Work in progress

Não sei se sairá alguma coisa daqui, não pego neste texto há uns três meses, neste momento tem cerca de 25 páginas, algumas para apagar (bendita/maldita TIC, que já não me permites rasgar, riscar, emendar tendo acesso ao rasurado/emendado).

Pouco editado, aqui deixo a primeira parte.

Já não se lembra do dia, já o local, a situação e as pessoas presentes estão na sua mente. Preparou o discurso, visitou duas ourivesarias, escolheu o anel que considerou fazer mais o estilo de Beatriz, em ouro, com uma pedra grande, de resto, agiu normalmente e vestiu-se da forma casual como o fazia e faz. Ela não deu por nada, mais um dia, os pais dela estavam presentes, os dele de férias, esperou pelo meio da refeição e deu sinal a alguém que passou a música do namoro, uma pirosice de que nenhum gosta, mas que adotaram por simpatia, era a que passava quando deram o primeiro beijo, depois de uma ida ao cinema, igualmente um filme desastroso, irrisório, que só teve a qualidade de os ter unido. O sinal foi dado, a música começou a tocar, mais uma entre outras, ela ocupada a falar com a irmã, sentada ao lado, não reagiu aos acordes iniciais, ele levantou-se lentamente, puxou a cadeira e ajoelhou-se, ela a dar pelos risos, pelos olhares que lhe eram dirigidos, algumas mãos na boca, de origem feminina, claro, e quando se virou tinha a cara dele quase ao nível da sua, uma caixa na palma da mão, que abriu.
O esperado era ela ter sorrido, ter feito um ar de espanto, gaguejar e dizer que sim, ninguém pensa numa recusa num momento destes, talvez por se pensar que, mais não seja por educação, o outro lado dirá sempre que sim, que é a consumação do adiável, do relacionamento já iniciado, a confirmação do desejo de serem uma só carne, de atarem os trapinhos, que imagem esta, de selarem perante todos o que é patente. João também não pensou, o namoro não foi sempre um mar de rosas, outra imagem que tal! Imaginem um mar de rosas ainda com espinhos, esta será uma imagem mais realista do namoro deles, os feitios por vezes chocavam, ele solitário, fechado no mundo da leitura, dado a cinema alternativo, não comercial, aos clássicos do cinema americano, ela, menina do papá, habituada a ter tudo, sem experiência laboral, bela, bem feita, sempre maquilhada, adepta das noitadas, habituada a não dar satisfações a ninguém. Ele habituado a contar o dinheiro para pagar a casa e as contas, saiu da casa dos pais aos 17 anos, começou a trabalhar nessa idade, mostrou-lhe, muitas vezes, o amor que sentia com ofertas materiais, selando a paixão primeiro, o carinho crescente e o amor que sentia por ela, depois. Por vezes, incapaz de mostrar o amor, comprava-lhe algo, percebeu que ela se sentia amada desta forma, e não pensou duas vezes em adotar este hábito. Nunca pensou como seria a vida deles depois do casamento, a cada dia o seu mal, um problema de cada vez. Achava que já não estava apaixonado, amava-a, isso sim, sentimento, para ele mais alto, mais puro, mais sofredor. Se os dois quisessem, a felicidade seria um patamar atingível.
Nunca pensou, como já foi escrito, que ela poderia dizer que não, que ela poderia resistir ao pedido, que ela poderia não estar interessada em passar o resto da vida, ou algum tempo que fosse, com ele, como esposa. Mas foi o que aconteceu, há dez anos. Felizmente que a internet ainda não fazia parte integrante da nossa vida como o faz hoje, se o fizesse, o mais natural seria estar disponível online alguma imagem, algum excerto do pedido e da recusa, a verdade é que isso não aconteceu, quer por piedade, por generosidade, por decoro, por amizade ou por falta de oportunidade ou lembrança. Ausência que João agradece. Beatriz fez, inconscientemente, um ar de desagrado, altivo e desprezível, no meio do seu espanto, um ar imediato e fugaz, mas uma expressão que João guarda até hoje. O olhar consternado do público, amigos e familiares, ao ouvirem Desculpa, João, mas…, a mente dele pouco guarda do restante, desculpa, mas…
Adversativa incólume no seu sentido, adversativa clara e cruel neste contexto, adversativa que se transforma em aversão posterior a Beatriz, ao amor. A imagem da cara dela, da sua expressão, durante dias e noites, num torpor sentimentalista que o deixou não sabe se vazio, anestesiado ou simplesmente envergonhado pelo papel que interpretou.
João é dogmático, na sua personalidade, nos seus amores, nos seus ódios, nas suas opiniões, por vezes, a racionalidade é ultrapassada pela emoção, pelo sentimento, mas nele há sempre um misto das duas. Nunca atendeu nenhuma das chamadas que Beatriz lhe fez, falaram uma semana depois, porque ela o esperou à porta de casa, ele tentou, mas ela não o deixou entrar sem falar com ela. Ainda assim falaram na soleira da porta, só quando ela saiu, do andar, do prédio, da vida dele, é que João abriu a porta.
Nessa semana, deu a volta ao apartamento, todas as marcas da presença dela, fotografias, roupa, utensílios e objetos que uma namorada deixa em casa do namorado, foram analisados, deitados fora ou encaixotados e enviados por correio para ela, marca indelével da separação, do afastamento gradual, mas final. João retirou e abriu livros que poderiam conter fotografias dela, deles, dedicatórias dela, as fotografias juntou-as, as páginas com dedicatórias rasgou-as, e um ou outro livro que não lhe interessava foi incluído na caixa. Viu todas as fotos, poucas mais do que uma vez, colocou-as num saco e deitou-as no lixo. Às ofertas pesou o gosto, ficou com os cds, dvds, livros e roupa que apreciava, o restante ofereceu, enviou à precedência, deitou fora, desfez-se daquilo. Nem toda a gente agiria da mesma forma, mas João exorcizou a presença de Beatriz da sua vida, nem o número dela, que sabia de cor, se lembrava já um mês após o acontecido. João fê-lo para tentar minimizar as recordações, Beatriz ainda conviveu diariamente dentro de si, nos seus pensamentos, nos seus sonhos, na sua imaginação, mas arredá-la fisicamente minimizou a dor.
