Work in progress

Não sei se sairá alguma coisa daqui, não pego neste texto há uns três meses, neste momento tem cerca de 25 páginas, algumas para apagar (bendita/maldita TIC, que já não me permites rasgar, riscar, emendar tendo acesso ao rasurado/emendado).

Pouco editado, aqui deixo a primeira parte.

Já não se lembra do dia, já o local, a situação e as pessoas presentes estão na sua mente. Preparou o discurso, visitou duas ourivesarias, escolheu o anel que considerou fazer mais o estilo de Beatriz, em ouro, com uma pedra grande, de resto, agiu normalmente e vestiu-se da forma casual como o fazia e faz. Ela não deu por nada, mais um dia, os pais dela estavam presentes, os dele de férias, esperou pelo meio da refeição e deu sinal a alguém que passou a música do namoro, uma pirosice de que nenhum gosta, mas que adotaram por simpatia, era a que passava quando deram o primeiro beijo, depois de uma ida ao cinema, igualmente um filme desastroso, irrisório, que só teve a qualidade de os ter unido. O sinal foi dado, a música começou a tocar, mais uma entre outras, ela ocupada a falar com a irmã, sentada ao lado, não reagiu aos acordes iniciais, ele levantou-se lentamente, puxou a cadeira e ajoelhou-se, ela a dar pelos risos, pelos olhares que lhe eram dirigidos, algumas mãos na boca, de origem feminina, claro, e quando se virou tinha a cara dele quase ao nível da sua, uma caixa na palma da mão, que abriu.
O esperado era ela ter sorrido, ter feito um ar de espanto, gaguejar e dizer que sim, ninguém pensa numa recusa num momento destes, talvez por se pensar que, mais não seja por educação, o outro lado dirá sempre que sim, que é a consumação do adiável, do relacionamento já iniciado, a confirmação do desejo de serem uma só carne, de atarem os trapinhos, que imagem esta, de selarem perante todos o que é patente. João também não pensou, o namoro não foi sempre um mar de rosas, outra imagem que tal! Imaginem um mar de rosas ainda com espinhos, esta será uma imagem mais realista do namoro deles, os feitios por vezes chocavam, ele solitário, fechado no mundo da leitura, dado a cinema alternativo, não comercial, aos clássicos do cinema americano, ela, menina do papá, habituada a ter tudo, sem experiência laboral, bela, bem feita, sempre maquilhada, adepta das noitadas, habituada a não dar satisfações a ninguém. Ele habituado a contar o dinheiro para pagar a casa e as contas, saiu da casa dos pais aos 17 anos, começou a trabalhar nessa idade, mostrou-lhe, muitas vezes, o amor que sentia com ofertas materiais, selando a paixão primeiro, o carinho crescente e o amor que sentia por ela, depois. Por vezes, incapaz de mostrar o amor, comprava-lhe algo, percebeu que ela se sentia amada desta forma, e não pensou duas vezes em adotar este hábito. Nunca pensou como seria a vida deles depois do casamento, a cada dia o seu mal, um problema de cada vez. Achava que já não estava apaixonado, amava-a, isso sim, sentimento, para ele mais alto, mais puro, mais sofredor. Se os dois quisessem, a felicidade seria um patamar atingível.
Nunca pensou, como já foi escrito, que ela poderia dizer que não, que ela poderia resistir ao pedido, que ela poderia não estar interessada em passar o resto da vida, ou algum tempo que fosse, com ele, como esposa. Mas foi o que aconteceu, há dez anos. Felizmente que a internet ainda não fazia parte integrante da nossa vida como o faz hoje, se o fizesse, o mais natural seria estar disponível online alguma imagem, algum excerto do pedido e da recusa, a verdade é que isso não aconteceu, quer por piedade, por generosidade, por decoro, por amizade ou por falta de oportunidade ou lembrança. Ausência que João agradece. Beatriz fez, inconscientemente, um ar de desagrado, altivo e desprezível, no meio do seu espanto, um ar imediato e fugaz, mas uma expressão que João guarda até hoje. O olhar consternado do público, amigos e familiares, ao ouvirem Desculpa, João, mas…, a mente dele pouco guarda do restante, desculpa, mas…
