e o regresso do grupo de heróis mais conhecido da Marvel em The Avengers 2: Age of Ultron. De referir que a par do universo  cinematográfico, a Marvel Studios está já presente na televisão, com Agents of S.H.I.E.L.D. (fraquinha e penosa, na minha modesta opinião) e parece querer apostar em Agent Carter (o love interest de Steve Rogers no primeiro Captain America), sem esquecer o acordo firmado com a NetFlix, quatro séries de 13 episódios (Daredevil, Jessica Jones, Iron Fist and Luke Cage) e uma mini-série que juntará estas quatro personagens (The Defenders).

O tempo dirá se a Marvel não estará a colocar demasiados ovos no cesto, se o interesse do público não esfriará perante tanta oferta e se algumas apostas (Agents of SHIELD) não são contraproducentes.

Ontem fui ver o segundo Captain America (não, não vi nem Iron Man 3, nem Thor:The Dark World), e este não podia ser mais distinto que o anterior. Se o primeiro filme funcionava como uma homenagem ao espírito das histórias criadas por Joe Simon e Jack Kirby, este segundo filme expira Ed Brubaker em todos os seus poros. O primeiro era retro, simples,  não intrusivo, divertido e até pateta,  este segundo continua a ter humor, mas é mais negro, a violência parece ser mais crua, mais realista, menos encenada, alguns dos problemas atuais estão presentes.  Os realizadores deste último filme quiseram fazer uma obra que fosse inspirada by 1970s thrillers, and working with Redford — who featured in ’70s classics like Three Days of the Condor . 

O filme essencialmente anda à volta de um ataque à Shield, com The Winter Soldier a liderá-lo, sendo que a equipa de heróis no ativo é composta por Capitão América, Viúva Negra e Falcão. O filme tem algumas surpresas, nomeadamente a alteração de alguns status quo que deverão influenciar o futuro deste universo. Como já escrevi, continua a haver humor, as cenas de luta são mais estilizadas, mais rápidas, mais imprevisíveis, pela primeira vez existe uma sensação de fraqueza/perigo para as personagens. O filme, ainda que use  efeitos especiais, parece fazer com que os espectadores os ignorem mais do que em outros filmes da Marvel. As cenas de perseguição automóvel, a presença e utilização do escudo parecem mais orgânicas e menos cinematográficas (menos festivas) do que no primeiro filme.Na primeira fase, a ligação entre os diversos filmes é por vezes ténue, mas normalmente é feita pela Shield, uma aparição aqui ou acolá, muita das vezes depois dos créditos finais (Fury no final de Iron Man; Coulson no final de Iron Man 2 e afins). Com o sucesso de The Avengers, as ligações tornam-se mais objetivas, e a presença central da Shield como agregador do universo é feito de uma forma natural e lógica.

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A grande diferença deste filme para os outros, pelo menos aqueles que vi, é a forma como consegue ressoar a realidade atual – as fugas de informação (Snowden?), a vigilância constante por parte do Estado (EUA e os recentes casos diplomáticos ou os drones na ordem do dia) – envolvendo estas questões no universo da Marvel. As questões éticas e a forma como Steve Rogers as vê, nascido e criado nos anos 40, tornam o filme extremamente interessante. As lutas de poder, as black ops, o poder e domínio da informação, as organizações terroristas são questões levantadas ao longo do filme, que se torna num thriller de conspiração ao estilo dos anos 70, sim, mas que resume muitas das histórias contadas nos últimos 10 anos nos comics, piscando o olho ao contexto em que vivemos.

O elenco, como no primeiro filme, volta a ser forte, Samuel L. Jackson (Nick Fury), Scarlett Johansson (Viúva Negra), Hayley Atwell (Peggy Carter) e Cobie Smulders (Maria Hill) envolvem-se em mais um capítulo da saga da Marvel; mas Robert Redford (Alexander Pierce) e Howard Mackie (Sam Wilson/Falcão) são duas novas personagens, esta última uma personagem que conheceu maior sucesso na década de 70, nas páginas a quadradinhos.