O trabalho consumiu-o, ou melhor, consumiu ele o trabalho, nunca se esforçou tanto, nunca se inteirou dos processos e resultados como nos dois anos após o Desculpa, João, mas…
Os livros tomaram o lugar do namoro, os livros, o cinema e quatro ou cinco amigos. O sexo nunca lhe toldou a vida, um relacionamento, que lhe parecia anteriormente necessário e desejável, agora era visto como uma fraqueza, com medo e a medo e decidiu que ficaria como estava, solteiro.
Passou a dedicar mais tempo à família, aprendeu a apreciar ainda mais o caráter trabalhador e honrado dos pais, redescobriu o Alentejo paterno, o Algarve da mãe nunca o seduziu, diz que o Algarve dele é a Costa Vicentina, mas é do interior alentejano que gosta, da pacatez da aldeia do avô, duas ruas, cinco tabernas, montes, casas baixas, pessoas simples, mais preocupadas em dar e conversar do que em receber algo em troca. O Alentejo dos chibos, das galinhas, dos perus, das ovelhas, das vacas, do porco, cortado e fumado para comer ao longo do ano. No entanto, este Alentejo não o queria, não encontrava ali trabalho, abrir uma loja é ideia peregrina e seca à nascença, os sonhos são estéreis, o dinheiro é pouco, viveria de quê?
Um dia, o pai ganha um prémio razoável numa lotaria, na semana seguinte ele ganha outro prémio, juntam o dinheiro e compram um monte, renovam a casa velha de origem, sonham, compram animais, contratam um primo para tomar conta do terreno agrícola, árvores de fruta não são muitas, pelo que plantam mais algumas, oliveiras são duzentas, renovam a casa e constroem mais duas, ligeiramente afastadas da casa principal, uma casa com capacidade para duas famílias, a outra mais pequena, dividida ao meio, dois apartamentos, cada um com dois quartos, uma cozinha e uma sala, apostam no turismo rural. O dinheiro que sobrou está a juros no banco, é um saco de oxigénio caso seja necessário, a terra vai dando o seu fruto, pedindo em troca o seu suor, João vai aprendendo a viver do e no campo.
O primeiro ano não é famoso, mas os que ali passam voltam, o boca a boca faz aumentar o número de clientes, a pesca, a caça, o descanso, os preços não muito altos, a aguardente de um tio, a comida da mãe, as conversas intermináveis, memórias familiares, da vida de outrora, levadas a cabo pelo pai, junto ao calor ardente e vermelho do fogo no inverno, ou sentados cá fora, aspirando por uma brisa ténue no verão, caem no goto dos visitantes, cansados do rebuliço citadino, ignotos da vida no campo. Alguns querem e participam efetivamente na labuta diária, não é raro haver clientes na apanha da azeitona, a dar comida aos animais, principalmente as crianças, que inicialmente parecem temerosas, mas partem a choramingar, já com saudades, típicas das crianças, dos dois rafeiros alentejanos, pelos três ou quatro gatos que cirandam a casa, pelas galinhas, patos, perus e ovelhas.
João sente-se inteiro, contente pela sorte que lhe calhou e que alimentou, sente que o investimento feito foi acertado. Uma vez por semana, às vezes mais, outras vezes menos, depende do trabalho, da disposição, vai a Lisboa, tirou a cidade de dentro dele, mas não o gosto pelos livros, filmes, que por vezes manda vir pelo correio, em inglês ou espanhol, mas sente vontade de passear pelas livrarias e alfarrabistas.
Por vezes traz o suficiente para o acompanhar por uma semana, aproveita os preços em conta, às vezes leva a mãe, o pai, esse, já ninguém tira dali, nunca gostou da cidade, do ritmo, da poluição, dos feitios, das calhandrices, também ele tem o seu dia de folga, quando filho e mãe vão às compras.
O pai nunca puxou o assunto, mas a mãe, direta e indiretamente, pergunta-lhe se não pensa em casar, ter filhos. João sente a ansiedade dela em ser avó, a alegria reprimida de não ter netos em casa. Responde sempre silenciosamente, com um menear de cabeça, às vezes, indicando que não, outras com um quem sabe, não muito convincente, dado com um encolher dos ombros. A aldeia é agora o seu mundo e raparigas com a sua idade contam-se pelos dedos de duas, vá, três mãos. Uma mão para raparigas feias, simpáticas, trabalhadoras, mas feias. Outra mão já é comprometida, espera que não façam desfeitas como a que Beatriz lhe fez, as outras, os estudos as levarão, mas nenhuma cobiça, nenhuma o toca intimamente.
Numa dessas viagens, a mãe começa a falar de Maria, tanta Maria há na aldeia, rapariga bonita, alourada, de lábios finos e olhos negros. João percebe a deixa, mas não pega nela, muda de assunto. Já mirou a moça algumas vezes, o monte é também local de encontro de familiares e conhecidos dos pais, por vezes, à falta de clientela, juntam-se alguns em almoçaradas ou jantaradas, tocando a concertina e cantando modas alentejanas, regadas a vinho, bagaceira caseira e licores caseiros da mãe. Maria vai, algumas vezes, mais vezes ultimamente, as mulheres alentejanas, mesmo em aldeias, já não se vestem como antigamente, pelo menos como João as via vestidas quando era gaiato. Maria tem pernas longas, e mostra-as, veste calções, saias, tem um peito delineado, mas sempre escondido por tshirts, camisas e casacos. É divertida, bonita e tem um (sor)riso desarmante, João gosta, silenciosa e secretamente, de a ouvir rir, de a ver sorrir, aprecia como o sorriso lhe chega até aos olhos, aprofunda-os, a sua face é iluminada ao sorrir, mostrando a simpatia e beleza naturais. João pensa naquele sorriso, na cova que nasce, na curva do nariz, e apercebe-se que já não diz nada há algum tempo, a mãe olha em frente, com um sorriso.

