Captain America 2 : The Winter Soldier

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Ou muito me engano ou a introdução vai ser maior do que o texto sobre o filme, ficam avisados…

Tenho uma relação ambígua com adaptações, neste caso, de bandas desenhadas ao cinema, desde que me conheço que coleciono comics, sinto que as adaptações ficam quase sempre aquém, as escolhas (alterações de personagens, guarda-roupa, finais, etc) nem sempre fazem sentido e a liberdade artística numa folha de papel tem consequências enormes para a imagem ou budget de um filme, o que se traduz normalmente em diversos constrangimentos (nomeadamente, ao nível do argumento ou do guarda-roupa). 

A  ideia de construir um universo cinematográfico com base em personagens chave foi um risco bem calculado por parte dos Marvel Studios, a primeira fase consistiu em 6 filmes (Iron Man, The Incredible Hulk, Iron Man 2; Thor e Captain America: The First Avenger), que culminou em The Avengers, um dos filmes mais lucrativos de sempre.

A grande dificuldade por vezes é encarar o filme como outro media, e não estar constantemente à procura de referências, de oportunidades para criticar o fato de determinada personagem. Confesso-me desde já, The Avengers foi o meu guilty pleasure do ano passado, não é um grande filme, mas é grande entretenimento. Pessoalmente, os Iron Men pouco ou nada me dizem, talvez por nunca ter gostado muito da personagem, tirando o que Bob Layton e David Michelinie fizeram com Tony Stark na década de oitenta, nos comics; o Thor pareceu-me interessante, mas passou-me um pouco ao lado, ainda não vi o segundo filme, e penso que o primeiro é sempre o mais complicado, é tarefa ingrata tentar apresentar a personagem para um público mais vasto do que somente o seguidor de banda desenhada; o primeiro Captain America foi, surpreendentemente para mim, o meu favorito desta primeira onda de filmes. Vi o The Incredible Hulk mas sinceramente não me lembro de grande coisa.

Steve Rogers, o Capitão América, é uma personagem idealista, um peregrino em terra estranha (um homem da década de 40 no século XXI), um devoto à causa e valores americanos. Normalmente, é esta exaltação americana que me impede de relacionar totalmente com a personagem – os comics tendiam muitas das vezes a serem sermões das virtudes e espírito americanos. No entanto, o primeiro filme era uma homenagem não só à banda desenhada original, como ao espírito dessa mesma banda desenhada, dando-nos a origem da personagem, a sua utilização na propaganda de guerra é mostrada de forma cínica e em oposição à personalidade de Rogers e a participação na guerra propriamente dita é fruto dessa herança dos comics casada de forma agradável e espetacular com os efeitos especiais. De entre todos os filmes dessa primeira fase, é facilmente o filme mais divertido, simples e despretensioso, o mais direto, talvez por isso me tenha agradado tanto.

A segunda fase vai a meio, Iron Man 3, Thor: The Dark World, Captain America 2: The Winter Soldier já estrearam, faltam somente dois filmes, Guardians of Galaxy e o regresso do grupo de heróis mais conhecido da Marvel em The Avengers 2: Age of Ultron. De referir que a par do universo  cinematográfico, a Marvel Studios está já presente na televisão, com Agents of S.H.I.E.L.D. (fraquinha e penosa, na minha modesta opinião) e parece querer apostar em Agent Carter (o love interest de Steve Rogers no primeiro Captain America), sem esquecer o acordo firmado com a NetFlix, quatro séries de 13 episódios (Daredevil, Jessica Jones, Iron Fist and Luke Cage) e uma mini-série que juntará estas quatro personagens (The Defenders).

O tempo dirá se a Marvel não estará a colocar demasiados ovos no cesto, se o interesse do público não esfriará perante tanta oferta e se algumas apostas (Agents of SHIELD) não são contraproducentes.

Ontem fui ver o segundo Captain America (não, não vi nem Iron Man 3, nem Thor:The Dark World), e este não podia ser mais distinto que o anterior. Se o primeiro filme funcionava como uma homenagem ao espírito das histórias criadas por Joe Simon e Jack Kirby, este segundo filme expira Ed Brubaker em todos os seus poros. O primeiro era retro, simples,  não intrusivo, divertido e até pateta,  este segundo continua a ter humor, mas é mais negro, a violência parece ser mais crua, mais realista, menos encenada, alguns dos problemas atuais estão presentes.  Os realizadores deste último filme quiseram fazer uma obra que fosse inspirada by 1970s thrillers, and working with Redford — who featured in ’70s classics like Three Days of the Condor . 

