Conversas de Café II

(Mesma mesa, duas minis)

– Que é que andas a ler?

– Um policial francês, um livro de contos sul americano, um livro sobre a segunda guerra mundial e uma biografia sobre o Thelonius Monk.

– Sobre quem?

– Um músico de jazz, um génio. Conheces aquela música, “Just a gigolo”? (cantarola)

– Ya, do David Lee Roth. (abana a cabeça, fazendo com que uma garrafa quase caia)

– Surpreendes-me, tantas versões e escolhes a pior. Mas és coerente.

– Coerente?

– É a versão do gajo com o cabelo mais parecido com o do Bon Jovi dos anos oitenta. (Sorri)

– Vai-te lixar. O que é que isso tem a ver com o Monk?

– A música é dos anos 30 ou 40, não sei bem, o Monk fez uma versão fenomenal, está no Misterioso, o meu álbum favorito dele.

– Não conheço. E estás a ler isso tudo? Como é que consegues ler tanto livro ao mesmo tempo? Não confundes as coisas?

– Não, são livros diferentes, distintos. Mas mesmo que não fossem, cada livro tem um ritmo diferente, e eu entro em cada um deles de forma distinta. Tenho lido livros ao longo de um ano, e outros ao longo de um dia. Há livros que me cansam a determinada altura, leio um ou dois e depois volto ao que deixei, eventualmente.

– Ultimamente ler cansa-me, acho que por ter andado a preparar os relatórios para a empresa e a ler alguns livros técnicos, deram cabo de mim. Ando a ler um dos livros do George R. R. Martin, mas encalhei. Acho que vou esperar pela série.

– Andas a ler qual?

– Nem sei, o 7º ou 8º. Cada vez que acabo um, vou comprar o seguinte e tenho de ir ver o número. Não decoro os nomes. A Lídia é que ficou contente, dei-lhe As Cinquenta Sombras de Grey. Conheces?

– Li um bocado, sem saber ao que ia, em e-book, bem antes de chegar cá a Portugal. Prefiro o 50 Shades of Chicken.

– Preferes o quê?

– É um livro de culinária a parodiar o que tu deste à Lídia, com receitas de frango/galinha.

– As coisas que tu descobres. Esse eu era capaz de gostar, o outro não li, o que achaste?

– Epá, sadomaso? Deixa estar.

– Sadomaso, a sério? Não sabia. (Dá uma gargalhada)

– Conhece melhor aquilo que ofereces, pá. Qualquer dia levas com o chicote…

– Achas? Mas ela diz que aquilo é muito bom.

– Isso é que eu acho estranho, tantas campanhas contra a violência doméstica e depois o livro mais vendido em Portugal é um livro de sadomaso, faz-me espécie.

– Vendo desse prisma…

– A sério… se um tipo dá um estalo numa mulher ou pior é crime, o que acho bem, mas depois elas andam a ler um livro sobre práticas pouco…pouco…epá, ser amarrada e coisas que tais, sei lá, parece-me um bocado deprimente. Andam anos a pensar no príncipe encantado e em vez de um sapo transformado em príncipe sai-lhes um príncipe transformado em Sade. Não percebo.

– Pois…Vou andando, vens?