Conversas de Café II

(Mesma mesa, duas minis)

– Que é que andas a ler?

– Um policial francês, um livro de contos sul americano, um livro sobre a segunda guerra mundial e uma biografia sobre o Thelonius Monk.

– Sobre quem?

– Um músico de jazz, um génio. Conheces aquela música, “Just a gigolo”? (cantarola)

– Ya, do David Lee Roth. (abana a cabeça, fazendo com que uma garrafa quase caia)

– Surpreendes-me, tantas versões e escolhes a pior. Mas és coerente.

– Coerente?

– É a versão do gajo com o cabelo mais parecido com o do Bon Jovi dos anos oitenta. (Sorri)

– Vai-te lixar. O que é que isso tem a ver com o Monk?

– A música é dos anos 30 ou 40, não sei bem, o Monk fez uma versão fenomenal, está no Misterioso, o meu álbum favorito dele.

– Não conheço. E estás a ler isso tudo? Como é que consegues ler tanto livro ao mesmo tempo? Não confundes as coisas?

– Não, são livros diferentes, distintos. Mas mesmo que não fossem, cada livro tem um ritmo diferente, e eu entro em cada um deles de forma distinta. Tenho lido livros ao longo de um ano, e outros ao longo de um dia. Há livros que me cansam a determinada altura, leio um ou dois e depois volto ao que deixei, eventualmente.

– Ultimamente ler cansa-me, acho que por ter andado a preparar os relatórios para a empresa e a ler alguns livros técnicos, deram cabo de mim. Ando a ler um dos livros do George R. R. Martin, mas encalhei. Acho que vou esperar pela série.

– Andas a ler qual?

– Nem sei, o 7º ou 8º. Cada vez que acabo um, vou comprar o seguinte e tenho de ir ver o número. Não decoro os nomes. A Lídia é que ficou contente, dei-lhe As Cinquenta Sombras de Grey. Conheces?

– Li um bocado, sem saber ao que ia, em e-book, bem antes de chegar cá a Portugal. Prefiro o 50 Shades of Chicken.

– Preferes o quê?

– É um livro de culinária a parodiar o que tu deste à Lídia, com receitas de frango/galinha.

– As coisas que tu descobres. Esse eu era capaz de gostar, o outro não li, o que achaste?

– Epá, sadomaso? Deixa estar.

– Sadomaso, a sério? Não sabia. (Dá uma gargalhada)

– Conhece melhor aquilo que ofereces, pá. Qualquer dia levas com o chicote…

– Achas? Mas ela diz que aquilo é muito bom.

– Isso é que eu acho estranho, tantas campanhas contra a violência doméstica e depois o livro mais vendido em Portugal é um livro de sadomaso, faz-me espécie.

– Vendo desse prisma…

– A sério… se um tipo dá um estalo numa mulher ou pior é crime, o que acho bem, mas depois elas andam a ler um livro sobre práticas pouco…pouco…epá, ser amarrada e coisas que tais, sei lá, parece-me um bocado deprimente. Andam anos a pensar no príncipe encantado e em vez de um sapo transformado em príncipe sai-lhes um príncipe transformado em Sade. Não percebo.

– Pois…Vou andando, vens?