Adversativa incólume no seu sentido, adversativa clara e cruel neste contexto, adversativa que se transforma em aversão posterior a Beatriz, ao amor. A imagem da cara dela, da sua expressão, durante dias e noites, num torpor sentimentalista que o deixou não sabe se vazio, anestesiado ou simplesmente envergonhado pelo papel que interpretou.
João é dogmático, na sua personalidade, nos seus amores, nos seus ódios, nas suas opiniões, por vezes, a racionalidade é ultrapassada pela emoção, pelo sentimento, mas nele há sempre um misto das duas. Nunca atendeu nenhuma das chamadas que Beatriz lhe fez, falaram uma semana depois, porque ela o esperou à porta de casa, ele tentou, mas ela não o deixou entrar sem falar com ela. Ainda assim falaram na soleira da porta, só quando ela saiu, do andar, do prédio, da vida dele, é que João abriu a porta.
Nessa semana, deu a volta ao apartamento, todas as marcas da presença dela, fotografias, roupa, utensílios e objetos que uma namorada deixa em casa do namorado, foram analisados, deitados fora ou encaixotados e enviados por correio para ela, marca indelével da separação, do afastamento gradual, mas final. João retirou e abriu livros que poderiam conter fotografias dela, deles, dedicatórias dela, as fotografias juntou-as, as páginas com dedicatórias rasgou-as, e um ou outro livro que não lhe interessava foi incluído na caixa. Viu todas as fotos, poucas mais do que uma vez, colocou-as num saco e deitou-as no lixo. Às ofertas pesou o gosto, ficou com os cds, dvds, livros e roupa que apreciava, o restante ofereceu, enviou à precedência, deitou fora, desfez-se daquilo. Nem toda a gente agiria da mesma forma, mas João exorcizou a presença de Beatriz da sua vida, nem o número dela, que sabia de cor, se lembrava já um mês após o acontecido. João fê-lo para tentar minimizar as recordações, Beatriz ainda conviveu diariamente dentro de si, nos seus pensamentos, nos seus sonhos, na sua imaginação, mas arredá-la fisicamente minimizou a dor.
O trabalho consumiu-o, ou melhor, consumiu ele o trabalho, nunca se esforçou tanto, nunca se inteirou dos processos e resultados como nos dois anos após o Desculpa, João, mas…
Os livros tomaram o lugar do namoro, os livros, o cinema e quatro ou cinco amigos. O sexo nunca lhe toldou a vida, um relacionamento, que lhe parecia anteriormente necessário e desejável, agora era visto como uma fraqueza, com medo e a medo e decidiu que ficaria como estava, solteiro.
Passou a dedicar mais tempo à família, aprendeu a apreciar ainda mais o caráter trabalhador e honrado dos pais, redescobriu o Alentejo paterno, o Algarve da mãe nunca o seduziu, diz que o Algarve dele é a Costa Vicentina, mas é do interior alentejano que gosta, da pacatez da aldeia do avô, duas ruas, cinco tabernas, montes, casas baixas, pessoas simples, mais preocupadas em dar e conversar do que em receber algo em troca. O Alentejo dos chibos, das galinhas, dos perus, das ovelhas, das vacas, do porco, cortado e fumado para comer ao longo do ano. No entanto, este Alentejo não o queria, não encontrava ali trabalho, abrir uma loja é ideia peregrina e seca à nascença, os sonhos são estéreis, o dinheiro é pouco, viveria de quê?
Um dia, o pai ganha um prémio razoável numa lotaria, na semana seguinte ele ganha outro prémio, juntam o dinheiro e compram um monte, renovam a casa velha de origem, sonham, compram animais, contratam um primo para tomar conta do terreno agrícola, árvores de fruta não são muitas, pelo que plantam mais algumas, oliveiras são duzentas, renovam a casa e constroem mais duas, ligeiramente afastadas da casa principal, uma casa com capacidade para duas famílias, a outra mais pequena, dividida ao meio, dois apartamentos, cada um com dois quartos, uma cozinha e uma sala, apostam no turismo rural. O dinheiro que sobrou está a juros no banco, é um saco de oxigénio caso seja necessário, a terra vai dando o seu fruto, pedindo em troca o seu suor, João vai aprendendo a viver do e no campo.