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Conversas de café

Dois amigos, nos trintas, sentados a uma mesa, a beber minis.
– Já ouviste o novo single dos Bon Jovi? Granda malha!
– Não! O que é uma grande malha?
(O outro ignora-o e canta a música)
Essa já ouvi. É nova?
– É!
– Igual às outras todas. Cansa-me ouvir uma música nova e ser mais do mesmo.
– Percebo o que queres dizer, mas… É o estilo deles.
– Estilo…é tudo igual. Mas são quase todos. Têm sucesso com uma música e refazem-na até à exaustão.
– És capaz de ter razão, mas é assim que a música funciona. Se fizerem coisas diferentes de álbum para álbum o pessoal é capaz de ignorar. E refazer algo algumas vezes, sempre com sucesso, não é para todos.
– Hum…Não sei. Gosto de variedade, admiro uma banda que me cative não tocando sempre o mesmo. Olha os U2…
– Que banda, grandes músicas.
– Grandes músicas…ya…Diz-me uma a partir de 95 que seja de jeito.
– Sei lá, olha, “stuck in a moment you can´t get out” (a cantar o refrão)
– Diz-me outra…
– Não sei…
– Pois…Eu não gosto de nada deles desde o Zooropa.
– Esse não é aquele álbum meio de dança?
– É! Para mim é o melhor álbum deles. Zooropa, Numb, Lemon, .Stay (Faraway, So Close!), Daddy’s Gonna Pay for Your Crashed Car, The Wanderer.
– Que treta de álbum. Mas tu gostas de música de dança?
– Daquela gosto. O meu objetivo é esse, ouvir o pessoal que gosto a mudar, se não de estilo, pelo menos de ritmos, ambientes. É o meu álbum favorito deles.
– É o que eu menos gosto. Mas se é para ouvir à noite numa disco ou bar, prefiro Beastie Boys, gostas?
– Dos singles, que é o que conheço. Mas do pouco que conheço, nada como o Right to Party. Mas reconheço que mudaram ao longo dos tempos. Os U2 não, cristalizaram os singles e pimba. One, with or without you, Stuck in a moment without you, Beatiful Day, With or without you. É tudo igual.
(Este gajo é parvo, pensa o outro)
– Mas de que é que tu gostas? Diz lá as tuas bandas favoritas.
– Não sei se tenho bandas favoritas, tenho os álbuns todos dos Pearl Jam até determinada altura, mas depois fartei-me.
– Tudo igual? (cinicamente)
– Ya, um pouco. Parei no Binaural. (Faz um ar de desgosto)
– Qual é a tua música favorita deles?
– Yellow Led Better. (canta) “Ah yeah, can you see them out on the porch? Yeah, but they don’t wave.
I see them round the front way. Yeah. And I know, and I know I don’t want to stay. Make me cry…”
– Não conheço, mas Pearl Jam não é muito a minha onda. Eu era mais Nirvana.
– Só o Bleach.
– O Bleach? Aquilo é só barulho.
– Ya, cru, básico, um pouco redundante em termos de letras, mas musicalmente, o melhor álbum deles!
– Melhor? Tu estás a brincar comigo. Melhor do que…
– Que qualquer um dos outros, melhor que o In Utero, que o Nevermind, ou aquela bosta do MTV Unplugged.
– Tu és é do contra.
– Não, man, sou é mais alternativo. Coisas comerciais cansam-me, sabes?
– Deves ser daqueles que quando um gajo começa a ter sucesso deixas de ouvir.
– Um bocado, ya.
– És como aqueles freaks que colecionam somente os nºs 1 das bandas desenhadas?
– Nunca tinha pensado nisso. Sou um bocado, sabes? Tenho álbuns de algumas bandas, mas o que acontece, acontecia, que hoje já não compro grande coisa, é que quando comprava um álbum que gostava bué, por vezes, a maior parte das vezes, já não conseguia comprar mais nenhum.
– A sério?
– Ya, não acredito que a inspiração bata à porta muitas vezes.
– Dá-me exemplos.
– Draconian Times…
– Uh? Draquê?
– Paradise Lost, meu, tinha um álbum deles antes deste, o Shades of God, mas nunca mais consegui ouvir mais nada, nem para a frente nem para trás. Tales from the Thousand Lakes dos Amorphis.
– Dos quem?
– Tem uma versão bué louca do Light my fire, dos Doors.
– Mas isso é só música pesada, não ouves nada mais comercial?
-Tu é que perguntaste sobre o que eu gostava de ouvir. E já te disse que sou mais alternativo. Tindersticks, Nick Cave.
– É isso que não entendo. Mandas vir com gajos que fazem sempre a mesma música. Epá, se ouvir uma música de Tindersticks ou de Nick Cave já ouvi todas.
– Mas isso é porque não gostas. Aceito em parte a crítica em relação aos Tindersticks, mas mesmo assim, os álbuns são diferentes.
– Bon Jovi é tudo igual, Nick Cave não? Deves estar a gozar comigo!
-Bon Jovi é um bocado assim para…
(o outro espera, olha para ele nos olhos, convidando-o a continuar)
-Sim?
-Música de gaja, pronto. Ouvir Bon Jovi de livre escolha é somente triste.
-Triste? Triste és tu, Nick Cave e Tindersticks é que é música triste, depressiva, de cortar os pulsos. Aquilo arranha-me os ouvidos.
– Acontece a gajos que ouvem Bon Jovi. Música melancólica não é forçosamente música para cortar os pulsos. Música para cortar os pulsos é Beyoncé, Lady Gaga, nem sei como é que chamam música aquilo.
– Estás a mudar o bico ao prego.
– Não estou. Só estou a tentar dizer que aprecio o melancolismo. Olha, o meu género favorito é o jazz, porque passas por diversos estados de espírito, às vezes, dentro do mesmo álbum.
– E nada repetitivo.
– Repetitivo enquanto género, claro. Ou vais-me dizer que há muitas diferenças entre bandas de rock, pop, ranchos folclóricos, ouves um rancho folclórico e já ouviste todos. (ri-se com a piada)
(O outro parece desistir)
– Pedimos mais uma? Ou é muito repetitivo?
– A abaladiça, depois tenho de ir.

