Hondo

hondo Hondo é um western de John Farrow, com John Wayne e Geraldine Page, baseado numa short story de um dos mais famosos autores de westerns, Louis L´Amour. As cenas finais foram realizadas por John Ford, ainda que não creditadas, já que a filmagem demorou mais do que o previsto e Farrow teve de abandonar o filme para ir realizar outro já contratado!

Nos anos cinquenta, o western passou por algumas modificações, nomeadamente pela realização de filmes dirigidos a um público mais adulto, o filme encaixa-se nesta tentativa de amadurecer o género, esquecendo a velha dinâmica herói-vilão de uma forma simplista, e tentando criar personagens e narrativas moralmente mais cinzentas.

A história transmite esta dinâmica, Wayne é Hondo Lane, um batedor da cavalaria americana, que encontra uma mulher, Angie Lowe, que vive sozinha com o filho, Johnny, em território apache. O marido desapareceu, presumivelmente morto, mas os apaches sempre os deixaram em paz e, a meio do filme, o chefe apache, Vittorio, estabelece uma trégua definitiva com ela, por admirar a personalidade do filho, estabelece, no entanto, que ou o marido volta ou ela tem de casar com um guerreiro apache.

Hondo acaba por matar o marido de Angie, sem o saber e quando se apercebe de tal coisa já está a viver com Angie, que para o defender da morte disse a Vittorio que este era o seu esposo. O filme acabará com a decisão de Hondo em revelar a verdade a Angie e ao seu filho,  e com uma luta entre Cavalaria e apaches (duh!).

Se Wayne é perfeito neste papel, um cowboy duro, solitário e dividido entre dois mundos, Geraldine Page é uma autêntica surpresa, pelo menos para mim, que a desconhecia. É impossível ver o filme e não perceber que a interpretação de Page é segura, distinta. É uma atriz de outro calibre, veio do teatro e isso percebe-se. Não o consigo explicar melhor do que isto, vejam o filme, Page foi nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária, mas perderia para Donna Reed, pela interpretação desta em From Here to Eternity (Até à eternidade).

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Uma das razões para o atraso nas filmagens, e uma das características mais interessantes presente no filme, é a filmagem em 3D, na época utilizada em Hollywood. Farrow teve imensas dificuldades com a utilização das câmaras específicas no deserto (entre avarias, peso e dificuldades de locomoção das mesmas), mas teve a inteligência de não abusar  delas, ao ver o filme percebe-se que algumas cenas de luta/batalha final (facas, lanças e setas atiradas à câmara) usam este artifício, mas li que o 3D foi usado nas paisagens panorâmicas e nas silhuetas das personagens. O filme só ganha com esta opção e distingue-se da maior parte dos filmes que utilizaram essa tecnologia pelo uso assertivo que faz dela.

Hondo é, então, uma personagem dividida entre dois mundos, viveu entre os apaches, teve uma mulher índia que morreu, e vive de acordo com alguns dos conhecimentos e hábitos índios. Consegue ter uma visão total das razões que assistem a qualquer um dos povos (americanos e índios) na guerra, mas respeita os índios, como nenhuma outra personagem, pelo respeito ser fruto da vivência nos dois universos. É acompanhado por um cão, não o alimenta para que este não se habitue a depender dos outros e treinou-o para detetar índios. É um cão selvagem que rosna quando Johnny tenta fazer-lhe festas, o que espelha a condição de Hondo.

Hondo – He doesn´t need anybody, i want him to be that way. It´s a good way.

Mrs. Lowe – Everyone needs someone.

Hondo – Yes, m´am. Most everyone. Too bad, isn´t it?

No início do filme, Hondo dirige-se à quinta de Mrs. Lowe e ali passa algum tempo, enquanto se restabelece, e leva emprestado um cavalo, como o cavalo que tenta domar, também Hondo tem dificuldades em ser domado, mas as cenas iniciais entre Wayne e Page mostram uma química entre os dois, ainda que ensombrada pela figura do marido, ausente, e a decisão de Hondo em dificultar qualquer ligação entre eles.