Conversas de café

Dois amigos, nos trintas, sentados a uma mesa, a beber minis.
– Já ouviste o novo single dos Bon Jovi? Granda malha!
– Não! O que é uma grande malha?
(O outro ignora-o e canta a música)
Essa já ouvi. É nova?
– É!
– Igual às outras todas. Cansa-me ouvir uma música nova e ser mais do mesmo.
– Percebo o que queres dizer, mas… É o estilo deles.
– Estilo…é tudo igual. Mas são quase todos. Têm sucesso com uma música e refazem-na até à exaustão.
– És capaz de ter razão, mas é assim que a música funciona. Se fizerem coisas diferentes de álbum para álbum o pessoal é capaz de ignorar. E refazer algo algumas vezes, sempre com sucesso, não é para todos.
– Hum…Não sei. Gosto de variedade, admiro uma banda que me cative não tocando sempre o mesmo. Olha os U2…
– Que banda, grandes músicas.
– Grandes músicas…ya…Diz-me uma a partir de 95 que seja de jeito.
– Sei lá, olha, “stuck in a moment you can´t get out” (a cantar o refrão)
– Diz-me outra…
– Não sei…
– Pois…Eu não gosto de nada deles desde o Zooropa.
– Esse não é aquele álbum meio de dança?
– É! Para mim é o melhor álbum deles. Zooropa, Numb, Lemon, .Stay (Faraway, So Close!), Daddy’s Gonna Pay for Your Crashed Car, The Wanderer.
– Que treta de álbum. Mas tu gostas de música de dança?
– Daquela gosto. O meu objetivo é esse, ouvir o pessoal que gosto a mudar, se não de estilo, pelo menos de ritmos, ambientes. É o meu álbum favorito deles.
– É o que eu menos gosto. Mas se é para ouvir à noite numa disco ou bar, prefiro Beastie Boys, gostas?
– Dos singles, que é o que conheço. Mas do pouco que conheço, nada como o Right to Party. Mas reconheço que mudaram ao longo dos tempos. Os U2 não, cristalizaram os singles e pimba. One, with or without you, Stuck in a moment without you, Beatiful Day, With or without you. É tudo igual.
(Este gajo é parvo, pensa o outro)
– Mas de que é que tu gostas? Diz lá as tuas bandas favoritas.
– Não sei se tenho bandas favoritas, tenho os álbuns todos dos Pearl Jam até determinada altura, mas depois fartei-me.
– Tudo igual? (cinicamente)
– Ya, um pouco. Parei no Binaural. (Faz um ar de desgosto)
– Qual é a tua música favorita deles?
– Yellow Led Better. (canta) “Ah yeah, can you see them out on the porch? Yeah, but they don’t wave.
I see them round the front way. Yeah. And I know, and I know I don’t want to stay. Make me cry…”
– Não conheço, mas Pearl Jam não é muito a minha onda. Eu era mais Nirvana.
– Só o Bleach.
– O Bleach? Aquilo é só barulho.
– Ya, cru, básico, um pouco redundante em termos de letras, mas musicalmente, o melhor álbum deles!
– Melhor? Tu estás a brincar comigo. Melhor do que…
– Que qualquer um dos outros, melhor que o In Utero, que o Nevermind, ou aquela bosta do MTV Unplugged.
– Tu és é do contra.
– Não, man, sou é mais alternativo. Coisas comerciais cansam-me, sabes?
– Deves ser daqueles que quando um gajo começa a ter sucesso deixas de ouvir.
– Um bocado, ya.
– És como aqueles freaks que colecionam somente os nºs 1 das bandas desenhadas?
– Nunca tinha pensado nisso. Sou um bocado, sabes? Tenho álbuns de algumas bandas, mas o que acontece, acontecia, que hoje já não compro grande coisa, é que quando comprava um álbum que gostava bué, por vezes, a maior parte das vezes, já não conseguia comprar mais nenhum.
– A sério?
– Ya, não acredito que a inspiração bata à porta muitas vezes.
– Dá-me exemplos.
– Draconian Times…
– Uh? Draquê?
– Paradise Lost, meu, tinha um álbum deles antes deste, o Shades of God, mas nunca mais consegui ouvir mais nada, nem para a frente nem para trás. Tales from the Thousand Lakes dos Amorphis.
– Dos quem?
– Tem uma versão bué louca do Light my fire, dos Doors.
– Mas isso é só música pesada, não ouves nada mais comercial?
-Tu é que perguntaste sobre o que eu gostava de ouvir. E já te disse que sou mais alternativo. Tindersticks, Nick Cave.
– É isso que não entendo. Mandas vir com gajos que fazem sempre a mesma música. Epá, se ouvir uma música de Tindersticks ou de Nick Cave já ouvi todas.
– Mas isso é porque não gostas. Aceito em parte a crítica em relação aos Tindersticks, mas mesmo assim, os álbuns são diferentes.
– Bon Jovi é tudo igual, Nick Cave não? Deves estar a gozar comigo!
-Bon Jovi é um bocado assim para…
(o outro espera, olha para ele nos olhos, convidando-o a continuar)
-Sim?
-Música de gaja, pronto. Ouvir Bon Jovi de livre escolha é somente triste.
-Triste? Triste és tu, Nick Cave e Tindersticks é que é música triste, depressiva, de cortar os pulsos. Aquilo arranha-me os ouvidos.
– Acontece a gajos que ouvem Bon Jovi. Música melancólica não é forçosamente música para cortar os pulsos. Música para cortar os pulsos é Beyoncé, Lady Gaga, nem sei como é que chamam música aquilo.
– Estás a mudar o bico ao prego.
– Não estou. Só estou a tentar dizer que aprecio o melancolismo. Olha, o meu género favorito é o jazz, porque passas por diversos estados de espírito, às vezes, dentro do mesmo álbum.
– E nada repetitivo.
– Repetitivo enquanto género, claro. Ou vais-me dizer que há muitas diferenças entre bandas de rock, pop, ranchos folclóricos, ouves um rancho folclórico e já ouviste todos. (ri-se com a piada)
(O outro parece desistir)
– Pedimos mais uma? Ou é muito repetitivo?
– A abaladiça, depois tenho de ir.