Da política

Não tenho vergonha em confessar que pouco ou nada compreendo de política, e muito menos de economia. Tenho os meus valores, as minhas crenças e vou utilizando estes ideais e convicções para me tentar posicionar politicamente. A menos que coloquemos palas e sejamos dogmáticos politicamente, penso que dificilmente se poderá assinar de cruz sempre no mesmo partido. A diferença entre o que é dito e o que é feito é abismal, aterrorizador é ouvir comentadores, aterrorizador porque parece que as melhores medidas nunca são aquelas que são preconizadas, pensadas e cumpridas. Aterrorizador porque quando passam para o governo os ideais e as ideias mudam, sejam por culpa da máquina partidária, dos compadrios, dos interesses ou de outra coisa qualquer. Ainda assim, parece que ser político continua a ser o melhor tacho a que se possa almejar. É triste, mas a sina parece ser mesmo essa.
Mas fujo à razão da escrita deste post. Olhando para aquilo que este governo tem feito, continuo sem perceber se algumas das medidas seria evitáveis. Penso que o mais difícil é convencer da razão e necessidade de algumas delas, perceber como é que o Estado poderia poupar mais do que tem feito, se é que tem poupado alguma coisa que não à custa dos trabalhadores (públicos e privados).
Por defeito profissional, penso que o grande problema deste governo é de comunicação, comunica mal entre si, comunica pior para fora. Basta ouvir Gaspar, Relvas e Passos e percebe-se que a comunicação anda pela rua da amargura, pouco contextualizada, feita a medo, sem conteúdo, desnecessária, o que se diz é contradito por determinada atitude ou silêncio. Ou pelo sorriso amarelo de Passos a ouvir a Vila Morena.
Percebo pouco de política, nada mesmo, nem sei se é de bom tom falar de moral neste âmbito, quando a moral é hoje essencialmente amoral, como a política. Mas a moral de determinados membros, Relvas vem-me sempre à mente, um país que tem um político destes à frente diz muito acerca desse mesmo país, mas não teve Itália um Berlusconi? E é capaz de voltar a ter…
Faz-me espécie que a educação seja razão para ser político, nomeadamente a falta dela, lendo algumas das tiradas dos nossos políticos, na Assembleia, no século XIX, leva-me a pensar que se calhar estaremos melhor, mas melhor quando comparando. Parece que a política que temos é fruto da educação, não do ensino, da educação que temos ou deixamos de ter enquanto povo. E isso mete-me medo.
Mas, enfim, o que saberá um ignorante temeroso? 