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O filme falha um pouco naquilo que é mais característico nos filmes dos Marvel Studios, há piscares de olhos a outras personagens que poderão aparecer mais para a frente, Stan Lee faz o cameo do costume, Agente 13 aparece mais como promessa futura do que como personagem concreta. O título poderia até ter sido outro, a personagem de The Winter Soldier ainda que central e importante na mitologia de Steve Rogers deverá despontar com maiores cuidados na próxima  sequela. Quem conhece a história da personagem sabe da sua importância no universo do Capitão América, aqui divide-se a sua participação entre o papel de vilão e esse outro papel que fica guardado para o 3º filme, a sua definição foge um pouco das temáticas deste filme e acaba por ser mais uma pista para o futuro do franchise, mas diminui a unidade temática do filme, em certo sentido. Mais do que um stand-alone que é, o filme marca então a passagem de testemunho para Avengers 2 e para Captain America 3, o que pode irritar algumas pessoas, mas que é também uma marca do sucesso dos filmes e uma obrigatoriedade pelo menos enquanto os filmes forem vistos.

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Captain America 2 é uma produção segura, um filme de ação interessante, que vive da boa química entre as personagens, que pretende demonstrar a evolução do universo (cinematográfico e televisivo) e que parece conseguir fazê-lo, mas essencialmente prova que a mudança pode ser uma boa coisa, não existem grandes semelhanças entre os dois primeiros filmes de Captain America, o que é bom é que cada um funciona bem à sua maneira, a ver se a fórmula é para seguir na 3ª fase.

Uma última nota só para enaltecer a qualidade do genérico final, muito bom!

 

 

 

 

 

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The Monuments Men

 

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Recentemente vi The Great Escape (A grande Evasão), filme de John Sturges, de 1963, com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson e Donald Pleasence.
O filme baseia-se vagamente ( na realidade não houve americanos envolvidos, as nacionalidades envolvidas eram em maior número, etc, etc) em factos reais e conta a história da fuga de soldados aliados de um campo de concentração durante a II Guerra Mundial.
O que me marcou foi o sentimento de leveza e humor em situações extremas que o filme veicula, em oposição ao final, em que vários dos fugitivos são mortos após a evasão. Esta contradição entre o espírito do filme e o final, a esperança e esforço humano face a uma realidade mais crua e cruel, deixou-me um sentimento agridoce, mas positivo. Acima de tudo A Grande Evasão é um excelente escape, é cinema como espetáculo (ainda que o cinema dos anos 60 seja muito diferente do contemporâneo) e um bom veículo para as suas estrelas.

É por isso que começo pelo filme de Sturges para falar do novo filme de George Clooney, The Monuments Men, que falha nessas três missões acima descritas. Clooney realiza, escreve, protagoniza e produz então esta história de um grupo de homens que tem como missão encontrar, resgatar e devolver peças de arte roubadas pelos nazis, missão que começa após o Dia D.
O filme conta com um elenco recheado de estrelas, Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Jean Dujardin, Hugh Bonneville, Cate Blanchett e Bob Balaban.

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Onde é que o filme falha?

É episódico, ainda que o não seja expressamente, carece de uma unidade narrativa.