O primeiro ano não é famoso, mas os que ali passam voltam, o boca a boca faz aumentar o número de clientes, a pesca, a caça, o descanso, os preços não muito altos, a aguardente de um tio, a comida da mãe, as conversas intermináveis, memórias familiares, da vida de outrora, levadas a cabo pelo pai, junto ao calor ardente e vermelho do fogo no inverno, ou sentados cá fora, aspirando por uma brisa ténue no verão, caem no goto dos visitantes, cansados do rebuliço citadino, ignotos da vida no campo. Alguns querem e participam efetivamente na labuta diária, não é raro haver clientes na apanha da azeitona, a dar comida aos animais, principalmente as crianças, que inicialmente parecem temerosas, mas partem a choramingar, já com saudades, típicas das crianças, dos dois rafeiros alentejanos, pelos três ou quatro gatos que cirandam a casa, pelas galinhas, patos, perus e ovelhas.
João sente-se inteiro, contente pela sorte que lhe calhou e que alimentou, sente que o investimento feito foi acertado. Uma vez por semana, às vezes mais, outras vezes menos, depende do trabalho, da disposição, vai a Lisboa, tirou a cidade de dentro dele, mas não o gosto pelos livros, filmes, que por vezes manda vir pelo correio, em inglês ou espanhol, mas sente vontade de passear pelas livrarias e alfarrabistas.
Por vezes traz o suficiente para o acompanhar por uma semana, aproveita os preços em conta, às vezes leva a mãe, o pai, esse, já ninguém tira dali, nunca gostou da cidade, do ritmo, da poluição, dos feitios, das calhandrices, também ele tem o seu dia de folga, quando filho e mãe vão às compras.
O pai nunca puxou o assunto, mas a mãe, direta e indiretamente, pergunta-lhe se não pensa em casar, ter filhos. João sente a ansiedade dela em ser avó, a alegria reprimida de não ter netos em casa. Responde sempre silenciosamente, com um menear de cabeça, às vezes, indicando que não, outras com um quem sabe, não muito convincente, dado com um encolher dos ombros. A aldeia é agora o seu mundo e raparigas com a sua idade contam-se pelos dedos de duas, vá, três mãos. Uma mão para raparigas feias, simpáticas, trabalhadoras, mas feias. Outra mão já é comprometida, espera que não façam desfeitas como a que Beatriz lhe fez, as outras, os estudos as levarão, mas nenhuma cobiça, nenhuma o toca intimamente.
Numa dessas viagens, a mãe começa a falar de Maria, tanta Maria há na aldeia, rapariga bonita, alourada, de lábios finos e olhos negros. João percebe a deixa, mas não pega nela, muda de assunto. Já mirou a moça algumas vezes, o monte é também local de encontro de familiares e conhecidos dos pais, por vezes, à falta de clientela, juntam-se alguns em almoçaradas ou jantaradas, tocando a concertina e cantando modas alentejanas, regadas a vinho, bagaceira caseira e licores caseiros da mãe. Maria vai, algumas vezes, mais vezes ultimamente, as mulheres alentejanas, mesmo em aldeias, já não se vestem como antigamente, pelo menos como João as via vestidas quando era gaiato. Maria tem pernas longas, e mostra-as, veste calções, saias, tem um peito delineado, mas sempre escondido por tshirts, camisas e casacos. É divertida, bonita e tem um (sor)riso desarmante, João gosta, silenciosa e secretamente, de a ouvir rir, de a ver sorrir, aprecia como o sorriso lhe chega até aos olhos, aprofunda-os, a sua face é iluminada ao sorrir, mostrando a simpatia e beleza naturais. João pensa naquele sorriso, na cova que nasce, na curva do nariz, e apercebe-se que já não diz nada há algum tempo, a mãe olha em frente, com um sorriso.