Woochi – The Demon Slayer

Arredado do cinema asiático há uns 5 anos, cinema que prezo e “consumi” também como uma oposição “saudável” aos produtos de pacote vindos dos EUA que nos assaltam os grandes e pequenos ecrãs, voltei a comprar três filmes asiáticos, e o primeiro a chegar foi visto ontem.
Sou fã do bom cinema de Hong Kong, nomeadamente o policial, ficando na retina a trilogia The Infernal Affairs, que deu origem ao The Departed, com Di Caprio e Jack Nicholson. Mas Johnnie To e a sua produtora MilkyWay Image, bem como muito do cinema pré-americano de John Woo ou os filmes de Wong Kar-Wai merecem destaque. O cinema de terror japonês, mais psicológico e menos sangrento do que o americano, e refeito até ao vómito pelos americanos, também me agrada (assim de repente lembro-me de The Ring, Dark Water, The Eye, filmes que fazem tão bem o que queriam fazer que me impediram de ver os remakes americanos). O cinema Sul Coreano tende a ser mais melodramático, desde The Host (uma mistura de estilos), até JSA e alguns filmes de guerra interessantes, ainda que por vezes demasiado longos. Este Woochi é longo, duas horas e um quarto, mas nada melodramático.
Woochi, The Demon Slayer é uma fantasia sul-coreana, uma espécie de Aprendiz de Feiticeiro, mas com panache.
Há 500 anos, durante a Dinastia Chosun a flauta da profecia corre o risco de cair nas mãos do ArquiDeus, dando o poder de libertar goblins (os demónios do título, que são bastante diferentes dos da imagética cristã/ocidental. Uma tem o aspeto de um coelho e outro de um rato.) Três deuses taoístas, uma espécie de três estarolas com poderes, vão pedir ajuda aos dois mestres da altura, O Mestre e Hwadam, dividindo a flauta em duas partes e ficando cada um dos mestres com uma das metades. O discípulo de O Mestre, Woochi é um tolo de bom coração, mas que não se aplica decentemente na arte da magia e causa problemas atrás de problemas.
Os primeiros 40 minutos de filme são tudo o que se espera de uma fantasia asiática passada há séculos atrás, cabelos e barbas compridas, saltos que parecem voos e os edifícios típicos daquela altura naquela zona geográfica. É esta primeira parte que nos apresenta as personagens, com bastante humor e alguma capacidade de descrição.
A primeira parte termina com a morte de O Mestre e o aprisionamento de Woochi, que será liberto já no presente pelos três deuses que o tentam usar para vencer os dois goblins já descritos que tentam encontrar a flauta para libertar os restantes companheiros.
É no presente que Woochi tenta depender menos dos talismãs que lhe dão poder e aprenderá a dominar a magia.
Já perceberam a ligação com O Aprendiz de Feiticeiro, não já? Woochi é uma clássica jornada de um herói para a maturidade, uma fantasia que não tenta ser mais do que isso, trazendo humor e diversas cenas de ação bem conseguidas. Os efeitos especiais estão um pouco abaixo do que Hollywood faz, nota-se nas poucas cenas em que os goblins aparecem de corpo inteiro, pouco mais são do que personagens de um jogo de consola.
O filme traz uma sensação de brincadeira e gozo de alguns dos filmes dos anos 80, e é mais interessante que alguns dos filmes que Hollywood produz atualmente. Obviamente que não se perde muito tempo com as diferenças temporais e dificuldades de adaptação aos tempos modernos, mas as personagens vão crescendo ao longo do filme, como é aliás comum neste tipo de filme, mas sem cair em dúvidas existenciais e brumas, já que o essencial é divertir.
No essencial, uma fantasia divertida, menos negra do que o título em inglês poderia sugerir, uma alternativa aos diversos filmes recheados de (melhores) efeitos especiais, mas normalmente mais mal construídos.
Um boa maneira de passar uma noite ou tarde de sábado.
7/10