O humor não convence, a narrativa é convulsa e cheia de clichés, o maior deles o final, o elenco parece ser mais um grupo de amigos que se juntou para festejar esse acontecimento e não para trabalhar e parece-me dos maiores esbanjamentos de talento dos últimos anos.
O filme é pouco mais do que uma série de quadros/sketches/episódios que acompanham as diferentes personagens nas suas diferentes missões/localizações, Clooney tem muito (tudo?) para aprender com Tarantino, estou-me a lembrar de Inglorious pelo período histórico, pela estrutura episódica, mas também pela riqueza dos diálogos (e, sim, a comparação só ajuda a minorizar o filme de Clooney). As personagens são pouco desenvolvidas, algumas delas, como Stahl (um oficial nazi) e um oficial soviético, pouco mais são do que caricaturas, o que me irritou. Blanchett, que é uma das atrizes que mais admiro, aqui parece rasa, em esforço para nos convencer da sua personagem, esforço que me parece inglório; Damon é Damon a fazer uma versão do humor presente na série Ocean´s. As personagens acabam por ser caricaturas de outras que estes atores já vestiram e o filme parece ficar órfão deste passado cinematográfico, as personagens parecem ser ecos de outras, o filme ecoa uma tradição cinematográfica que nunca concretiza, deixando cair sombras de outras cenas já vistas, mais do que uma homenagem ao espírito daqueles homens, parece-me uma degradação (no sentido de falhar a homenagem). Exemplo disto, são as mortes de duas das personagens, que me pareceram algo de somenos importância, mal filmadas, sem suscitar sentimento algum neste espetador, sem veicular a noção do valor da vida/morte pela arte. O filme torna-se mais interessante pelas temáticas que aborda do que pela narrativa que as ilustra, o papel da arte, o valor da vida humana face à cultura e arte são discussões que podem ser iniciadas pelo filme, ainda que este não resista a dar a resposta, o tal final desnecessário, de certa forma um pastiche de, escolha óbvia, O Resgate do Soldado Ryan.

Resumindo, The Monuments Men não foi o escape imaginado, o elenco parece ter encarado a participação “pro bono” da forma errada e já vi Clooney a filmar e a “pregar” (Boa noite e Boa Sorte) melhor. Uma desilusão.

Hondo

hondo Hondo é um western de John Farrow, com John Wayne e Geraldine Page, baseado numa short story de um dos mais famosos autores de westerns, Louis L´Amour. As cenas finais foram realizadas por John Ford, ainda que não creditadas, já que a filmagem demorou mais do que o previsto e Farrow teve de abandonar o filme para ir realizar outro já contratado!

Nos anos cinquenta, o western passou por algumas modificações, nomeadamente pela realização de filmes dirigidos a um público mais adulto, o filme encaixa-se nesta tentativa de amadurecer o género, esquecendo a velha dinâmica herói-vilão de uma forma simplista, e tentando criar personagens e narrativas moralmente mais cinzentas.

A história transmite esta dinâmica, Wayne é Hondo Lane, um batedor da cavalaria americana, que encontra uma mulher, Angie Lowe, que vive sozinha com o filho, Johnny, em território apache. O marido desapareceu, presumivelmente morto, mas os apaches sempre os deixaram em paz e, a meio do filme, o chefe apache, Vittorio, estabelece uma trégua definitiva com ela, por admirar a personalidade do filho, estabelece, no entanto, que ou o marido volta ou ela tem de casar com um guerreiro apache.

Hondo acaba por matar o marido de Angie, sem o saber e quando se apercebe de tal coisa já está a viver com Angie, que para o defender da morte disse a Vittorio que este era o seu esposo. O filme acabará com a decisão de Hondo em revelar a verdade a Angie e ao seu filho,  e com uma luta entre Cavalaria e apaches (duh!).

Se Wayne é perfeito neste papel, um cowboy duro, solitário e dividido entre dois mundos, Geraldine Page é uma autêntica surpresa, pelo menos para mim, que a desconhecia. É impossível ver o filme e não perceber que a interpretação de Page é segura, distinta. É uma atriz de outro calibre, veio do teatro e isso percebe-se. Não o consigo explicar melhor do que isto, vejam o filme, Page foi nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária, mas perderia para Donna Reed, pela interpretação desta em From Here to Eternity (Até à eternidade).