Uma semana em velocidade rápida, depois da aparente velocidade de cruzeiro das semanas anteriores.
As aulas já começaram, o início parece ser auspicioso, carsa novas, interessadas, aparentemente extrovertidas, o que para a Unidade Curricular que dou é quase sempre um bónus. Estamos no início, ainda. O interesse é uma conjugação de esforços entre o aluno e o docente. A ver vamos no que dá este semestre, a correr entre uma escola e outra.

A queda de pára-quedas na Conferência Fiel ajuda-me a relembrar algumas coisas.
Não o prazer em ouvir bons pregadores, Deus tem facultado isso; mas a vontade de voltar a estudar a sua Palavra de forma mais sistemática, perceber que as nossas prioridades devem ser constantemente repensadas e reajustadas.

Repensar a distribuição do nosso tempo, e como a Sara tem sido útil nesse sentido!

Police de Jo Nesbo

Jo Nesbo é um dos meus autores favoritos, dentro e fora do género policial, ainda que a minha preferência vá para a sua série com Harry Hole, como personagem principal.
Os livros da série Harry Hole são uma viagem aos infernos, em que Hole é destruído lentamente. Se não é raro que as personagens dos policiais sejam atormentadas, pelos vícios, psicoses ou passado, a verdade é que Nesbo leva Hole a extremos, veja-se o final de Phantom, o título anterior.
A ação desta série passa-se maioritariamente na Noruega, Hole é alcoólico, a determinada altura torna-se adicto em droga, mas continua a ser um investigador de primeira água.
Phantom parece devolver Hole a uma existência mais aprazível, mas no final percebemos que ele nunca desceu tão fundo e que será preciso um milagre para o voltarmos a ter como personagem principal.
Police começa algum tempo depois do final de Phantom. Não vou escrever nada sobre o argumento, e ainda só vou a meio do livro. Mas gostava de dizer duas coisas. Nunca Nesbo esteve tão à vontade no seu estilo, lentamente vai contando a sua história e Hole só aparece a pouco menos de um terço do livro, Nesbo surpreende como nunca neste livro, parece ter prazer em enganar o leitor e é dessa brincadeira que nasce o prazer deste Police. Hole é o mesmo, ainda que não o seja, as circunstâncias mudaram-no, mas novas circunstâncias parecem obrigá-lo a voltar ao que era. A descida às profundezas parece ser uma necessidade para a atividade e ação da personagem.
A ver em que redunda a segunda metade do livro.
Como sempre, altamente recomendável, ainda que não para estomagos mais sensíveis.

Portugal Assombrado

histórias de um portugal assombrado

Vanessa Fidalgo é jornalista e escreveu um livro de sucesso, Histórias de um Portugal Assombrado, que já vai na 4ª edição, demonstrando que o tema tem leitores em Portugal. Durante as férias comprei esse e a sua obra mais recente, 101 lugares para ter medo em Portugal, livro que continua o périplo pelas lendas (antigas e urbanas),  mitos e histórias de terror que habitam o nosso país.

Convém afirmar dois factos antes de perorar sobre o díptico de Vanessa Fidalgo, em primeiro lugar, revelar uma tara minha, o hábito de comprar livros relacionados com as zonas que visito, livros normalmente editados pelas Câmaras Municipais e/ou Juntas de Freguesia, de autores da região, sobre hábitos, costumes e história dessa mesma região. Há uns anos, de férias na Serra da Estrela trouxe alguns livros sobre a Serra, que abordam questões históricas ou linguísticas, nessas férias, comprei também um livro sobre costumes, hábitos e superstições da Beira Baixa; ou referir ainda um dos meus favoritos, editado pelo município onde trabalho, As Ruas do Lavradio, de que espero ansiosamente a edição do segundo volume.

O outro facto é a fé, sendo cristão protestante, a forma como se olha para mitologias e histórias de assombrações tende a ser ligeiramente diferente do usal ateu ou agnóstico.

Importante, também, é reconhecer o papel destas lendas e histórias de terror na história, cultura e religião de um povo.

O primeiro livro de Vanessa Fidalgo é um resumo de histórias sobre o numinoso, misterioso e lendário, sendo que cada capítulo inicia-se com uma análise científica, e por vezes, paracientífica dessas mesmas questões. A escrita obedece ao objetivo do livro e muitas vezes assalta o espírito do leitor, há histórias bem (d)escritas, que interagem com o nosso subconsciente, recriando a narrativa através de testemunhos diretos ou através das lendas e narrativas recontadas geração após geração, mas Vanessa Fidalgo fá-lo de forma, por vezes, poética e obedecendo ao estilo do género. O papel das histórias, desastres e incidentes na memória coletiva de um povo (nacional ou regionalmente falando) é descrito e percebido pelo leitor, que reconhece as pernas que as histórias têm pernas e o(s) caminho(s) que percorre(m), reconhece o início de costumes e hábitos, medos e temores a partir delas. fui surpreendido pela história da região onde vivo (no caso dos livros de Vanessa Fidalgo, a histórias e rumores acerca do hotel do Muxito ou do Castelo do “rei do lixo”, em Coina) ou de locais que visitei (a ponte de Mizarela, no Gerês, o cromeleque dos Almendres e a Capela dos Ossos, em Évora, o hotel Monte Palace, em São Miguel).