O filme essencialmente anda à volta de um ataque à Shield, com The Winter Soldier a liderá-lo, sendo que a equipa de heróis no ativo é composta por Capitão América, Viúva Negra e Falcão. O filme tem algumas surpresas, nomeadamente a alteração de alguns status quo que deverão influenciar o futuro deste universo. Como já escrevi, continua a haver humor, as cenas de luta são mais estilizadas, mais rápidas, mais imprevisíveis, pela primeira vez existe uma sensação de fraqueza/perigo para as personagens. O filme, ainda que use  efeitos especiais, parece fazer com que os espectadores os ignorem mais do que em outros filmes da Marvel. As cenas de perseguição automóvel, a presença e utilização do escudo parecem mais orgânicas e menos cinematográficas (menos festivas) do que no primeiro filme.Na primeira fase, a ligação entre os diversos filmes é por vezes ténue, mas normalmente é feita pela Shield, uma aparição aqui ou acolá, muita das vezes depois dos créditos finais (Fury no final de Iron Man; Coulson no final de Iron Man 2 e afins). Com o sucesso de The Avengers, as ligações tornam-se mais objetivas, e a presença central da Shield como agregador do universo é feito de uma forma natural e lógica.

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A grande diferença deste filme para os outros, pelo menos aqueles que vi, é a forma como consegue ressoar a realidade atual – as fugas de informação (Snowden?), a vigilância constante por parte do Estado (EUA e os recentes casos diplomáticos ou os drones na ordem do dia) – envolvendo estas questões no universo da Marvel. As questões éticas e a forma como Steve Rogers as vê, nascido e criado nos anos 40, tornam o filme extremamente interessante. As lutas de poder, as black ops, o poder e domínio da informação, as organizações terroristas são questões levantadas ao longo do filme, que se torna num thriller de conspiração ao estilo dos anos 70, sim, mas que resume muitas das histórias contadas nos últimos 10 anos nos comics, piscando o olho ao contexto em que vivemos.

O elenco, como no primeiro filme, volta a ser forte, Samuel L. Jackson (Nick Fury), Scarlett Johansson (Viúva Negra), Hayley Atwell (Peggy Carter) e Cobie Smulders (Maria Hill) envolvem-se em mais um capítulo da saga da Marvel; mas Robert Redford (Alexander Pierce) e Howard Mackie (Sam Wilson/Falcão) são duas novas personagens, esta última uma personagem que conheceu maior sucesso na década de 70, nas páginas a quadradinhos.

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O filme falha um pouco naquilo que é mais característico nos filmes dos Marvel Studios, há piscares de olhos a outras personagens que poderão aparecer mais para a frente, Stan Lee faz o cameo do costume, Agente 13 aparece mais como promessa futura do que como personagem concreta. O título poderia até ter sido outro, a personagem de The Winter Soldier ainda que central e importante na mitologia de Steve Rogers deverá despontar com maiores cuidados na próxima  sequela. Quem conhece a história da personagem sabe da sua importância no universo do Capitão América, aqui divide-se a sua participação entre o papel de vilão e esse outro papel que fica guardado para o 3º filme, a sua definição foge um pouco das temáticas deste filme e acaba por ser mais uma pista para o futuro do franchise, mas diminui a unidade temática do filme, em certo sentido. Mais do que um stand-alone que é, o filme marca então a passagem de testemunho para Avengers 2 e para Captain America 3, o que pode irritar algumas pessoas, mas que é também uma marca do sucesso dos filmes e uma obrigatoriedade pelo menos enquanto os filmes forem vistos.

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Captain America 2 é uma produção segura, um filme de ação interessante, que vive da boa química entre as personagens, que pretende demonstrar a evolução do universo (cinematográfico e televisivo) e que parece conseguir fazê-lo, mas essencialmente prova que a mudança pode ser uma boa coisa, não existem grandes semelhanças entre os dois primeiros filmes de Captain America, o que é bom é que cada um funciona bem à sua maneira, a ver se a fórmula é para seguir na 3ª fase.