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Uma das razões para o atraso nas filmagens, e uma das características mais interessantes presente no filme, é a filmagem em 3D, na época utilizada em Hollywood. Farrow teve imensas dificuldades com a utilização das câmaras específicas no deserto (entre avarias, peso e dificuldades de locomoção das mesmas), mas teve a inteligência de não abusar  delas, ao ver o filme percebe-se que algumas cenas de luta/batalha final (facas, lanças e setas atiradas à câmara) usam este artifício, mas li que o 3D foi usado nas paisagens panorâmicas e nas silhuetas das personagens. O filme só ganha com esta opção e distingue-se da maior parte dos filmes que utilizaram essa tecnologia pelo uso assertivo que faz dela.

Hondo é, então, uma personagem dividida entre dois mundos, viveu entre os apaches, teve uma mulher índia que morreu, e vive de acordo com alguns dos conhecimentos e hábitos índios. Consegue ter uma visão total das razões que assistem a qualquer um dos povos (americanos e índios) na guerra, mas respeita os índios, como nenhuma outra personagem, pelo respeito ser fruto da vivência nos dois universos. É acompanhado por um cão, não o alimenta para que este não se habitue a depender dos outros e treinou-o para detetar índios. É um cão selvagem que rosna quando Johnny tenta fazer-lhe festas, o que espelha a condição de Hondo.

Hondo – He doesn´t need anybody, i want him to be that way. It´s a good way.

Mrs. Lowe – Everyone needs someone.

Hondo – Yes, m´am. Most everyone. Too bad, isn´t it?

No início do filme, Hondo dirige-se à quinta de Mrs. Lowe e ali passa algum tempo, enquanto se restabelece, e leva emprestado um cavalo, como o cavalo que tenta domar, também Hondo tem dificuldades em ser domado, mas as cenas iniciais entre Wayne e Page mostram uma química entre os dois, ainda que ensombrada pela figura do marido, ausente, e a decisão de Hondo em dificultar qualquer ligação entre eles.

Women always figure every man who comes along wants them. – é o que lhe responde quando acha que ela está a tornar-se demasiado familiar.

A ligação entre Johnny e Vittorio é uma ligação de sangue, mas antes de o ser é pela admiração que Vittorio sente pela personalidade, braveza e coragem da criança que esta se estabelece. No meio de uma guerra insana, há lugar para uma decisão, estranhada por índios e soldados, proteger e defender uma mulher e uma criança. Não os atacar. Essa admiração leva a que o índio ofereça um dos seus como marido a Lowe, já que uma criança não pode viver sem pai e precisa de um modelo masculino que o ensine a ser um guerreiro.

O diálogo entre Hondo e Lowe, quando esta se apercebe que o marido está morto e pelas mãos de Hondo, é o momento alto do filme, mais ainda quando ele luta por dizer a verdade a Johnny.

Lowe – You think truth is the most importante thing.

Hondo – It´s the measure of a man.

Lowe – Not from a woman. A man can afford to have noble sentiments. But a woman only has the man she marries, that´s the truth. And if he´s no good, that´s still her truth.

O filme é sobre relacionamentos e a noção de verdade, que aqui é escondida por um bem maior, mas é também sobre as diferenças culturais entre dois povos, o valor da palavra e a noção de honra, a guerra final é apoteótica o quanto baste, é outro dos momentos altos do filme, mas para além das guerras e brutalidade (entre)vistas, é com tristeza que Hondo prevê o final da guerra com os apaches.

“É o fim de um bom estilo de vida.”

(7/10)

Hansel and Gretel: Witch Hunters

Hansel & Gretel: Witch Hunters revisita a história clássica de Hansel e Gretel, dois irmãos que são abandonados pelo pais e vão dar a uma casa feita de doces, habitada por uma bruxa, o filme começa quando a história que conhecemos termina, os irmãos tornam-se caçadores de bruxas e encontramo-los anos mais tarde na cidade de Ausgburgo, onde são contratados pelo Presidente da Câmara para encontrar algumas crianças desaparecidas e matar a bruxa responsável.