O segundo livro parece-me mais mecânico, menos literário, mais jornalístico na sua abordagem, por vezes ignorei a razão de ter medo presente no título do livro, que se torna numa espécie de roteiro do estranho e macabro, mais do que do medo. Neste sentido é um livro distinto no estilo de escrita, menos capaz de cumprir o díptico prometido, uma espécie de resumo do que ficou por contar por alguém que se cansou da temática e que o escreve de forma cansada e mecânica. Alguns dos subcapítulos são pouco mais do que adendas históricas e geográficas, por vezes, um pouco sociológicas dos locais e acontecimentos que narra. A fraqueza deste livro é também uma das suas forças, o inominável fica de fora e a descrição vale pela historicidade da narração. O sentido de humor, jocoso ou cínico, presente no primeiro volume torna-se mais ausente neste.

Terminando (até porque escrever sobre livros que se leram e não os tendo presentes fisicamente, neste momento, é complicado -lá está presente uma das temáticas secundárias do livro, pelo menos, para mim, que é o papel e ação da memória nas narrativas), e fugindo a um comentário geral, estes dois livros de Vanessa Fidalgo parecem-me uma excelente porta de entrada para a noção e estudo da Literatura Oral, para um descobrir da obra de J. Leite de Vasconcelos (mais presente no primeiro volume) e para um conhecimento mais aprofundado da nossa história e cultura, já que muitos hábitos e tradições religiosas são aqui referidos e contextualizados.

Parece-me interessante também perceber como o religioso, numa aceção mais ampla do termo, está presente até aos nossos dias e como o medo molda, e tolda o pensamento e ações.

Gentlemen Prefer Blondes

Poster de Gentlemen Prefer Blondes

Musical de Howard Hawks, de 1953, com Marilyn Monroe e Jane Russell, Gentlemen Prefer Blondes é, até ao momento, o filme de Hawks de que menos gosto.

(Aproveito para referir alguns dos filmes de Hawks que mais gosto, Bringing up Baby, Only Angels Have Wings, To Have and Have Not, The Big Sleep, Rio Bravo e Hatari, para referir somente alguns.)

Historicamente é um dos filmes que impulsiona a carreira de Monroe e que marca a história do cinema com o número musical Diamonds are a Girl’s Best friend.
É o segundo filme de Hawks com Monroe, após Monkey Business, e marca também o encontro do realizador com Russell, após The Outlaw, que Hawks abandonou a meio (o tempo de The Outlaw neste blog há-de chegar).
De Marilyn, Hawks disse:”Marilyn é uma natureza de actriz. Fora desse lugar perdia toda a realidade. Só filmei Gentlemen Prefer Blondes porque Zanuck me pediu. A Fox pensava ter em Marilyn uma futura grande vedeta, sem no entanto a conseguir lançar. Eu disse-lhe: ‘Pois é, vocês querem torná – la real e a realidade dela é a comédia musical´. Eu acho que Marilyn nunca foi verdadeiramente real e acho também que a grande comédia é completamente irreal. Marilyn começou por fazer filmes em que tinha papéis realistas. Não são bons. Foi nas comédias irreais, a partir Monkey Business que ela teve sucesso. Porque exagerava e era disso que o público gostava. (…) Era dificílimo que qualquer outra actriz pudesse fazer o papel de Marilyn nesse filme, porque era preciso alguém ‘saído dum conto de fadas’. No Gentlemen quis fazer do sexo uma coisa cómica e utilizei a fundo as qualidades infantis de Marilyn. O filme não é mais do que uma série de variações sobre a atração sexual(…) A rapariga que se quer casar por dinheiro (…) Com Jane Russell, ao lado dela, estava ganha a partida. Marilyn precisava de Jane que lhe afastava os obstáculos e a completava. Porque Jane é muito, muitíssimo real.”