Uma última nota só para enaltecer a qualidade do genérico final, muito bom!

 

 

 

 

 

Da BD – Skrulls on my head

Os Skrulls andam infiltrados no Universo Marvel!

A imagem leva-nos para o grande acontecimento dos próximos meses, quem será um agente infiltrado?
Eu acho que é o Quesada. Com sorte, é o Mephisto, e o que fez a Peter Parker é um golpe extra-terrestre.
A ver vamos…
Sinceramente i dont care.

Spider-man 3

Nas críticas de cinema do Sol leio sobre Homem-Aranha 3: “Tendo em conta que à terceira aventura se esperava a morte do herói…”, pergunto quem esperava?
Quem escreve olha para a obra (menor, na sua opinião) sem ter em conta a herança dos comics.
Matar o Homem-Aranha em cinema seria afrontar os verdadeiros fãs da personagem e poderia ter resultados catastróficos.
Esquecem-se de que os filmes são alimentados por uma enorme falange de fãs, actuais e passados, que (con)viveram (fugaz ou largamente) com a personagem nos quadradinhos.
Os filmes têm então como objectivo chamar os fãs, mas também criar novos fãs.
Há aqui uma duplicidade, tenta-se que os fãs vão ao cinema, e que o inverso aconteça. O regresso de Venom, de Sandman e do fato negro nos comics (nos meses passados, actuais ou futuros) mostram a necessidade de publicitar o filme. E espera-se que aqueles que nunca leram ou já não lêem comics regressem através do cinema, chamando momentaneamente os vilões e o fato às páginas desenhadas para que estes não se sintam tão perdidos.
Matar o Homem-Aranha? Em condições especiais e únicas. Ninguém duvida que Steve Rogers volte, mas ninguém se preocupa tanto com o Capitão América como com Peter Parker. Em cinema não se mata a galinha dos ovos de ouro, pelo menos definitivamente, veja-se o regresso de Geofrey Rush em Piratas das Caraíbas.
Colocar a hipótese da morte do aracnídeo mostra o desconhecimento da história da banda desenhada e um desconhecimento total das regras do actual cinema e dos comics to film.
Resumindo, Spider Man não é Sin City.
E em segundo lugar, pode-se não gostar destes novos blockbusters, gostaríamos de voltar ao cinam com anti-heróis, mas o cinema com super-heróis está para durar. Pena que achemos que todo o cinema tem de ser com letra grande, e não consigamos imaginar um filme com super-heróis com Cinema.
Escrevo este post antes de ver o filme, acho a primeira sequela superior a muitos Filmes que há por aí. Depois, o objectivo primordial do filme (fazer dinheiro) foi conseguido, 148 milhões de dólares no primeiro fim de semana, o melhor fim de semana de sempre para um filme, vamos a ver como se sai o terceiro Piratas. Ainda faltam 350 milhões para perfazer o valor de 500 milhões de dólares, o custo da terceira aventura de Peter Parker.

Os filmes baseados em comic books tem dado alguns milhões (uns mais do que outros) à indústria cinematográfica.

Os fãs têm tido alguns dissabores (Elektra, Daredevil, Ghost Rider, entre outros), mas têm salivado perante outros (Homem Aranha, X-Men, Hellboy e Constantine).

Um dos próximos a saltar para o grande ecrã é (o agora odiado, por causa de Civil War e da morte de Capitão América) Iron Man. Em princípio, o fato será assim.

Doomsday

Dediquemos o dia de hoje à BD, não esquecendo de parabenizar (adoro a palavra) o Milan pelo excelente jogo de ontem. Soube-me a pouco:p

A DC Comics prepara-se para lançar alguns filmes, directamente em DVD, de animação com algumas das histórias mais badaladas de sempre.
O primeiro é a morte do Super-Homem. O Site encontra-se aqui.