Jeremy Renner e Gemma Arterton são os atores principais, Famke Janssen, a Jean Grey de X-Men, faz de bruxa má e inimiga mor.

Sinceramente, o filme não me convenceu, até porque aquilo que achei mais interessante seja pouco mais do que um adereço, mas já lá vamos.

A escrita é pouco mais do que redundante e adolescente, cheias de clichés e uma tentativa de humor negro, mas devo estar a ficar velho, o que esta geração quer eu dispenso, isto tendo em conta o sucesso do filme e a confirmação do seu final, aparentemente já está a ser produzida uma sequela.

As personagens pouco mais são do que caricaturas e o desenrolar do filme é demasiado óbvio. O filme foi realizado em 3D e percebe-se isso, mesmo quando se assiste à versão 2D. Quem me dera que tivessem dado a mesma atenção ao argumento que deram à coreografia de ação, ainda que, e vale a pena referir, a mesma não seja brilhante.

Sendo um filme de ação, que pisca os olhos aos filmes de terror, já que incorpora alguns dos seus elementos, não se espera que as interpretações sejam de grande calibre, mas a escrita podia ter sido mais inteligente, menos formulaica. O filme integra alguns elementos mais gore, mas tenta abranger um maior número de espectadores, o que quero dizer é que não foram tão longe como poderiam ter ido, ainda que tenham ultrapassado a marca no que a este tipo de filmes (que tenta chegar a um público jovem, mas não só) diz respeito.

No entanto, a violência é gratuita, compare-se com The Walking Dead, que é poderosíssima visualmente, que enoja em determinados segmentos, mas percebe-se que o que vemos não é gratuito, no que à história que se está a contar diz respeito. Aqui não, tudo é em função do espetáculo, e isso foi o que mais me desiludiu. O espetáculo é demasiado gratuito, “pornográfico” no sentido gráfico e não é assim tão bom. A violência é de uma quantidade e qualidade atroz, troquemos as bruxas por seres humanos, eu sei que não é assim que a coisa funciona, se as trocarmos por zombies o argumento perde força, mas troquemo-los e aquilo a que assistimos é doentio. Penso que a diferença tem a ver com a escrita e a inteligência da mesma, já vi filmes violentíssimos, que não me marcaram pela negativa, lembrei-me agora de Inglorious Basterds, que tem cenas violentas, grafica e psicologicamente falando, mas em que o conteúdo de alguma forma defende essa mesma violência. Os produtores citam Sam Raimi como inspiração, nomeadamente Army of Darkness, mas ainda que consiga perceber a tentativa de homenagem, sinceramente a escrita é muito inferior.

Os pontos fortes do filme são a caracterização e o guarda roupa, tendo o filme uma estética muito steampunk, mas também aqui podiam ter ido um pouco mais longe. A caracterização das bruxas é interessante, entre o gótico enquanto humanas e a caracterização dos filmes de terror e banda desenhada. Houve claramente uma preocupação com o design e caracterização, que tornam o filme visualmente interessante, mas que se perde no seu todo. A primeira cena de uma bruxa na vassoura cativou-me, todas as outras pareceram-me redundantes e mais desinteressantes.

Concluindo, let´s go back to classics…

(3/10)

Cinema na TV

Ontem tive a oportunidade de ver dois filmes, um e meio para ser mais exacto.
Assim, vi o último Bond, Quantum of Solace, que faz sentido depois do aclamado Casino Royale, mas que me sabe a pouco. É um bom filme de acção, um Bond fraquinho e aquilo que chateou mais, não sei se por vê-lo na tv, foi a realização. Achei-a desconexa, confusa e pouco objectiva. Há movimento, coisas a passar por nós, murros e pontapés, explosões, mas a verdade é que muitas das imagens não se percebem. A realização é tão rápida que a compreensão do que acontece é limitada. Enfim, uma desilusão.