Neste excerto, compreende-se e interpreta-se todo o filme, um conto de fadas marcado não pelo amor, mas pelo amor ao dinheiro, com uma personagem irreal e quase infantil, que usa o sexo como condutor do seu objetivo. Note-se, no entanto, que o sexo é sempre subentendido e não explícito, como é usual em Hawks e na época, devido à censura do código.
Gentlemen vive da dicotomia entre as duas personagens e actrizes, Lorelei e Dorothy, Monroe e Russel, respectivamente.
Moralmente, é o filme mais imoral que já vi de Hawks, realizador de uma cinematografia muito própria e com características psicológicas muito próprias, ainda que dizê-lo assim é deixar a oração a meio para quem não conheça a obra da Grey Fox de Hollywood, recorrendo-me do título da magistral biografia de Todd McCarthy sobre o realizador. O crítico Hermann Weinberg considerou o filme “uma parada de baixezas”.
A história é rapidamente contada, duas dançarinas amigas vão fazer uma viagem a Paris, paga pelo noivo de Lorelei. O pai deste, desconfiado do amor de Dorothy (Monroe) pelo filho, contrata um detetive para averiguar os reais sentimentos dela, mas este apaixona-se por Dorothy. Ao longo da viagem, Lorelei envolve-se com um velho casado, babado pela beleza desta, e com um rapazinho! Hawks pega numa sátira e transforma-a em burlesco.

Tenho vários problemas com Gentlemen, o mais básico é o facto de não gostar de musicais, da linguagem e narrativa do género. Por outro lado, a maior parte dos filmes de Hawks têm um código moral e narrativo muito próprios, distintos neste filme, o facto de ter duas mulheres como protagonistas pode e faz a diferença, normalmente são os homens que são os protagonistas nos seus filmes.
Hawks define o filme desta forma,”the girls were unreal, the story was unreal, the sets, the whole premise of the thing was unreal. We were working with complete fantasy.‘” Esta irrealidade é relativamente comum em Hawks, mas não a cem por cento, há sempre algo que nos atraca, o que neste caso não acontece. O filme convida-nos a encará-lo como uma fantasia irreal.

Se tenho um carinho especial por diversos filmes de Hawks, deste não gosto, como já referi, talvez pela questão musical, ainda que a cena musical Diamonds are a Girl’s Best Friend seja um dos grandes momentos musicais da história do cinema e o Technicolor brilhe como nunca, com Marilyn de cor de rosa, num fundo vermelho, numa coreografia eternizada até hoje. A voz de hélio de Monroe, o exagero do bâton vermelho, a personalidade burra, o seu sex-appeal são trunfos que me passam ao lado, prefiro-a em Niagara, e é Jane Russell que me convence e impele a terminar o visionamento.

Diomonds are a girl´s best friend

Se não gosto, abomino mesmo, as comédias brejeiras e sexuais, descendentes de Gentlemen, convém, no entanto,firmar o valor do subtexto, do subentendido, do não dito que acabam por consolidar o papel do filme na história do cinema e o seu sucesso imediato, a par da presença de duas das mais famosas estrelas de Hollywood dessa década. É, como o próprio realizador o descreve, uma ´série de variações sobre a atração sexual´, feitas como só um grande realizador o poderia fazer e como só poderiam ser feitas na década de 50, sem problemas para o estúdio.

Marilyn Monroe e Jane Russell

Há cenas que feitas hoje seriam completamente diferentes, tanto no sentido como no contexto, a cena das duas mulheres, vigiadas de perto pela equipa olímpica, junto às piscinas do barco, que termina com a seguinte frase “those girls couldnt drown”, frase pouco dúbia para quem o vê, ou o outro grande número musical do filme, Aint there anyone here for love?, com Russell no meio da equipa olímpica, em pleno treino, cena arrojada para a altura, que termina com ela a ser enviada para a piscina, um acidente na rodagem, mas que encerra em si toda uma metáfora, um subtexto que nenhum fã de Hawks ignora, razão que leva ao corte da cena quando passa na televisão americana.

Os homens, tão bem tratados por Hawks na sua filmografia, são aqui tudo menos do que um exemplo de virilidade, demonstrando que Lorelei quer acima de tudo a riqueza que não possui na sua condição, e que está disponível a tudo para o conseguir, como mostra a última cena que divide com o futuro sogro.

Gentlemen é, a meu ver, um filme estranho no conjunto da obra de Hawks, com o que escrevi não posso deixar de referir que o subentendido está presente nos seus outros filmes, mas é ao nível do argumento, da descrição psicológica que a diferença se acentua.
Termino como comecei, é o filme, até ao momento, de Hawks que menos gosto.

