Eles andam aí!

Canais há muitos, palerma.

Efetivamente! Não é minha vontade dissertar sobre canais, mas por vezes sinto que a oferta que temos é falsa, quantos canais vemos na realidade? Quanta da programação oferecida nos interessa verdadeiramente? Não há outros canais com alguma qualidade?

Gostava de pensar um pouco não num canal generalista, mas em canais específicos, com uma temática/”missão”/objetivos específicos. Provavelmente, o canal que melhor ilustra o que quero dizer é o MTV, canal marcante nos anos oitenta e que hoje é tudo menos Music Television. Esta mudança tem acontecido, não acredito que seja por luta de audiências, pelo menos no nosso contexto, mas faz-me confusão ver um canal História com programação pouco “histórica” (O Preço da História?!, Loucos por Carros?!). Acredito que haja um espaço para programas como os anteriormente referidos, mas a ideia de criar um canal com determinada linha e/ou programação parece ter dado lugar ao entretenimento fácil e barato. Obviamente que o canal História seria sempre um canal de nicho, este nicho deixou de ser válido? Teremos de deitar fora o caráter educativo e científico de alguns canais/programas em troca do entretenimento?

Quem fala do canal História fala do Discovery, não quero escalpelizar nem discutir a programação destes dois canais, mas quero criticar o Discovery em particular.

Atenção, nada tenho contra o entretenimento, penso mesmo que aprendemos melhor quando nos divertimos, mas não aprendemos se estivermos preocupados somente com o entretenimento.

O meu animal favorito é o tubarão, ainda não perdi a esperança de um dia nadar, nem que seja dentro de uma jaula, com alguns deles. O interesse pelo tubarão leva-me a ler e ver documentários educativos, sérios, científicos e por outro lado a ver e ler produtos de entretenimento, bons e clássicos como o JAWS do Spielberg ou coisas mais fraquinhas como Tubarão em Veneza ou Sharknado; de qualquer forma a escolha é minha e sei ao que vou.

Um dos momentos altos do ano no que diz respeito a tubarões é a semana do Tubarão, do Discovery Channel, este ano foi um mês, com imensos documentários, alguns novos, ainda a cheirar a celofane, ou repetidos e vistos pela 3ª ou 4ª vez.

O ano passado emitiram um falso documentário, acerca do Megalodon, que deu que falar, menos pelo conteúdo, antes por ter sido emitido como verdadeiro, somente no final é que explicavam que o mesmo era uma obra de ficção. Antes de o ver já sabia do que se tratava, confesso que até achei piada à mistura de dados científicos e parvalheira, o Meg é uma paixão minha e estou há mais de quinze anos à espera que transformem o livro de Steve Alten em filme. Aliás, o ano passado foi pródigo em mockumentaries, com outro falso documentário sobre sereias, com efeitos especiais tenebrosos a la Sharknado, algo que o Agente Mulder veria satisfeito, já que a meias com as sereias havia uma enorme teoria da conspiração.

E é aqui que divido as águas, quando um canal ou produtora de documentários decide dar uma de Sci-Fi dos documentários a coisa pode não correr bem e começa por correr pior quando se emite um programa destes sem avisar inicialmente de que se trata de uma obra de ficção.

Este ano, durante o tal mês do tubarão, no meio de tantos documentários, que já usam as diversas técnicas  (de realização, escrita e pós-produção) dos programas de entretenimento mais rascos, vi um documentário (Shark of Darkness: Wrath of Submarine) sobre um ataque de tubarões na África do Sul, após um naufrágio. Achei estranho não ter lido ou visto nada sobre o caso, mas avancei. A determinada altura, o documentário  parece transformar-se numa espécie de Mentes Criminosas do mundo animal e somos apresentados a um tubarão de pelo menos 6 metros que aterroriza as águas sul africanas há 3 anos. A meio do documentário, percebendo que estou a ver um mau filme com tubarões, mascarado de documentário, vou ao google e pesquiso.

Sim, era mais um dos falsos documentários que parece estar na moda; sim, era mau e inverosímil, nomeadamente a partir de menos de metade; sim,os efeitos especiais e os atores são piores do que os de um filme de série z; sim, já estava preparado para identificar um documentário destes; mas há algo que me choca e confunde, eu até consigo perceber que um canal ou produtora que produzam documentários sobre tubarões apostem nuns documentários falsos sabendo que vão ter audiência, nos EUA foi o programa mais visto da Shark Week dos últimos anos; o que tenho maior dificuldade em processar é que um canal que dedica uma semana por ano a um animal, que realça que a maior parte dos ataques são causados pela presença do homem no habitat do tubarão, mais do que por este ser uma máquina assassina voraz, produza e emita um programa em que o tubarão é apresentado de forma negativa, como um stalker sádico que está à espreita e apresente tudo isto num pacote de histerismo e guerra pela sobrevivência.

É de supor que teria tido algum gozo a ver Wrath of Submarine se soubesse do que realmente se tratava, se me tivessem dado a escolher o entretenimento pelo entretenimento,  mas senti-me enganado a ver algo que poderia ter saído da cabeça de um dos habitantes de Amity Island ser apresentado como real.

Enquanto encararmos a natureza, a história, a educação no geral, como algo entediante, enquanto fizermos concessões à verdade tornando-a mais apetitosa para o espírito da época nunca chegaremos a lado nenhum enquanto sociedade, trocamos o conhecimento pela futilidade, e tornamos verdadeira a frase de que o meio é a mensagem!

Uma Jornada na Graça

Uma Jornada na Graça, de Richard Belcher é uma novela teológica, editada pela Editora Fiel e que devia estar cá em casa há mais de uma dezena de anos, li-a hoje, de uma penada.

Entendamo-nos, como obra de ficção é fraca, a narrativa é relativamente simples, as personagens são tipológicas e por isso redundam muitas vezes em clichés, mas a ficção é somente um pretexto para discutir o calvinismo.

Ira é um seminarista batista que tenta descobrir, e acaba por se interessar , o que é o calvinismo e se este pode ser defendido biblicamente. Ao longo das páginas, conhecemos alguns colegas de seminário ainda não convertidos, professores que o ajudam ou dificultam na sua tentativa de confirmar a lógica bíblica do calvinismo, a namorada que será a sua esposa, as agruras e alegrias do ministério, os desafios da fé e a defesa do calvinismo, nomeadamente dos cinco pontos, um pouco da história batista.

Como já o referi, o interesse de Uma Jornada na Graça não é a narrativa, previsível e simplista, a maior parte dos capítulos do livro de Richard Belcher é ocupada com a apresentação e defesa dos cinco pontos do calvinismo. No entanto, o mais interessante é perceber que apesar da narrativa não ser de primeira água, é esse aspeto ficional que abre os horizontes do livro e permite não só transmitir, discutir e defender as doutrinas da graça, mas levantar algumas questões laterais de forma natural e “vivida” – o hiper calvinismo, a diferença entre igreja visível e invisível, o ataque intransigente e pouco racional às doutrinas da graça, o papel da oração e santificação – deixando espaço para o leitor pensar em algumas destas questões, até comparando com a sua experiência.

Talvez seja o lado leve e despretensioso da narrativa que eleva a capacidade de argumentação e defesa do autor, o que em si mesmo, e pelo que tenho escrito atrás, é um paradoxo. O cerne do livro é teologia pura e dura e pouco dado a romances, mas foi essa  convivência estranha que  aumentou o meu interesse. Nada do que Belcher diz ou defende, nada na sua exegese, é realmente novo para mim, mas o formato acabou por me permitir reciclar e renovar algumas ideias de forma rápida e natural.