FCP e Vítor Pereira

As vitórias têm conseguido esconder um plantel mal escolhido, um treinador fraco e uma forma de jogar pouco concreta.
Sim, eu sei que o Porto é o campeão do poste e da barra. E então?
Como se explica um plantel somente com um avançado? Ainda para mais sem as características que devia ter. Vi os cinco jogos do campeonato, algo que não acontecia há alguns anos e adormeci em todos (isto não é uma imagem, é real)! O jogo do Porto é pouco concreto, é verdade que tem posse de bola, mas pouco faz com ela. Ainda ontem viam-se cruzamentos para terra de ninguém, não havia lá ninguém.
A culpa não será somente do treinador, o presidente também tem a sua parte, mas se o jogo preconiza um agente como o treinador, então ele deve estar lá para alguma coisa.
Sinceramente, não esperava que o Porto tivesse ganho os primeiros jogos, ainda que esperasse a forma como os ganhou, soporifamente.
Gostava, e custa-me dizê-lo, que o Benfica ganhasse de forma concreta e sem casos. Porquê? Para o Porto acordar, para o treinador agir de alguma forma.
Felizmente a NFL ainda vai no início…

Lars Kepler

Lars Kepler não é uma pessoa, são duas, Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. Se querem mesmo saber a senhora é filha de uma portuguesa, ainda bem que escreveram esta série usando um pseudónimo, senão andaríamos à procura dos seus livros na secção de autores portugueses, como me aconteceu com o Daniel Silva.
Neste momento há dois romances editados em português, o primeiro é O Hipnotista, primeira obra em conjunto, o segundo é O Executor.
Para variar, comecei pelo segundo e gostei, mas depois li o primeiro e a verdade é que a estreia parece-me mais forte do que a continuação.
Em O Hipnotista somos confrontados com o assassínio brutal de uma família (pais e filha), o filho resistiu e está internado no Hospital, tornando-se a única testemunha do crime.
Joona Linna, o herói da série, polícia da Judiciária, responsável pelo caso, pede ajuda a Erik Maria Bark, médico e antigo hipnotista, que jurou publicamente nunca mais praticar a hipnose. Convencido por Joona, Erik quebra a promessa e daqui para a frente tudo parece correr mal, o seu filho é raptado e Erik vai ter de confrontar-se com o seu passado.
O romance de estréia é uma tour de force, com 560 páginas, num estilo pormenorizado e detalhado, com alguns flashbacks que poderão não agradar a todos, eu delirei. Trata-se de uma história negra, cruel, que não nos deixa respirar (alguns respirarão nos flashbacks, mas é tudo uma questão de estilo e gosto). Quando terminei O Executor, refilei com as comparações a Stieg Larson, comparações que compreendo depois de ter terminado o primeiro livro.
Joona Linna é mais um polícia marcante dos policiais nórdicos, inteligente como todos (wallander, Winter, Hole), persistente (como os anteriores), perspicaz, um pouco cagão, com problemas nas afeições pessoais (confere), mas, ainda assim, mais comedido nas suas desgraças (é difícil descer mais baixo do que Harry Hole).
A força de o Hipnotista é a descrição pormenorizada dos estados de alma das personagens, ora quando se fala de um livro que descreve um grupo de pessoas com problemas psicológicos, essa força é digna de realce.
O segundo romance de Lars Kepler, O Executor, é ligeiramente menos negro, penso que mais por defeito do que por vontade. Se calhar esta minha opinião parte do maior interesse que o primeiro livro me despertou, já que pensando retrospetivamente o livro é negro, cruel, mas se calhar é menos violento para o leitor do que o segundo, é mais cinematográfico, mais visual, enquanto o primeiro me surpreendeu mais  psicologicamente.
Avancemos, o enredo de O Executor começa com o aparecimento de uma mulher morta num barco no  arquipélago de Estocolmo. No dia seguinte, Carl Palmcrona, director-geral de Armamento e Infraestruturas de Defesa da Suécia, é encontrado enforcado em casa. Joona Linna desconfia da hipótese suicídio e recusa-se a dar o caso como encerrado.
Pouco a pouco, Linna e o leitor começam a perceber de que modo estas duas mortes estão ligadas.
O Executor insere-se, mais facilmente, no chamado Policial Nórdico pela sua trama, as questões da guerra em África, o tráfico de armas e a violência de estrangeiros em solo sueco, tão caras a Mankell, estão presentes aqui.
Confesso que gostei muito do que li,  (acabo de saber que se trata de uma série de 8 volumes, aqui), mas desgostei um pouco da opção final de trazer spoilers, mais pelo spoiler em si, que me parece demasiado telenovelesco.