Frente à caixa estúpida

O cansaço e a falta de tempo não têm permitido avançar nas diversas séries que costumo acompanhar.
Na última semana, vi os primeiros episódios da 2ª temporada de Last Man Standing, com Tim Allen, e ontem o primeiro episódio de The Following, de Kevin Williamson (o mesmo de Scream, Dawson´s Creek, The Vampire Diaries), com Kevin Bacon e James Purefoy.
The Following é claramente uma série americana, na abordagem, nos clichés, na construção narrativa. Uma espécie de Scream com esteróides, polvilhado com Edgar Allan Poe.
O piloto apresenta-nos Ryan Hardy – Kevin Bacon, um ex-agente do FBI, que é chamado como consultor na investigação e caça ao serial killer Joe Carrol – James Purefoy, criminoso que ajudou a prender 10 anos antes.
O primeiro episódio mostra-nos a fuga e consequente captura de Carrol, que dá mote para o que vem para a frente. O título da série refere-se aos seguidores de Carrol, que continuarão a missão sangrenta do “líder” na prisão.
The Following podia ser um caso de muita parra e pouca uva, não é, a parra já é muito pouca, a série é mais violenta e gore do que o habitual para um canal como a FOX, mas a violência parece demasiado gratuita (diria que daquilo que conheço de Williamson não é propriamente uma surpresa). O episódio piloto é pouco convincente, Carrol é pouco mais do que uma caricatura e Hardy é a clássica figura do agente caído em desgraça depois de um caso bem resolvido. A série não trabalha grande coisa, tudo acontece demasiado depressa e o relacionamento entre as duas personagens parece um Silêncio dos Inocentes em mau.
Enfim, um gostinho amargo, terei vontade de ver os restantes 14 episódios?
Last Man Standing é uma série à imagem do seu protagonista e do humor que o caracteriza, a série destila Tim Allen por todos os poros.
A primeira série agradou-me, já que o sentido de humor, boçal, sarcástico e “machista” me agrada, no entanto, esta segunda série trouxe uma mudança de três atores (Alexandra Krosney cedeu o lugar a Amanda Fuller  como Kristin Baxter; Evan e Luke Kruntchev deram lugar a Flynn Morrison como o filho de Kristin, Boyd; e  Nick Jonas desapareceu para Jordan Masterson ser Ryan, o pai de Boyd), para consequentemente Boyd e Ryan terem mais tempo de antena. Pessoalmente, a troca de atriz não me convence e Boyd e Ryan são cada vez mais personagens irritantes, tanto pela forma como estão escritas, como pelos atores que as encarnam.
Provavelmente, estas duas séries vão ter o mesmo destino na minha grelha, dar lugar a duas outras…

Carnaval

Parado no blogue, mas ativo na vida real. O carnaval trouxe-nos uma visita de cinco dias, a aproveitar as férias escolares.
No sábado os planos furados, a contas com uma torneira e um cifão, deu para passear à tarde pelas quintas das traseiras, olhando os campos verdejantes, povoados por cavalos, ovelhas e cabras e pela procura de espargos, encontrados já comidos ou cortados.
No domingo, visita aos sogros; segunda feira, visita a Montargil, breve, mas com direito a dois dedos de conversa com familiares e amigos, compra de queijos artesanais e à cata de espargos selvagens, comidos ontem com proveito e com ovos mexidos; na 3ª feira, Aroeira, em casa de uns amigos e a tarde ocupada com bolos e cartões de aniversário da minha mãe, com visita surpresa à noite para comer um bolo verde (!), olhado inicialmente com desconfiança pelo patriarca da família, mas aprovado depois da prova. O verde era de agriões, trazidos na véspera de Montargil.
Um carnaval recheado de visitas e passeios, de alguns momentos tranquilos e de boa disposição.