Por falar em desilusões, vimos (tentei, mas desisti) Shupping news, com um elenco maravilhoso (Kevin Spacey, Juliane Moore, Cate Blanchett e Judi Dench, só para referir os nomes mais sonantes). Uma autêntica desilusão. Não se percebe um fio condutor interessante, a escolha é por párias da sociedade que são mais enervantes que outra coisa. O filme é irritante, lento, enervante e nem leva a lado nenhum nem parte de lado algum. Eu desisiti de vê-lo a meio, para acabar Peter & Max de Bill Willingham (falamos disto depois), ela ainda teve coragem de o acabar de ver, mas sucumbiu perante tão mau filme.

Enfim…

Os (livros/filmes com) vapiros não precisam de ser cócós

O rei da série B, John Carpenter, decidiu envolver-se com os vampiros, quando estes tinham sucesso, mas não desmesurado, nem por parte de jovens “inconcientes”, Há 11 anos, portanto.
Vampiros é violento, sangrento, duro e série B o bastante para nos ajudar a passar uma (ou várias) noites, principalmente de inverno.
Destaca-se James Woods no elenco, mas o foleiro Daniel Baldwin e Sheryl Lee (sem adjectivos para ela, sorry) completam o lote de actores mais conhecidos.
Vampiros é suficientemente inteligente e interessante para destruir Lua Nova, Crepúsculo e afins. O que quero dizer com isto? Também há um romance entre humano e vampira, em parte do filme pelo menos.
E vivem felizes para sempre, as well…

De Iglesia conhecia a comédia negra La Comunidad, sobre a vida e o relacionamento de vizinhos num prédio, e o filme de terror, O dia da Besta, em que o anti-cristo aterroriza Madrid.
Ontem, ao jantar vimos Os Crimes de Oxford, com Elijah Wood e John Hurt.
Sinceramente? O filme é tão mau que não merece que pensemos nele. Ainda que falado em inglês é demasiado espanhol, algumas das roupas, a forma de actuar de alguns dos actores. Ora, eu até gosto de cinema espanhol, mas… não vejam, a sério, não vejam.
Vão perder o vosso precioso tempo.

Twilight

Taras e manias há muitas, perguntem ao Marco Paulo.
Aí há uns meses comprei o primeiro volume de Stephanie Meyer, por duas razões, gosto de vampiros e o hype deixou-me curioso.
Li o livro com um travo de desgosto e de pena. O livro é fraquito, demasiado juvenil, uma valente perda de tempo, com excepção das últimas 100 páginas que acabam por deixar um gosto agridoce em vez da bílis. A única coisa que guardo do livro são as angústias e expectativas da adolescente fixada no vampiro bom (no sentido de ser um naco gostoso, um pão).
Emprestei o livro a uma amiga minha, mais nova e, como era expectável, ela adorou, tendo comprado os restantes livros da saga. Educadamente recusei quando ela se preparou para mos emprestar.
Anteontem, gravei crepúsculo e comecei a vê-lo com a esposa. Em meia hora estava a dormir.
Os actores são maus, ainda que bonitinhos, o estilo tende a querer ser algo que não é, parece um filme indy, parece querer ser dark, com toda aquela cromática, mas nunca chega a ser nada a não ser uma piada de mau gosto. Os cabelinhos a voar, os personagens muito lidos, a música que tenta ser atmosférica, porra! (ora tomem lá um pontinho de exclamação), Até a fraquita (hoje) Kindred, the Embraced, consegue pôr isto em KO técnico em menos de 10 segundos. Que os adolescentes imberbes se sintam motivados a fazer disto um sucesso mundial, eu percebo, que alguns amigos meus, com idade para ter juízo e bom senso, se juntem ao grupo, confesso que não percebo.
Cinematograficamente nem vale a pena referir filmes de vampiros melhor do que estes, infelizmente impróprios (pelo menos gosto de pensar que sim) para adolescentes com o cio. Literariamente, prefiro os desvarios de Charlotte Harris, com True Blood, ainda que não tenha paciência para a sensualidade desbragada, mas pelo menos sei para o que é que vou.
Querem vampiros? Fiquem-se pelo Bram Stoker, pelos diferentes 30 days of night e pelo The Strain do del Toro. Tudo o resto é…futilidades adolescentes.

