Crazy Busy de Kevin DeYoung

Decidi comprar Crazy Busy num período mais calmo da minha vida profissional, provavelmente há dois anos o livro teria arranhado mais profundamente. Estou a duas semanas de ficar desempregado, no entanto, este pequeno livro ajudou-me a pensar na forma como trabalhei e encarei o trabalho nos últimos oito anos e, por outro lado, como vou redefinir as minhas prioridades e tarefas nos próximos meses.
Facilmente somos toldados pela quantidade de coisas que temos para fazer, muitas das vezes somos dominados pelas tarefas a cumprir e as nossas ocupações tornam-se o objeto da nossa vida, qualquer que elas sejam – não falamos aqui necessariamente de trabalho.
O livro é dirigido a pessoas ocupadas, pessoas que estão ocupadas aqui e acolá (I Reis 20:40) e correm o risco de desaparecer espiritualmente. No segundo capítulo, DeYoung identifica três perigos que uma vida ocupada pode trazer, pode arruinar a nossa alegria, a alegria deve ser a marca de um cristão; pode roubar os nossos corações, o cuidado com as coisas do mundo e o desejo por outras coisas que não as do Reino de Deus e, por último, pode esconder o estado lastimoso da nossa alma/vida espiritual.

Nos sete capítulos seguintes, DeYoung leva a cabo diversos diagnósticos, que de uma forma ou outra mostram como as diversas áreas da nossa vida podem ser desgastadas pelas ocupações, mas também como a nossa vida espiritual é mascarada e escondida pela forma como nos ocupamos sempre com qualquer coisa.
Os sete diagnósticos são, no original, 1. You are beset with many manifestations of pride; 2. You are trying to do what God does not expect you to do; 3. You can´t serve others without setting priorities; 4. You need to stop freaking out about your kids; 5. You are letting the screen strangle your soul; 6. You´d better rest yourself before you wreck yourself; 7.You suffer more because you don´t expect to suffer at all.

O primeiro diagnóstico tem a ver com o facto de sermos criaturas pecaminosas e mais especificamente com o nosso orgulho, este capítulo parece-me essencial para qualquer cristão consciente da sua natureza; Deyoung diz que muito do que fazemos e muito daquilo com que nos ocupamos é uma forma dos outros olharem para nós, uma maneira de nos fazermos visíveis aos olhos dos outros e de esperarmos bajulação/agradecimento pelos nossos esforços, uma das verdades elencadas neste capítulo que mais mexeu comigo foi a noção, que muitas vezes temos, de que somos a única pessoa que pode fazer determinada tarefa (“But the truth is, you´re only indispensable until you say no. You are unique. Your gifts are important. People love you. But you´re not irreplaceable.”), há outras formas de orgulho presentes na forma como agimos, como fazemos as coisas, no final o resumo é concreto e objetivo, para quem fazemos as coisas? A quem é devida a honra por aquilo que fazemos? (“Am i trying to do good or to make myself look good?”, “Ask yourself: am I serving me or serving them?”, “Feed people, not your pride”).
De seguida, o autor mostra que não conseguimos fazer tudo, nem tudo o que nos aparece à frente. Aqui, somos relembrados de que não somos Cristo, não podemos acudir a todas as situações, nem o próprio Salvador o fez; cuidar das pessoas nem sempre é sinónimo de fazer algo por elas; por vezes, a nossa preocupação não tem obrigatoriamente de ter uma face ATIVA na erradicação ou solução desse problema; os nossos dons e talentos são distintos, por isso é possível que sejamos chamados a fazer algumas coisas e não outras; o autor convida-nos a pensar na natureza e missão da Igreja e pensar no que temos feito nela, por ela e para ela (em última instância para Deus), terminando na importância da oração. Resumindo, “It´s a cross that says i´ll do anything to follow Christ, not a cross that says i have to do everything for Jesus.”
Com base no texto de Marcos 1:35-39, DeYoung estabelece o 3º diagnóstico, não podemos servir os outros sem estabelecer prioridades, o ponto é que Jesus percebeu que todas as coisas que fez não foram necessariamente todas as coisas que podia ter feito. Estabelecer prioridades é de algum modo trabalhar arduamente para descansar, ser disciplinado. Para o autor, estabelecer prioridades é necessário para que possamos perceber que não podemos fazer tudo, para servir os outros de forma mais efetiva e deixar que os outros também estabeleçam prioridades.
O 4º diagnóstico tem a ver com os filhos, DeYoung mostra como a família atual é a única que é estabelecida a partir das crianças e diz que a parentalidade é o último bastião do legalismo. “One of the most resiliente and cherished myths of parenting is that parenting creates the child”. “We may not be able to shape our child´s future identity as much as we´d like, but we can profoundly shape their experience of childhood in the present.”
O 5º diagnóstico tem a ver com o tempo que passamos online e a forma como perdemos tempo na internet (seja em pesquisas ou no Facebook) de forma leviana. Ocupamo-nos com coisas sem interesse e achamos que estamos ocupados porque elas nos roubam tempo, tempo necessário e importante para estar com a família, Deus e amigos. Os perigos elencados são o vício com as novas tecnologias, o pecado da acédia, o perigo de nunca estarmos sós e de não estabelecermos relações verdadeiras, quando criamos em nós somente a noção de que as temos.
O penúltimo diagnóstico convida-nos ao descanso antes que implodamos, o autor mostra a importância de um dia de descanso a partir do Sábado judaico e do Domingo Cristão, explica como Deus ao longo de toda a Bíblia mostra a necessidade do descanso, do estabelecimento de ritmos. “It´s hard to trust God, hard to let go, and hard to stop. When thinking about busyness, people talk as if hard work is the problem. But we´re not actually in danger of working too hard. We simply work hard at things in the wrong proportions.” “We all know we need rest from work, but we   don´t realize we have to work hard just to rest.”

Por último, DeYoung diz que sofremos mais porque não esperamos sofrer sequer. Por um lado, explica que o antídoto para a ocupação desmedida é descanso, ritmo, matar o orgulho, aceitar a nossa própria finitude e confiar na providência divina; por outro lado, lembra-nos de que o sofrimento é parte do caminho cristão, Deyoung dá o exemplo de Paulo, que esteve sempre ocupado e muitas das vezes exaurido com a reação de igrejas e irmãos. Sofreu com o seu ministério, mas não encarou esse sofrimento primariamente como uma falha sua, mas como uma consequência da nossa natureza e do plano de Deus.
DeYoung termina o livro estabelecendo “a Martha work ethic in a lazy Mary world”, muitas vezes criticamos Marta, irmã de Lázaro, mas quantas vezes a visão de Marta é a nossa? Devemo-nos lembrar de guardar as coisas boas em primeiro lugar, de praticar o que Maria fez, descansar e aprender aos pés de Jesus.
“If someone recorded your life for a week and then showed it to a group of strangers, what would they guess is the ´good portion´of your life?”
A resposta a esta questão pode ser depressiva, Crazy Busy é um pequeno livro que nos atinge dura mas amorosamente numa área importante das nossas vidas, pelo menos, da minha. Diminuir o ritmo é também mudar o foco, é buscar a santificação pessoal, é crescer no conhecimento da Palavra, na prática da vida cristã e na comunhão com Deus, com a nossa família e os nossos irmãos.

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