Número Zero de Umberto Eco

Número Zero é o novo romance de Umberto Eco, a ação passa-se em 1992, na redação de um jornal criado para difamar, afastar as atenções, enterrar a notícia no meio de outras, criar um ambiente propício para que o leitor se perca e perca o importante.

“Certo. Os jornais ensinam às pessoas como devem pensar”, interrompera Simei.

“Mas os jornais seguem as tendências das pessoas ou criam-nas?”

“Ambas as coisas, menina Fresia. As pessoas, de início, não sabem que tendências têm, depois, nós dizemos-lhas e elas apercebem-se de que as tinham. (…)”  P.78

“A questão é que os jornais não são feitos para difundir, mas para encobrir as notícias. Acontece o facto X, não podes deixar de falar dele, mas embaraça demasiada gente, e então, nesse mesmo número, metes grandes títulos de fazer eriçar os cabelos, mãe degola os quatro filhos, talvez as nossas poupanças acabem reduzidas a cinzas, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio, e por aí fora, a tua notícia afunda-se no grande mar da informação.”  P.128

A narrativa é então ambientada na redação de um jornal criado para difamar, desinformar e apoiar o seu dono.O título remete para os números zero que o editor quer publicar, e muitas das páginas são exercícios estapafúrdios inseridos na missão pouco ética do jornal. O livro parece, então, um manual de mau jornalismo.

O meu conhecimento de história italiana baseia-se maioritariamente em alguns filmes e séries de televisão, sei vagamente o que foram as Brigadas Vermelhas, tenho conhecimento da alta instabilidade da economia italiana e do papel da máfia e crime organizado. Resumindo, pouco sei sobre a história recente italiana, e digo recente, porque Eco discute a história de Itália desde o fascismo até aos dias de hoje. É um emaranhado de dados factuais e hipóteses mais ou menos fantasiosas, que Eco combina de forma a dificultar o discernimento do leitor.

Número Zero termina com um exemplo de bom jornalismo que tende a perder-se quando já ninguém consegue distinguir o bom do mau jornalismo.

E vais ter com quem?”, perguntou-me. “Primeiro, não te arruínes por minha causa, segundo, aonde vais contar este assunto quando os jornais, percebo-o pouco, são todos feitos da mesma massa? Protegem-se uns aos outros…” p.123

Na minha opinião não é um grande romance de Eco, ainda que tenha todas as características da sua escrita, muitas citações e alusões, clássicas e da cultura popular, por exemplo. Podia ser um ensaio, e os dados estão lá todos, enquanto romance perde para com outros de maior fôlego do autor, no entanto deixa-nos a pensar sobre o jornalismo factual e isento dos dias de hoje.