Breve Narrativa

Cada vez que entra no escritório lembra-se do pai, que morreu quando tinha dez anos, de estar sentado nos seus joelhos, um pai de sorriso fácil, mas de olhar duro, quando era necessário. Lembra-se de tê-lo ao seu lado, no sofá, a ver os desenhos animados, de lhe dar a ouvir algumas músicas, de jogar à bola e fazer puzzles com ele.
Entrar no escritório é pouco exorcizante, nada mesmo, cada vez que entra naquele espaço parece que ele vive ainda ali. A mãe pouco mudou ou alterou as coisas, um mausoléu quase, as mesmas estantes, os mesmos livros, os dois posters de filmes antigos, um de Howard Hawks, outro de Hitchcock, “roubados” a pedido num já desaparecido cinema de Lisboa.
Cada vez que entra no escritório lembra-se do pai a ler, a ler livros, revistas, jornais, a ler-lhe livros, para crianças ou não, livros que o ensinaram desde cedo a sonhar, a sorrir, a saber sentir. Livros que lhe ensinaram palavras novas, expressões desusadas ou recentes, em português ou noutra língua qualquer. Cada vez que olha para os livros lembra-se do pai e talvez por isso aprendeu a odiá-los após a morte do progenitor, como se a culpa da ausência, da morte, fosse deles, uma reação pessoal e inusitada à ausência dele.
O escritório é limpo religiosamente pela mãe, uma vez por semana, ao som de um dos cds do pai, hábito, este último, que lhe faz confusão. Pela primeira vez em algum tempo olha para as lombadas dos livros, amarelecidas pelo sol que entra todos os dias pelas duas janelas do escritório, livros, apercebe-se agora, que desvendam um pouco o homem que já esqueceu, recriou e que se revela nas histórias familiares, já um pouco míticas. Estes livros desvendam um pouco e de forma imperfeita os gostos do pai, se os comprou devia querer lê-los, não?
Nesse sábado acordou cedo, o sono fugiu-lhe, apesar de se ter deitado tarde. Entrou, sem saber bem porquê, no escritório, despenteado, enramelado, e parou algum tempo a olhar para os livros que sempre ali estiveram. Livros organizados por ordem alfabética, nas estantes superiores os autores estrangeiros, nas centrais os de expressão portuguesa, nas estantes inferiores os livros técnicos, de ciências, política, crónicas, etc. Independentemente desta organização o pai aproveitava qualquer espaço livre para colocar outros livros, os de bolso, ou outros que talvez não lhe interessassem tanto, há poucos espaços por preencher, graças à mãe que vai cristalizando aquele espaço numa memória perene do esposo.
Quantos teria lido? Quantos teria deixado por ler? Teria relido algum? Retira um livro um pouco ao calhas, um título mais apelativo, de autor desconhecido, sul americano, aparentemente, ao lado deste mais cinco livros do mesmo autor, dois deles em versão original. Abre-o, folheia-o sem grande interesse e repara em alguns sublinhados, algumas notas, na última página há um poema, escrito pelo pai à sua mãe, sem data. Lê e relê o pequeno texto, ignora poetas, poesias e estilos, talvez por isso não o acha grande coisa, mas sente o ardor da descoberta, um pouco do pai ali escondido. Coloca o livro de parte, decidindo lê-lo depois. Procura com os olhos e retira mais um livro, parece-lhe incólume, a lombada está intacta, não dá por notas ou sublinhados, somente um autógrafo da autora, “Para o Vasco, que me ensinou muito do que sou e sem o qual este livro não existiria”, não reconhece o nome da autora, olha para a fotografia na contracapa e pensa como era bela, teria sido sua aluna?
Sempre encarou os livros como uma herança material do pai, agora parece-lhe que estará um pouco ali o imaterial, as notas, apontamentos, escritos e o que mais possa encontrar podem ajudá-lo a conhecer melhor o pai, ou parte dele, pelo menos. Os livros sempre foram, já lhe disseram imensas vezes, parte essencial do Vasco, do Vasco que aproveitava cada segundo livre para ler, que levava livros e mais livros de férias, que lia no barco, em casa, no café.
Retira mais um livro, mal tratado, manuseado quase até à exaustão, sintoma do uso que lhe foi dado, capa gasta, algumas páginas com cantos dobrado, às vezes o canto superior, outras o inferior, nódoas de comida, o círculo de uma chávena de café, apontamentos, linhas que comentam o texto, outras que parecem ser pensamentos ou notas sobre tudo e nada. Na página 55 sobressalta-se, “Vou ser pai!”. Emociona-se, debaixo das três palavras há uma data, seis meses antes de ter nascido. Serão estes livros um diário “cadavre exquis” do pai?
Em uma hora descobre fotos, recibos, marcadores feitos pelo pai, utilizando toda a espécie de materiais, folhas de jornal, folhas de árvores, calendários, pacotes de açúcar. Os livros apresentam resquícios e marcas de terem sido abertos, lidos, habitados por alguém ou talvez tenham habitado, é mais provável, o pai. Levanta-se, “quem sabe se não estarei a dar demasiada importância a coisas que não a têm”, mas sente que o pai está novamente ali presente, uma nova imagem, uma recordação mais completa, será essa a razão da proteção e manutenção do espaço feitas pela mãe?
Sai de casa, para almoçar, alterado, não consegue explicar o que mudou. Nessa tarde comprou pela primeira vez em muitos anos um livro para si.