Leim e digam de vossa justiça.

do dia a dia

No trabalho aparecem pedidos e questões a serem respondidas, no Doutoramento o prazo de entrega da Projeto avizinha-se mais rápido do que o esperado (quanto tempo o tempo tem? Haverá algo mais variável, menos concreto que o tempo?), amanhã há um casamento, para a semana um aniversário de uma associação a que comparecerei em trabalho, falta-me Setúbal, uma reunião de boas vindas e a preparação de uma cadeira nova.
Desafios novos a cada dia, as férias foram quando? Logo agora que o verão chega e nos assa no gabinete.

da vida passada na escola

Tenho-me lembrado, nos últimos tempos, da experiência pela escola preparatória e secundária. Como as crianças podem ser cruéis, senti-o na pele, algumas vezes fiz sentir a crueldade em pele alheia.
Lembro-me de ter sofrido as passinhas do Algarve no 6º ano. Havia um colega mais velho, mais alto, mais forte, mais líder, mais cruel que gostava de mostrar quem mandava. Muitos sofreram com ele. Cada dia um, para combater a monotonia. Não posso generalizar, reagi da maneira que reagi, diferente ou semelhante do modo como outros reagiram. Lembro-me das brincadeiras mais estúpidas e humilhantes. Corredores da morte cruéis e violentos. Brincadeiras sádicas com o poste. Às vezes penso se não existiriam professores e funcionários naquela escola.
O ano foi longo e duro, algumas amizades cristalizaram-se, na escola, a caminho ou regresso dela. Há alguns com quem ainda falo hoje em dia, de tempos a tempos, nem que seja via facebook.
Lembro-me de passar para o secundário. Já não sofria tanto, somente uma tentativa de furto aqui e ali, um achincalhamento mais ou menos público, quem andou nas Cavaquinhas na mesma altura em que eu andei saberá do que falo. Lembro-me de um jornal da escola que trazia uma notícia, uma percentagem alta de alunos era assaltada todos os dias, nomeadamente os abaixo do 10º ano.  Era considerada a pior escola do concelho, haveria razões para isso. Mas as coisas mudam e quando saí de lá, deixei uma escola diferente daquela que encontrara. Hoje é uma das escolas “finas” do concelho.
As crianças, os jovens podem ser cruéis. Na tentativa de marcar a sua posição, de mostrar quem e como são foram-no/terei sido algumas vezes. Mas crescemos, aprendemos com os erros, com o que de mal fazemos e cometemos aos outros. Alguns, pelo menos, outros devem ter enveredado por caminhos menos legais.
De vez em quando lembro-me nostalgicamente e com um sorriso de alguns acontecimentos, pequenos, parvos, delirantes, “saborosos”.
De uma vez quase pegámos fogo à escola, sem querer, claro. Doutra, colocámos uma árvore dentro de uma sala. No Carnaval rebentámos um número estúpido de bombinhas de mau cheiro numa sala, para ver se saíamos mais cedo. Azar! A Professora deu-nos aula de porta fechada.
Lembro-me de um colega abrir o guarda-chuva numa aula, estávamos na primeira fila e a professora afogava os nossos cadernos com perdigotos. Lembro-me de ter sido mandado para a rua injustamente, antes de fazer 20 metros tinha 7 ou 8 colegas atrás de mim, por amizade (e desinteresse da aula, claro, mas o ponto não é esse).
Lembro-me dos intervalos. Das amizades confirmadas nos intervalos.
Fomos o que fomos, somos o que somos em conformidade com as experiências passadas. Ao ouvir notícias mais ou menos recorrentes de agressões, faltas de respeito pergunto-me se o mundo mudou assim tanto.
Se algumas das turmas que na altura eram vistas como terríveis hoje seriam assim assim.