Women always figure every man who comes along wants them. – é o que lhe responde quando acha que ela está a tornar-se demasiado familiar.

A ligação entre Johnny e Vittorio é uma ligação de sangue, mas antes de o ser é pela admiração que Vittorio sente pela personalidade, braveza e coragem da criança que esta se estabelece. No meio de uma guerra insana, há lugar para uma decisão, estranhada por índios e soldados, proteger e defender uma mulher e uma criança. Não os atacar. Essa admiração leva a que o índio ofereça um dos seus como marido a Lowe, já que uma criança não pode viver sem pai e precisa de um modelo masculino que o ensine a ser um guerreiro.

O diálogo entre Hondo e Lowe, quando esta se apercebe que o marido está morto e pelas mãos de Hondo, é o momento alto do filme, mais ainda quando ele luta por dizer a verdade a Johnny.

Lowe – You think truth is the most importante thing.

Hondo – It´s the measure of a man.

Lowe – Not from a woman. A man can afford to have noble sentiments. But a woman only has the man she marries, that´s the truth. And if he´s no good, that´s still her truth.

O filme é sobre relacionamentos e a noção de verdade, que aqui é escondida por um bem maior, mas é também sobre as diferenças culturais entre dois povos, o valor da palavra e a noção de honra, a guerra final é apoteótica o quanto baste, é outro dos momentos altos do filme, mas para além das guerras e brutalidade (entre)vistas, é com tristeza que Hondo prevê o final da guerra com os apaches.

“É o fim de um bom estilo de vida.”

(7/10)

350 caracteres

Algumas brevíssimas narrativas, escritas para um concurso que tinha como limite a utilização de 350 caracteres.

1. João viu um unicórnio pela primeira vez aos seis anos. Aos dez viu um dragão, aos doze um vampiro e uma banshee. Aos dezasseis anos, quatro parede almofadadas, no sanatório. Quando morreu já não viu as paredes do caixão. A fantasia pode ser ligeiramente aconchegante.

2.O barco afunda-se, batendo nas rochas, uma morte gélida. Luís chora, não pela morte anunciada, mas por desejar ouvir o canto de uma sereia, a visão de um ser mitológico antes do grande desconhecido.

3. Hércules fundou Lisboa. Esta é a mitologia resgatada por Pessoa, uma loucura poética que relembra a imaginação de uma cidade.

4.  Criámos sereias para poetizar a morte, desculpar os erros humanos, sonhar o incógnito, imaginar quimeras marinhas. Criámos sereias porque a imaginação alimenta a modorra dos dias. Experimenta viajar num barco, durante uma semana. Imagina fazê-lo há 2000 anos atrás!

5. João tinha tendências suicidas. Um dia saltou do primeiro andar, a fratura exposta curou-o.

 

The Maltese Falcon

In 1539 the Knight Templars of Malta, paid tribute to Charles V of Spain, by sending him a Golden Falcon encrusted from beak to claw with rarest jewels——but pirates seized the galley carrying this priceless token and the fate of the Maltese Falcon remains a mystery to this day.

The Maltese Falcon (1941) marca a estreia de John Huston na cadeira de realizador e é protagonizado por Humphrey Bogart, Mary Astor, Sydney Greenstreet (que também se estreia no grande ecrã) e Peter Lorre. Foi nomeado para Óscar de melhor filme, melhor ator secundário e melhor argumento adaptado.

Bogart é Sam Spade, o detetive criado por Dashiel Hammet. O filme passa-se em São Francisco e começa com a reunião de dois detetives privados, Sam Spade (Bogart) e Miles Archer, com uma cliente, Ruth Wonderly (Astor), que lhes pede que encontrem a irmã desaparecida. Spade rapidamente se vê a braços com uma situação complicada, já que o colega é morto, a cliente desaparece, dois polícias começam a desconfiar dele como o responsável pela morte do colega, dois novos “clientes” oferecem-lhe dinheiro para encontrar uma estatueta de um pássaro, e os três clientes estão interligados entre si.