Até que a morte nos separe

“Até que a morte nos separe.” Lembra-se de olhar para Carla, de sorriso aberto, vestida de branco e dizer esta frase (batida).
“Até que a morte nos separe”, namoraram durante cinco anos, casaram quando ela engravidou. Teria sido uma menina, mas uma complicação no quinto mês de gravidez levou ao aborto. Terá sido esse acontecimento a abortar também o casamento, o amor deles? Não sabe afirmar com certeza. A verdade é que o sexo se tornou mais ocasional, o prazer transformou-se em enfado e, pouco a pouco, o ressentimento passou a ocupar o lugar do amor que cada um sentia um pelo outro.
Não sabe explicar porque é que continuam juntos. Já nada os aproxima, falam pouco um com o outro. Vivem juntos, mas na realidade longe um do outro.
Quando descobriu que Carla o traía com um colega do trabalho não estranhou, ainda que a descoberta o tenha magoado. “Não foi com isto que sonhei.” Como é que passamos dos sonhos à triste realidade? “Porque não nos divorciamos?” Durante as primeiras semanas, após a descoberta do caso, esperou que ela lhe pedisse o divórcio, que lhe dissesse que tudo tinha terminado, que encontrara outra pessoa. Esperou… Ainda que nada a prendesse a ele, ainda que o traísse, ela nada disse, ele esperou, sem nada dizer, também.
Enfureceu-se, quando percebeu que alguns amigos sabiam do caso. Pensou em confrontá-la. Três meses depois da descoberta, começou a fazer planos para que a morte realmente os separasse. Passou algumas horas na internet, pesquisou casos reais, tentando perceber o que correra mal em alguns crimes que terminaram com a prisão do marido assassino.
Elaborou um plano.
Um dia confrontou a mulher com o arrefecimento do casamento, chorou, “foi com isto que sonhaste”? Pediu-lhe uma segunda chance, não mereceriam uma segunda hipótese? Queria ser feliz com ela.
Marcaram três dias de férias, mais o fim-de-semana, cinco dias só para eles. Escolheram uma ilha, no meio do Atlântico, longe de conhecidos, uma outra língua, preços especiais de época baixa, clima temperado.
A escolha, que partira dele, era um sonho antigo dela. Ele já estudara percursos, caminhos, locais a conhecer, perigos possíveis. A ilha era conhecida pela sua beleza natural, mas ao longo dos últimos anos alguns turistas mais afoitos tinham conhecido a morte. Planeara três ou quatro hipóteses de a matar. Era uma questão de tempo.
Chegaram ao aeroporto pelas 11h. Ao meio-dia entravam no Hotel, só teriam carro no dia seguinte.
Carla parecia querer dar uma oportunidade ao casamento, nos dias que antecederam a viagem, passaram algum tempo falando do aborto, nunca tinham falado muito sobre o assunto, de como ela se afastara, dos porquês, de como podiam tentar recomeçar.
No quarto de hotel, arrumaram a roupa. Ele deitou-se na cama, esperando que ela acabasse de se arranjar para saírem. Ela saíu da casa de banho, com um conjunto de lingerie novo. Fizeram amor. Tomaram banho juntos e voltaram para a cama. Jantaram no quarto. Depois, ela contou-lhe, a medo, do caso com o colega de trabalho. Fê-lo com sinceridade, mostrou-se arrependida e disse-lhe que fora a conversa que tinham tido e a posterior decisão conjunta de lutar pelo casamento que a tinham feito mudado de ideias. Sem essa conversa, teria saído de casa na semana seguinte.
Ele ficou ali, embasbacado, não com as novidades, mas com o volte-face. Ela parecia genuinamente incomodada com a sua atitude, reconheceu, pela primeira vez em meses, a mulher por que se apaixonara e com que casara.
Disse-lhe que a perdoava, escondeu-lhe que sabia, e prometeu-lhe que juntos dariam a volta por cima.
No dia seguinte, passearam pela ilha, ele ia pensando no planeado, envergonhado, mas indeciso.
O terceiro dia acordou enevoado, fizeram um pequeno passeio de barco, até umas ilhotas ao largo da ilha mãe.
O cansaço físico não os impedia de voltar a encontrar-se, à noite, nos braços um do outro. Era a lua de mel que nunca tinham tido.
No quarto dia, foram até à montanha mais alta da ilha. A estrada era íngreme, a vista deslumbrante. Quando chegaram ao cume, o nevoeiro impedia-os de ver o que estava abaixo, chovia e não se via vivalma. Eram oito da manhã, tinham saído cedíssimo do hotel, num dos miradouros, João pensou no planeado, era um local perfeito, que colocara de parte pela presença habitual de turistas e vendedores. Ela estava em cima do muro, ele chegou-se por trás e colocou os braços à sua cintura. “Cuidado, não caias.”
Desceram a montanha, visitaram duas ou três terreolas, no vale, e partiram em direcção a uma praias desertas, promessa do gerente do hotel.
A praia era lindíssima, o tempo melhorara e ele aventurou-se na água. Passaram o resto da tarde ali. Lancharam perto da praia.
No caminho para o hotel, ela pediu-lhe para pararem junto à estrada. Anoitecia, o sol punha-se lentamente, lá ao fundo, no mar alto.
Sentaram-se, com cuidado, na parede que limitava a estrada da escarpa. Abaixo deles, uma vertigem escarpada. Olharam juntos o anoitecer, ele apertava-a, beijou-lhe a testa.
“Voltamos?”, perguntou-lhe já quase na penumbra. Andando já na direcção do carro, ela dera por falta da mala, colocara-a do outro lado do muro, encostada a este. Voltaram, ele apanhou a mala e colocou-se em cima do muro, de costas para ela, “não se vê nada”.
Os últimos dias tinham sido difíceis para ela. Voltara a sentir prazer em estar com o marido. Ainda o amava? Começava a acreditar novamente que sim. Aceitara a viagem como uma dupla oportunidade, poderiam tentar reatar o casamento, algo em que não tinha muita esperança, mas planeara a sua morte. Contara-lhe do seu caso, esperando fúria, dor, algum tipo de reacção, não antecipara o perdão. Pouco a pouco, fora-se habituando à ideia de continuarem juntos. Mas, no seu inconsciente tinha medo, de voltar tudo à normalidade abjecta do passado recente. Tinha medo dos silêncios que habitaram a sua casa durante quase todo o seu casamento, tinha medo de que esta promessa fosse outra vez ultrapassada. A felicidade entre eles tinha sido uma promessa vã.
“não se vê nada”
Ela via, mas era como se não visse. O futuro era uma bifurcação e ela temia que as escolhas fossem novamente as erradas. Num ataque de fúria, empurrou-o, escarpa abaixo.