Rua da Amargura

Andamos por aqui e por ali,
sem saber bem porquê.
Somos levados pela melancolia,
pelo desespero,
toldados pela tristeza.
Encontraste-me ali,
quieto e só,
parado e cinzento.
Talvez tenhas pulado, falado muito,
talvez,
talvez tenhas dançado, gritado,
talvez,
mas foi o teu sorriso que me fez sair
da rua da amargura.

Até que a morte nos separe

“Até que a morte nos separe.” Lembra-se de olhar para Carla, de sorriso aberto, vestida de branco e dizer esta frase (batida).
“Até que a morte nos separe”, namoraram durante cinco anos, casaram quando ela engravidou. Teria sido uma menina, mas uma complicação no quinto mês de gravidez levou ao aborto. Terá sido esse acontecimento a abortar também o casamento, o amor deles? Não sabe afirmar com certeza. A verdade é que o sexo se tornou mais ocasional, o prazer transformou-se em enfado e, pouco a pouco, o ressentimento passou a ocupar o lugar do amor que cada um sentia um pelo outro.
Não sabe explicar porque é que continuam juntos. Já nada os aproxima, falam pouco um com o outro. Vivem juntos, mas na realidade longe um do outro.
Quando descobriu que Carla o traía com um colega do trabalho não estranhou, ainda que a descoberta o tenha magoado. “Não foi com isto que sonhei.” Como é que passamos dos sonhos à triste realidade? “Porque não nos divorciamos?” Durante as primeiras semanas, após a descoberta do caso, esperou que ela lhe pedisse o divórcio, que lhe dissesse que tudo tinha terminado, que encontrara outra pessoa. Esperou… Ainda que nada a prendesse a ele, ainda que o traísse, ela nada disse, ele esperou, sem nada dizer, também.
Enfureceu-se, quando percebeu que alguns amigos sabiam do caso. Pensou em confrontá-la. Três meses depois da descoberta, começou a fazer planos para que a morte realmente os separasse. Passou algumas horas na internet, pesquisou casos reais, tentando perceber o que correra mal em alguns crimes que terminaram com a prisão do marido assassino.
Elaborou um plano.
Um dia confrontou a mulher com o arrefecimento do casamento, chorou, “foi com isto que sonhaste”? Pediu-lhe uma segunda chance, não mereceriam uma segunda hipótese? Queria ser feliz com ela.
Marcaram três dias de férias, mais o fim-de-semana, cinco dias só para eles. Escolheram uma ilha, no meio do Atlântico, longe de conhecidos, uma outra língua, preços especiais de época baixa, clima temperado.
A escolha, que partira dele, era um sonho antigo dela. Ele já estudara percursos, caminhos, locais a conhecer, perigos possíveis. A ilha era conhecida pela sua beleza natural, mas ao longo dos últimos anos alguns turistas mais afoitos tinham conhecido a morte. Planeara três ou quatro hipóteses de a matar. Era uma questão de tempo.
Chegaram ao aeroporto pelas 11h. Ao meio-dia entravam no Hotel, só teriam carro no dia seguinte.
Carla parecia querer dar uma oportunidade ao casamento, nos dias que antecederam a viagem, passaram algum tempo falando do aborto, nunca tinham falado muito sobre o assunto, de como ela se afastara, dos porquês, de como podiam tentar recomeçar.