Uma das melhores BDs de sempre está a chegar ao cinema. Dificilmente o filme captará os inúmeros níveis de interpretação da obra, mas esta primeira imagem dos Minutemen faz-me salivar.
Em 2009, Watchmen.

A vida é um Milagre de Emir Kusturica

Nada como começar com uma citação, e quando esta é de Sylvester Stallone parece que o caldo entornou.
“Tinha um discurso em “John Rambo” e cortei-o. Falava como a guerra é a consequência dos actos de uma série de homens que estão no topo, mas na verdade ela não é a nossa guerra. São velhos que começam a guerra, jovens que lutam na guerra e ninguém vence. Toda a gente morre.”
A vida é um Milagre é um pouco assim, embora a guerra esteja simultaneamente ausente e omnipresente.
Esta guerra não é tua, nem é minha – diz a determinada altura uma das personagens, um capitão. E a realidade é que as personagens vivem uma guerra que não é a delas.
Não se trata de um filme de guerra, ou sobre a guerra, é antes demais um filme anti-guerra. Em que as personagens são transformadas por esta, mas em primeiro lugar são pessoas descritas com as qualidades que têm e que vivem em primeiro lugar por culpa das suas características e qualidades, sendo a guerra o cenário e pouco mais. AS personagens elevam-se em relação a esta.
Há imensas, demasiadas dicotomias para as assinalar a todas. Há a pomba no canhão do tanque. Há as dicotomias campo/cidade. Aliás, uma das características do cinema dos Balcãs interpretam muitas vezes a guerra como o confronto entre urbanos (civilizados) e campesinato (pouco ou nada civilizados). Kusturica tende a ter uma interpretação diferente e a colocar as suas personagens em contraste com estas duas ideias. Normalmente são personagens urbanas (mesmo quando esta é pequena), mas vemos as suas raízes rurais, ou a sua luta à lupa da vida campestre.
E isso é verdade neste filme. A mulher da personagem principal e filho zangam-se amiúdamente com pai por estarem longe da cidade, o que os impede de levar a cabo as suas carreiras. O caminho de ferro que é encarado como uma ponte para a civilização é atacado pela dicotomia, já que serve, muitas das vezes, para o tráfico de drogas e armas.
O resto é um filme com as características Kusturicanianas. Os animais que tomam conta do filme. A burra apaixonada, que chora e procura a morte. A música que é uma personagem per si, que nos eleva quando a história nos poderia socar com violência, o psicadelismo das situações e das imagens mais a música, das situações.
Depois há as críticas, mais ou menos, mordazes. A crítica aos alemães, aos media sensacionalistas e à Onu, no filme, os soldados, pouco mais são do que meras caricaturas.
No fim não é a morte que dói, é viver. E por vezes esquecemos a mensagem positiva do título, A Vida é um Milagre, como diz uma das personagens logo no início, quando um pinto nasce.
“Ao homem é dada razão para controlar os sentimentos” diz alguém. Mas, ao longo do filme vemos como a frase é ridicularizada pelos acontecimentos que deram origem e continuidade à guerra.
A vida é um Milagre é também um relembrar de que individualmente podemos fazer a diferença. E vivemos numa Europa que é um autêntico barril de pólvora. Bascos, protestantes e católicos, minorias étnicas e religiosas, entre outros, perfazem alguns dos problemas de hoje. E por vezes, não podemos depender dos “velhos” que estão no poder.