Bem alimentado, mas não completamente

Esta semana descobri que bem perto do local de trabalho há um restaurante alentejano, na conversa que tive com dois conhecidos pensei que poderia conhecer os donos do mesmo, e tentado pela qualidade da comida, se os donos fossem quem eu pensava que eram, fui à descoberta.
O restaurante tem um nome alentejano, assim como a decoração. Os pratos do dia eram portugueses, Frango frito ou assado, peixe grelhado, iscas, pratos alentejanos somente a grelhada de porco preto, o que é pouco para o definir como um restaurante alentejano.
Decidi-me pelas iscas, bem feitas, com cebolada a acompanhar e umas batatinhas pequenas assadas. Regalei-me.
Regalei-me mas não fiquei convencido com a qualidade regional dos pratos, ainda não foi desta que matei saudades de umas migas, açorda, sopa de cação, que bem a fazem no Estádio, também aqui bem perto, e de outros pratos tão típicos daquela região a sul do país.

Revenge e Scandal

Do que vou vendo na tv hoje não posso dizer que acompanhe nenhuma grande série, pelo menos ao nível de The West Wing e Battlestar Galactica, duas das séries que mais me cativaram, ou de Wire in the Blood, série psicologicamente violenta e bem escrita vinda da velha Albion.
Acompanho com interesse a bem escrita Downton Abbey, mas confesso que a última série e meia me soube a telenovela, bem escrita, mas telenovela ainda assim.
The Newsroom trouxe de volta a escrita e verve esquedista de Sorkin, de quem gosto bastante e a Sherlock Holmes inglesa é um produto muito bem escrito e adaptado, mas são muito poucos episódios com imenso tempo de intervalo.
O resto é cliché, bem ou mal embrulhado em novas e velhas tentativas de fazer algo diferente ou de esticar o velho modelo até à exaustão. Cuidado de escrita como The Wire apresentou é hoje mais raro.
No meio disto, tenho acompanhado com algum gozo duas séries americanas, Revenge e Scandal. Diz a esposa que são telenovelas, sim, mas se todas as telenovelas fossem tão bem escritas ainda via telenovelas. São uma amálgama de clichés, de personagens tipo, de situações modelo, mas que fazem o que querem e prepararam de forma escorreita.
Ontem via o último episódio da primeira série de Revenge com um sentimento agridoce, matar Madeleine Stowe é lógico, mas perigoso, ainda que a personagem desta fosse já pouco mais do que uma caricatura, aliás, como boa parte das personagens. O final tenta fechar a primeira estória, mas não fecha por completo que o sucesso da série a isso obriga. A tentativa de nos convencer a ver a segunda série falha, já que as conspirações só podem convencer-nos e motivar-nos até certo ponto. Provavelmente vou continuar a vê-la, pelo menos nos entretantos, mas as fórmulas têm vida curta, um dos segredos de Battlestar Galactica foi movimentar-se e mudar o foco em cada série, alterando o status quo da coisa.
Scandal aposta num modelo semelhante de Revenge, por trás um segredo, uma conspiração, todas as semanas um caso novo. A série apresenta por enquanto a leveza e aprofundamento das personagens das primeiras séries de Anatomia de Grey, algumas personagens são histriónicas e irritantes, mas é o conjunto que ainda vai funcionando e mantendo o interesse, mesmo que a conspiração seja pouco mais do que pífia.
Se séries como Lost, 24, House e outras nos ensinaram é que o modelo pode cansar e corroer o sucesso por dentro, manter o interesse do espectador com segredos por vezes pode ser contraproducente.
Mas por enquanto estas duas dão algum gozo, moderado, mas algum gozo.

“Thus was born one of the most powerful marketing tools of the twentieth century: giving away one thing to create demand for another. What Woodward understood was that “free” is a word with an extraordinary ability to reset consumer psychology, create new markets, break old ones, and make almost any product more attractive. He also figured out that “free” didn’t mean profitless. It just meant that the route from product to revenue was indirect, something that would become enshrined in the retail playbook as the concept of a “loss leader.”

Chris Anderson in Free