(6/10)

O Cinema Clássico Americano e os Clássicos do Cinema

Gosto de cinema desde que me conheço, nascido no último ano da década de 70, reconheço o papel que a televisão pública e os clubes de vídeo tiveram nesta relação, bem como o papel do pai, ao querer rever alguns clássicos da sua juventude.

Quem cresceu, como eu, nos anos oitenta, lembra-se dos filmes de Chaplin, do Tarzan, com Johnny Weissmuller, do Errol Flynn, dos épicos de inspiração bíblica (Quo Vadis, A Túnica, Ben Hur, Dez Mandamentos e outros), dos westerns e filmes de guerra, entre tantos outros que a memória imediata esquece. A coleção de clássicos dos clubes de vídeo ajudavam a descobrir algumas pérolas.

Pouco me interessava o nome dos realizadores, alguns dos atores e atrizes iam aparecendo algumas vezes mais, o que ajudou à memorização.

Ao entrar na faculdade, aos dezoito, já conhecia alguns clássicos e atores da época dourada de Hollywood, mas a oferta começava já a ser mais escassa no que diz respeito a essa era, o cinema começava a ser dominado pelos efeitos técnicos e não pelos argumentos e atores, os efeitos especiais iam começando a ser os verdadeiros protagonistas, mas ainda assim a oferta era distinta da de hoje. Durante o período da licenciatura, tive a oportunidade de ver 2-4 filmes por semana, alguns o sucesso comercial da altura, outros eram filmes independentes ou não americanos, que o King, o Londres e, por vezes, o Picoas ofereciam.

No penúltimo ano de licenciatura assisti numa cadeira de história do cinema, dada por um professor que colaborava com a Cinemateca Portuguesa, de quem não me lembro do nome, e que demorou algum tempo nas décadas de 30 e 40 do século passado. Foi ali que vi, com olhos de ver, o meu primeiro Howard Hawks, de quem já vira alguns filmes ao longo do meu crescimento, Only Angels Have Wings. Marcou-me, ainda hoje continua a ser um dos meus filmes favoritos de Hawks, talvez pela descoberta, mas a obra do americano é tão vasta e interessante que é difícil dizer qual será o favorito, mais fácil é reconhecer que Hawks é um dos meus realizadores favoritos, juntamente com Sergio Leone e Bergman. Também Cary Grant, protagonista desse filme, é um dos meus atores favoritos.

Hoje, como tantos outros, reconheço um certo cansaço com o cinema da Hollywood atual, tanto pela escrita, como pela fórmula, não que o cinema clássico não usasse fórmulas, claro que o fazia, mas a vacuidade e a ausência por vezes de conteúdo é uma coisa que me distrai, no mau sentido da distração.

O meu obejtivo não é definir cinema clássico ou clássicos do cinema, ainda que valha a pena definir, de forma pouco concreta, o período do cinema clássico, que normalmente é integrado entre as duas primeiras guerras, avançando um pouco após o fim da última destas, já que após a década de cinquenta a indústria é marcada pelo aparecimento da Nouvelle Vague francesa e pelo Neo-realismo italiano, com a participação de outros cineastas, de diversas nacionalidades, com cunho próprio, por exemplo, Kurosawa e Bergman.

O cinema clássico tem algumas características: o star system, o gosto pelas grandes produções, o enredo/narrativa linear, o final feliz, clareza e transparência narrativas e o foco numa ou em duas personagens, há uma clara divisão por géneros, cada um com uma linguagem própria e algumas características técnicas que vou deixar em aberto.

Citizen Kane de Orson Welles rebenta com algumas destas regras, nomeadamente a nível técnico, do trabalho da câmara, e da narrativa, que não é linear.

O objetivo deste pequeno texto é estabelecer uma promessa, escrever sobre alguns clássicos, obrigando o autor destas linhas a (re)ver alguns dos filmes mais amados ou esquecidos da história do cinema, nomeadamente, do cinema americano.

É normal que alguns dos filmes mais emblemáticos, mais conhecidos demorem algum tempo a aparecer aqui, já que já foram vistos mais do que uma vez e serão guardados para outra altura, Casablanca, Citizen Kane, Bringing up Baby, My Darling Clementine, The Big Sleep, To Have and Have Not (e é incrível ver aqui a primazia de Hawks) são alguns desses que demorarão um pouco mais a aparecer.

Até já.