Civil War 7

Civil War foi o mega-evento da Marvel em 2006, e terminou esta semana.
Ainda que tenha sido extremamente badalado, elevado aos mais altos píncaros penso que a mega saga (de que ninguém fala) escrita por Keith Giffen, Anihilation é bastante superior no que diz respeito à qualidade e ao resultado final.
Civil War tratou essencialmente da necessidade dos super-heróis se registrarem para evitar desastres e perdas de vidas humanas como o episódio que abriu a saga. Assim, de um lado tínhamos os pró-registo e do outro os que estavam contra e por isso foram, são e serão perseguidos como foras da lei. De um lado, o Homem de Ferro, do outro o Capitão América.
Ainda que a série tenha sido interessante, os dois lados não foram descritos da mesma maneira, e o lado pró acabou por ser descrito como os maus da fita, até porque o Homem de Ferro tomou algumas atitudes (o tipo até contratou um vilão num dos números de Spider-Man) menos “boas”.
Mas nem é isto que me causa mais problemas, o que me irrita é a forma como a saga foi terminada, de uma forma, para mim, muito brusca e com o Capitão América a tomar uma atitude que ou peca por tardia ou é somente uma forma estúpida de terminar algo. Para mim foi as duas coisas, o tipo já tem mais de 70 anos e está lento, demorou imenso tempo a pensar na sua própria posição e o final é claramente anti-clímax (mesmo com todas as cenas de luta) e muito pouco satisfatório.
Resumindo, DC rocks!

Quanto a estabelecer uma hierarquia entre as diversas formas de expressão artística, isso parece-me impossível. Assim, aqueles que dizem que a banda desenhada é um género intrinsecamente inferior ao romance avaliam a banda desenhada aplicando os critérios do romance, e nesse caso é evidente que não se pode senão cheagar à conclusão que a banda desenhada é subliteratura. Mas essa gente esquece-se – ou não sabe – que a banda desenhada tem o seu próprio código, e que é apenas situando-se no interior desse código que se pode apreciá-la. Alguns pensam mesmo que, de qualquer modo, a banda desenhada não pode ser uma arte. Uma vez mais, é porque a conhecem mal e porque nunca viram, por exemplo, Little Nemo in Slumberland de Winsor McCay.
Essas reacções negativas vêm geralmente de mandarins da cultura de tipo universitário e nada têm de surpreendente, pois a cultura oficial é por natureza conservadora, e desde sempre desconfiou dos novos modos de expressão artística. no século XVIII desprezava os romances, e levou algum tempo a compreender que o cinema não é um subteatro. Acabará por se aperceber que a banda desenhada também pode, por vezes, ser uma arte. Esperemos que nãoponha então a banda desenhada sob sua tutela, erigindo-se em árbitro da sua estética e atribuindo-se o monopólio da exegese, o que teria como consequência fazer passar a banda desenhada de um gueto cultural para outro.
Hugo Pratt, o Desejo de ser Inútil, Relógio D`Água (pág.203 )

Obviamente, a maior parte dad bandas desenhadas que surgem não são extraordinárias, mas é assim em tudo: em cem romances ou cem filmes escolhidos ao acaso, também não se encontrarão muitas obras-primas.
Um criador de banda-desenhada pode ser bom ou ser mau, mas de qualquer modo o seu trabalho parece-me comparável ao de um romancista: na banda desenhada também se trata fundamentalmente, de contar uma história, isto é, muitas vezes, de saber dominar o tempo, cada quadradinho pode ser uma sequência. São os códigod utilizados que diferem. Parece-me evidente que a banda desenhada é um modo particular de literatura. Se eu tivesse que definir a minha actividade, diria que sou um escritor que desenha e um desenhador que escreve, mesmo que o texto em si seja apenas constituído pelo diálogo indispensável. Tal é o enigma que se apresenta aos que não compreendem a banda desenhada. Na minha cabeça, o texto e a imagem caminham sempre a par. O poeta grego Alceu disse mais ou menos isto, a propósito de uma concha: «Filha da pedra e da espuma do mar, com a tua beleza influencias o espírito de uma criança.» Está lá tudo, não se pode contar melhor o que uma concha pode inspirar. Para mim, hoje, o grafismo parte da necessidade de um traço para chegar ao imperativo da palavra. Assim nasce a banda desenhada.

Hugo Pratt, O desejo de ser Inútil, Relógio D`Água (Pág.216)