Roger Ebert considerou The Maltese Falcon como o primeiro policial negro de história do cinema e o responsável pela génese e desenvolvimento do género cinematograficamente, nomeadamente, na década de 40.

“You´re an amazing character”

Bogart é perfeito como Spade, cínico machista encantador, os diálogos estão cheios de precious, good girl, angel, darling e afins, com olhares lascivos, relações extra-maritais, em que o sentido de humor e a subjetividade matreira são essenciais. Não é à toa que a figura dele enquanto detetive privado e este filme sejam glosados até aos dias de hoje, conhecemos de ginjeira as convenções do género, ainda que a principal delas, a voz of, esteja ausente. Spade veste-se como imaginamos, por causa do cinema, que um detetive privado da década de 40 se vista, fato e casaco, gabardine, gravata e chapéu. O álcool e o tabaco são também presenças contantes no género e aqui não faltam.

O falcão do título pouco interessa na realidade, é um macguffin, um pretexto para que a ação decorra. Ação que se passa em San Francisco, mas tirando o shot inicial pouco mais nos indica a localização, até porque o filme é um pouco “claustrofóbico”, já que mais de 95% das cenas são em estúdio.
“I´m a man who likes to talk to a man who likes to talk!”, parece ser a máxima do filme, daí o pouco recurso a cenas ao ar livre. O filme é marcado pela procura do falcão e pela fuga aos problemas que Spade parece encontrar a cada esquina. A personalidade cínica envolve e esconde a incapacidade de compreender a situação em que se encontra, Spade pode não compreender tudo, mas vai inferindo, sugerindo e tentando descortinar as soluções para o mistério, ainda que a sua personalidade se mostre superior à sua incapacidade momentânea.
Se Bogart me convence, Mary Astor fica um pouco aquém no papel de femme fatale, fisicamente não me convence e a química entre os dois parece-me um embuste. Peter Lorre, como sempre, é perfeito num papel viperino, serpenteante e cobarde, não resisto a referir as diferenças tonais entre a sua voz e a de Bogart, principalmente nas cenas em que se “batem” os dois.
A música pareceu-me intrusiva, pouco natural, tanto que a determinada altura irritou-me.
 
“Não tentes perceber-me, tentei uma vez, mas desisti!”
 
Confesso que nunca vira The Maltese Falcon e a minha perceção do mesmo é marcada, por um lado, por um conhecimento alargado da filmografia de Bogart, ele é perfeito neste papel, como o será em The Big Sleep, To Have and Have Not e Casablanca, por exemplo, para dar alguns exemplos mais óbvios, por outro, não consegui descortinar o cinismo e humor dos diálogos como nos filmes já citados. Os diálogos não me parecem tão naturais (e, paradoxalmente, ao mesmo tempo tão artificiais) como nos dois filmes referidos. O que não é tão verdade, quanto isso, per si, os diálogos têm cinismo e humor q.b., mas o que não me passou foi a força e naturalidade, ainda que artificialmente, deles.
 
“Stuff that dreams are made of”
 
A procura do falcão é marcada não tanto pelos sonhos, mas pela cobiça e pelo desejo. No final, Spade dirige-se à femme fatale, afinal envolvida e presa (não, não é um spoiler) e revela-lhe o seu amor, mas também a sua necessidade de a entregar à polícia, se ela quiser, ele esperará por ela, vinte anos que sejam, mas deverá primeiro sofrer a justiça dos seus atos.
Termino por referir a genialidade do trabalho de câmara de Huston, muitas das vezes comparada a Citizen Kane, há aqui, na verdade, uma renovação e inovação no que aos planos dizem respeito, ainda que feitos de uma forma tão natural que parecem usuais, quando são tudo menos isso.
 