No quarto de hotel, arrumaram a roupa. Ele deitou-se na cama, esperando que ela acabasse de se arranjar para saírem. Ela saíu da casa de banho, com um conjunto de lingerie novo. Fizeram amor. Tomaram banho juntos e voltaram para a cama. Jantaram no quarto. Depois, ela contou-lhe, a medo, do caso com o colega de trabalho. Fê-lo com sinceridade, mostrou-se arrependida e disse-lhe que fora a conversa que tinham tido e a posterior decisão conjunta de lutar pelo casamento que a tinham feito mudado de ideias. Sem essa conversa, teria saído de casa na semana seguinte.
Ele ficou ali, embasbacado, não com as novidades, mas com o volte-face. Ela parecia genuinamente incomodada com a sua atitude, reconheceu, pela primeira vez em meses, a mulher por que se apaixonara e com que casara.
Disse-lhe que a perdoava, escondeu-lhe que sabia, e prometeu-lhe que juntos dariam a volta por cima.
No dia seguinte, passearam pela ilha, ele ia pensando no planeado, envergonhado, mas indeciso.
O terceiro dia acordou enevoado, fizeram um pequeno passeio de barco, até umas ilhotas ao largo da ilha mãe.
O cansaço físico não os impedia de voltar a encontrar-se, à noite, nos braços um do outro. Era a lua de mel que nunca tinham tido.
No quarto dia, foram até à montanha mais alta da ilha. A estrada era íngreme, a vista deslumbrante. Quando chegaram ao cume, o nevoeiro impedia-os de ver o que estava abaixo, chovia e não se via vivalma. Eram oito da manhã, tinham saído cedíssimo do hotel, num dos miradouros, João pensou no planeado, era um local perfeito, que colocara de parte pela presença habitual de turistas e vendedores. Ela estava em cima do muro, ele chegou-se por trás e colocou os braços à sua cintura. “Cuidado, não caias.”
Desceram a montanha, visitaram duas ou três terreolas, no vale, e partiram em direcção a uma praias desertas, promessa do gerente do hotel.
A praia era lindíssima, o tempo melhorara e ele aventurou-se na água. Passaram o resto da tarde ali. Lancharam perto da praia.
No caminho para o hotel, ela pediu-lhe para pararem junto à estrada. Anoitecia, o sol punha-se lentamente, lá ao fundo, no mar alto.
Sentaram-se, com cuidado, na parede que limitava a estrada da escarpa. Abaixo deles, uma vertigem escarpada. Olharam juntos o anoitecer, ele apertava-a, beijou-lhe a testa.
“Voltamos?”, perguntou-lhe já quase na penumbra. Andando já na direcção do carro, ela dera por falta da mala, colocara-a do outro lado do muro, encostada a este. Voltaram, ele apanhou a mala e colocou-se em cima do muro, de costas para ela, “não se vê nada”.
Os últimos dias tinham sido difíceis para ela. Voltara a sentir prazer em estar com o marido. Ainda o amava? Começava a acreditar novamente que sim. Aceitara a viagem como uma dupla oportunidade, poderiam tentar reatar o casamento, algo em que não tinha muita esperança, mas planeara a sua morte. Contara-lhe do seu caso, esperando fúria, dor, algum tipo de reacção, não antecipara o perdão. Pouco a pouco, fora-se habituando à ideia de continuarem juntos. Mas, no seu inconsciente tinha medo, de voltar tudo à normalidade abjecta do passado recente. Tinha medo dos silêncios que habitaram a sua casa durante quase todo o seu casamento, tinha medo de que esta promessa fosse outra vez ultrapassada. A felicidade entre eles tinha sido uma promessa vã.
“não se vê nada”
Ela via, mas era como se não visse. O futuro era uma bifurcação e ela temia que as escolhas fossem novamente as erradas. Num ataque de fúria, empurrou-o, escarpa abaixo.