Monólogo

-Olá!
-…
-Sinto-me velho, hoje. Quase tão velho como tu, sem paciência, descarnado, sem pele.
– Deves estar velho mesmo. Descarnado? Com tantas peles penduradas?
-Sim, eu sei. Gordo, irascível. E velho, um velho de 48 anos. Com um filho que não conhece, que não percebe, que não vê. Um filho ausente, mesmo quando não sai de casa.
– E uma mulher que cada vez mais se afasta, foge, se esconde de ti.
-Tinha medo de o pegar, quando nasceu. Sabes? Parecia demasiado frágil, para um tipo sem jeito como eu. Para um tipo que partia copos todos os dias, copo, que partia um copo todos os dias. E olhar para ela, uma estrela naquele quarto. Sorrindo, cansada e dorida. Também de mim. Como se aquele raio que saíra dela podesse fazer-me brilhar. Chamuscou-me.
-Não sei se tem medo de ti, mas…qualquer dia não a encontras. Abafa-la demasiado.
– Como me hei-de dar com os outros, mesmo os do meu sangue, se não me percebo a mim mesmo? Se não aceito quem sou. Se não gosto de mim…mesmo quando os outros gostam.
-Ela sabe que não sabes se gostas dela. Pelo menos, na maior parte das vezes.
– Ironia. Porra de realidade. Sentir o amor dos outros, o carinho e não saber retribuir. Evitar olhar nos olhos, ou olhando não saber sorrir, não me interessar pelo que dizem. Fartar-me do som das vozes deles, e ansiar pelo som da minha não voz, dos meus não pensamentos. Sorrir por não reagir. Ou reagir não agindo.
– …
-Não dizes nada? Ou respondes afirmativamente, com o silêncio? Juntando-te a mim na minha opinião?
– Não consigo pensar contigo a falar. Não te calas. Aliás, é esse o teu problema. Falas sempre, mesmo quando não te ouvimos. Mesmo quando não pensas. As mãos não param, a respiração aumenta, o pé bate no chão, para cima e para baixo.
-Vejo um jovem de vinte anos, que mora na mesma casa que eu. Não gostava de o pegar em pequeno. Não tinha paciência para ele, para as perguntas, para os porquês, demasiado agarrado ao trabalho, ao desejo de ser melhor, aos jornais, à realidade. E ele perguntando, porquê, pai? Porquê?
Andando, correndo, tirando as coisas do lugar. Vendo tudo com as mãos, e por vezes com a boca. Porquê, Pai? Lambendo, roendo e mordendo. Porquê?
-E ela, ali, a olhar para os dois. Sorrindo tristemente para ti, tentando compreender o que nem tu sabes explicar. Esperando que entendesses o filho que te deu.
– Mordendo uma caneta, ficando com a boca cheia de tinta. Cuspindo para o monitor. Metendo os dedos na boca e sujando a parede. Porquê, filho?
-Triste, quando o agarravas por uma orelha. Ou quando lhe davas uma ou duas palmadas, a chamavas, e colocando-o fora do escritório, fechavas a porta. Entre ti e eles.
– Que saudades desses momentos.
– Imaginas as lágrimas de um e de outro?
– E aqui estou eu, num quarto de hospital.
– E eles vêem visitar-te?
-…

Sentada, descansando as pernas e a alma, se é que é possível descansá-las, pensava na morte, próxima, tão próxima que lhe sentia o cheiro. Acordou com os gritos.
A sala onde estava fechada era escura, mas iluminada por frechas no telhado, não sabia se era o sol que se descobria ou se era a noite que chegava. Tinham-na deixada inconsciente, fora apanhada por um grupo de populares, que a pontapeara. Por isso afagava as pernas, ainda que todo o corpo estivesse cheio de hematomas, a pele branca era agora arroxeada, como que por milagre a cara não tinha sido atingida, por milagre pensava ela, afinal tinha sido propositado. A morte de alguém é sempre um marco, mas matar uma bruxa tem mais sentido quando se reconhece quem se queima na fogueira. Era esse o modus operandi do vigário, “apanhem-nas, amoleçam-nas, mas não as desfigurem. Todos devem reconhecer o aspecto de uma bruxa”.
Afinal o cheiro que sentia era o da lenha, pronta para a queimar e provavelmente a outras.
Chegara à aldeia há 10 anos, fugida da guerra que lhe matara a família. Fora assim que explicara a sua chegada, agora, ali, na penumbra, pensa que não é a guerra que mata ninguém, somos nós, homens e mulheres, toldados pelo medo, pelo ódio, pela violência.
Tendemos a chamar nomes ao que não conhecemos, aprendera desde miúda a arte do herbarium, com a avó velha. Fugida da guerra, atravessou montanhas e rios e teve de aprender uma nova língua. Começou a trabalhar no campo, o suficiente para lhe dar o pouco que precisava, pouco a pouco foi fazendo amigos.
Não é normal uma mulher da sua idade só. Não é normal uma mulher da sua idade tão bela, ainda para mais trabalhando de sol a sol entregue aos caprichos da natureza. Não é normal uma mulher saber tanto de plantas e ervas. É?
Nada disto por si lhe ditaria a sorte funesta. Há dois anos chegou o vigário, homem seco, tanto de carnes como de feitio. Ela reconheceu-o, mas guardou-o para si.  Estava na igreja na primeira missa, a face dele era-lhe familiar, mas não conseguia perceber de onde. Ele lia I Coríntios 13 e quando gritou “Sem amor” ela empalideceu. Há onze anos ouvira aquela mesma voz, comandando um grupo de homens, mandando que estes exterminassem crianças e velhas. Saíu à pressa, sob o olhar de todos.
Naquela noite não dormiu, via a cara da mãe e dos irmãos, do pai já não se lembrava. “Será que o padre se lembra de mim?”
No início pensou que não, que estava incógnita. Talvez o estivesse, talvez o padre tenha perguntado por ela, talvez tivesse sabido de onde ela viera, alguém poderia ter contado o que ela contara quando chegou à aldeia. Deixou de ir à igreja, temerosa, temendo o homem não o Senhor.
Há poucos meses a caça às bruxas tinha começado, pensou em ir-se embora, mas poucas vezes se cruzara com o diácono e nas poucas vezes em que acontecera ele tinha sido simpático, nada lhe indicava que ele sabia quem ela era. Fugir, outra vez? Para onde?
Da rua chegam-lhe gritos, urros, o murmurar de uma multidão. A porta abre-se, reconhece o homem que a agarra com maus modos, ódio e talvez temor.
“Jan, não. Porquê?”
Ele agarra-lhe nos cabelos, puxa-os, quase que a vira ao contrário e puxa-a pela porta. Consegue perceber, entredentes, a palavra bruxa.
Esperneia, grita por misericórdia, mas é levada, com a ajuda de mais dois homens, em direcção de uma pilha de madeira, com um tronco no meio. Consegue ver, de relance, duas fogeiras já acesas, com dois corpos, parecem duas bonecas, queimadas. O cheiro a carne assada dá-lhe voltas ao estomago, num misto de fome e agonia.
Atam-na à fogueira, o som é ensurdecedor. Os gritos que, por momentos, pensou que fossem só dela são de toda a aldeia. Crianças, mulheres, velhos, homens, gritam como animais, desejando a morte e o fogo dos infernos.
Chora, grita por clemência, diz-se inocente.
Um homem pequeno que não conhece aproxima-se com uma tocha acesa, que aproxima da madeira. Começa a sentir o calor das labaredas, tenta soltar-se, “Que Deus tenha piedade da tua alma”,  ouve o padre dizer na sua voz de homicida, mas de ar compungido. O povo cala-se, benze-se e parece olhar para os céus, pedindo a misericórdia divina.
Um troar enorme parece abrir a terra ao meio, depois, por uma milésima de segundo, um raio ilumina ainda mais o dia que nasce.
Perante o ar compungido do público, começa a chover sem que haja nuvens.
“Bruxa! BRuxa! BRUxa! BRUX…”
As chamas apagam-se, a praça fica vazia. Ela pensa na morte e em Deus, engalfinhada pelo fumo negro da madeira molhada.