Concluindo, The Maltese Falcon não me marcou tanto como esperava, talvez pelos diálogos não serem, para mim, tão naturais/fortes como em outras obras, mas é um mimo, setenta anos depois este filme continua a ser “the stuff that dreams are made of”. Uma série de diálogos cheios de vitalidade, subjetivos e viperinos, uma personagem negra, um anti herói perspicaz, quase amoral, mas com uma moralidade e personalidade próprias.
 
(8/10)

Hansel and Gretel: Witch Hunters

Hansel & Gretel: Witch Hunters revisita a história clássica de Hansel e Gretel, dois irmãos que são abandonados pelo pais e vão dar a uma casa feita de doces, habitada por uma bruxa, o filme começa quando a história que conhecemos termina, os irmãos tornam-se caçadores de bruxas e encontramo-los anos mais tarde na cidade de Ausgburgo, onde são contratados pelo Presidente da Câmara para encontrar algumas crianças desaparecidas e matar a bruxa responsável.

Jeremy Renner e Gemma Arterton são os atores principais, Famke Janssen, a Jean Grey de X-Men, faz de bruxa má e inimiga mor.

Sinceramente, o filme não me convenceu, até porque aquilo que achei mais interessante seja pouco mais do que um adereço, mas já lá vamos.

A escrita é pouco mais do que redundante e adolescente, cheias de clichés e uma tentativa de humor negro, mas devo estar a ficar velho, o que esta geração quer eu dispenso, isto tendo em conta o sucesso do filme e a confirmação do seu final, aparentemente já está a ser produzida uma sequela.

As personagens pouco mais são do que caricaturas e o desenrolar do filme é demasiado óbvio. O filme foi realizado em 3D e percebe-se isso, mesmo quando se assiste à versão 2D. Quem me dera que tivessem dado a mesma atenção ao argumento que deram à coreografia de ação, ainda que, e vale a pena referir, a mesma não seja brilhante.

Sendo um filme de ação, que pisca os olhos aos filmes de terror, já que incorpora alguns dos seus elementos, não se espera que as interpretações sejam de grande calibre, mas a escrita podia ter sido mais inteligente, menos formulaica. O filme integra alguns elementos mais gore, mas tenta abranger um maior número de espectadores, o que quero dizer é que não foram tão longe como poderiam ter ido, ainda que tenham ultrapassado a marca no que a este tipo de filmes (que tenta chegar a um público jovem, mas não só) diz respeito.

No entanto, a violência é gratuita, compare-se com The Walking Dead, que é poderosíssima visualmente, que enoja em determinados segmentos, mas percebe-se que o que vemos não é gratuito, no que à história que se está a contar diz respeito. Aqui não, tudo é em função do espetáculo, e isso foi o que mais me desiludiu. O espetáculo é demasiado gratuito, “pornográfico” no sentido gráfico e não é assim tão bom. A violência é de uma quantidade e qualidade atroz, troquemos as bruxas por seres humanos, eu sei que não é assim que a coisa funciona, se as trocarmos por zombies o argumento perde força, mas troquemo-los e aquilo a que assistimos é doentio. Penso que a diferença tem a ver com a escrita e a inteligência da mesma, já vi filmes violentíssimos, que não me marcaram pela negativa, lembrei-me agora de Inglorious Basterds, que tem cenas violentas, grafica e psicologicamente falando, mas em que o conteúdo de alguma forma defende essa mesma violência. Os produtores citam Sam Raimi como inspiração, nomeadamente Army of Darkness, mas ainda que consiga perceber a tentativa de homenagem, sinceramente a escrita é muito inferior.

Os pontos fortes do filme são a caracterização e o guarda roupa, tendo o filme uma estética muito steampunk, mas também aqui podiam ter ido um pouco mais longe. A caracterização das bruxas é interessante, entre o gótico enquanto humanas e a caracterização dos filmes de terror e banda desenhada. Houve claramente uma preocupação com o design e caracterização, que tornam o filme visualmente interessante, mas que se perde no seu todo. A primeira cena de uma bruxa na vassoura cativou-me, todas as outras pareceram-me redundantes e mais desinteressantes.

Concluindo, let´s go back to classics…

(3/10)