Acordo.
Sou vencido pela necessidade de me levantar da cama. Passo pelo móvel, onde estão algumas fotos da juventude. Constato mentalmente as mudanças ocorridas, primeiro, as físicas, aquelas que saltam à vista. O peso, a altura, as olheiras, o cabelo, a barba.

Sento-me à secretária, com o monitor do computador à frente. Entre e-mails e redes sociais, lembrei-me das horas passadas a conversar, das cartas escritas, dos telefonemas para casa dos amigos (e amigas).
Hoje, com um toque ou dois do rato, vejo caras que não via há muito tempo, gente que há 20 anos atrás ou não veria mais ou uma ou duas vezes na vida, quanto muito.

As memórias vêm à minha mente. Encontros combinados, sdesencontros, ídas ao cinema. Sair do barco e andar durante uma hora, descer das Amoreiras aos barcos, subir a pé dos barcos ao Campo Pequeno –  às vezes para dizer olá, estar um pouco com determinada pessoa. Penso como estupidamente nos metíamos dentro duma sala escura, a ver um filme, esquecendo a possibilidade de falar. Cada um ia para a sua casa, e passávamos meses sem contacto físico, um telefonema aqui, uma carta acolá.

Hoje não. Consigo descobrir gente esquecida por mim até há um clique atrás. Deixo uma frase oca aqui e ali. Falta-me o contacto, o tempo, o falar, o ver.

Ensurdecido pelo som que saía dos phones, ia andando pelos corredores da faculdade.
De repente, viu um sorriso. Sorriso maior que o dia, natural, não forçado, silencioso. Um sorriso que iluminou a cara a que pertencia, tornando a criatura de Deus mais bela do que a julgava poder ser.
pumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpumpum
Podia ser o som do coração, podia, mas não era. Nestas alturas um narrador tem dificuldades em explicitar da forma mais correcta aquilo que quer transmitir.

O som que saía do Leitor de MP3 era o menos adequado a esta situação, certamente que nunca seria utilizado numa cena de amor à primeira vista, se é que é disso que se trata aqui.
O pum pum pum era uma faixa de death metal, pesadíssima, com sons gutorais em quase cada segundo quadrado, uns riffs brutais e quem ouvia isto era um jovem de camisa ao quadrados, calças de bombazina, sapatos de vela e, no momento, de ar atarantado e fixo. Fixo nela.
Ora, como todos sabemos se fixamos o olhar em alguém há um 7º ou 10º sentido que faz com que a pessoa volte, por sua vez, o seu olhar em nós. Foi isso que aconteceu.

O ar atarantado deu a sua vez a uma postura nervosa, a um não saber o que faço, desvio ou não o olhar, sorrio, desmaio – a uma atitude estranhamente normal, que é definida por não se sabe bem o quê.
Ela continuou a sorrir, enquanto olhava para ele, ele olhava não para ela, mas para o sorriso. Os seus lábios conseguiram, na melhor das hipóteses, dependerá aqui sempre do observador, um esgar estranho, entre o sorriso tímido e uma expressão de surpresa.
Avançou até ela,
Olá, Leonor.
Oi, João. Tudo bem?
Esta troca de comunicação entediante e comezinha continuou durante mais alguns momentos. Ele ia ter uma opção, era optara por outra cadeira.

Sentado na sala, sem ouvir uma única sílaba debitada pelo professor, João pensa em Leonor. Há dois anos que a conhece, falam aqui e acolá, sem grandes intimidades. João pensa no sorriso de Leonor e no que ele despertou em si.
Pensa nos dentes brancos, na beleza alegre que pela primeira vez deslumbrou na colega. Como começa o enamoramento?
Por vezes com sons gutorais.
Paradoxalmente, quando os enamoramentos terminam outros sons gutorais soam.