SuperGods de Grant Morrison

Supergods de Grant Morrison (o título completo é Supergods. What Masked Vigilantes, Miraculous Mutants, and a Sun God from Samallville can Teach Us about Being Human) é um livro sobre comics. Confesso que não era o que eu estava à espera.
Os primeiros capítulos descrevem a criação e interpretação das Golden, Silver e Dark Ages. O que Morrison relata não é tanto a história da Indústria, embora ela esteja lá, mas a evolução dos Super-Heróis ao longo das décadas, as diversas relações entre os comic books e a cultura/política da época e a interpretação diversa dos autores de BD desses mesmos Super-Heróis.
O problema, para mim, do livro é que é um misto, por um lado uma análise do nascimento e evolução dos comic books, nomeadamente dos Super Heroes Comic books, por outro lado uma autobiografia de Morrison.
No que à análise diz respeito, Morrison, ainda que descrevendo sumariamente os autores e a indústria, enfatiza as criações, olhando-as como super deuses modernos, velhos deuses em 2D, novas roupagens para velhos mitos. O que torna interessante a leitura é a ligação que Morrison faz entre a sociedade e os comics (ia escrever livros de Banda Desenhada, mas o foco de Morrison são os Comic Books da Marvel e DC, depois da Image, ou seja, os comics Americanos, mas também os ingleses. Os franceses, por exemplo, ficam de fora neste estudo.), a constatação de que os heróis mudam consoante o espírito da época, a década de quarenta com a segunda Guerra Mundial; a década de 50 com o início da Guerra Fria, o medo da Bomba; a década de 60 com a Guerra do Vietname, o psicadelismo e as drogas, com o “boom” do feminismo alteram o carácter dos heróis, mais concretamente o espírito e contexto das histórias. Morrison compara os X-Men da década de 60, aquando da sua criação, com os afro-americanos, a segregação, o ódio racial.
A reutilização e reinterpretação dos heróis é o foco das três primeiras partes do livro e é isso que o torna interessante, a análise dos diferentes estilos, a evolução do médium, as guerras de copyrights (Marvelman continua num limbo até hoje) são alguns dos tópicos.
A partir da 3ª parte, a autobiografia toma conta do discurso, pessoalmente, e por muito que goste de algumas obras de Morrison, a análise do poder e importância das drogas, bem como experiências místicas, na sua obra foi demasiado. Pensei que estava a ler um volume evangelístico e psicadélico dos anos 60. Claro que estas experiências são importantes para se perceber tudo, ou quase tudo, aquilo que Morrison escreveu (com ênfase para Animal Man, Doom Patrol, The Invisibles e outros tantos). Mas, e ainda me faltam 6 ou 7 capítulos para acabar de ler o livro, poucas respostas concretas há para o subtítulo da obra, a pergunta indirecta consegue respostas indirectas, por enquanto, mas mais do que SuperGods, parece-me que estamos mais na presença de um demiurgo, o que não sendo algo mau à partida, poderia ter sido atenuado por uma alteração de título. Mas como disse, ainda me faltam alguns capítulos para terminar o livro.
Antes de terminar, duas notas.
1) Essencialmente, os SuperGods analisados são os das duas grandes editoras, a Marvel e a DC, ainda que com maior preponderância para a DC, aqui não será de estranhar o contrato de exclusividade de Morrison com a Editora da Warner;
2) Se é verdade que os capítulos estão ordenados cronologicamente, não é menos verdade que quando Morrison avalia as duas editoras a cronologia avança e recua, o que somando às experiências pessoais do escocês aumenta um pouco o caos temporal. Conhecendo Morrison, o problema até lhe deve agradar!

Pessoalmente, o livro é menos profundo do que estava à espera, se é verdade que o título deixaria de fora uma análise à estrutura da indústria e aos problemas de copyright (que na verdade aborda), por enquanto esta análise sociológica dos super-heróis parece-me curta. Será tolice pensar que um romance como The amazing Adventures of Kavalier & Clay de Michael Chabon dá muito mais informações sobre a indústria e criações da BD nas décadas de 30-50 do que este livro?
De qualquer modo, parece-me um livro interessante para todos os que querem perceber melhor este medium, especialmente aqueles que gostarem de trips:P

"Ojos de Agua" de Domingo Villar

“Ojos de agua”, primeira obra do galego Domingo Villar, é um pequeno romance policial (153 páginas) que nos introduz uma dupla de investigadores, o Inspector Leo Caldas e o seu colega Rafael Estevez, dupla que regressa no seu segundo romance, “La playa de los ahogados”.
O Inspector Caldas e Estevez investigam a morte de um músico de jazz, numa torre de apartamentos, na ilha de Toralla, Canido (Vigo), uma morte com requintes de malvadez, que me inibo de descrever.
Caldas insere-se na tradição de inspectores e detectives para quem a comida e a reflexão são parte indelével da caracterização, percebe-se que Villar leu Camilleri e Vazqués Montalban.
Uma das primeiras coisas que salta à vista é a opção pela ausência de títulos nos capítulos, Villar opta por uma entrada de dicionário em cada um dos capítulos, uma palavra com os seus diversos sentidos, que serve de tema para o capítulo em causa.
Sendo um primeiro romance, curto ainda por cima, Ojos de Agua é, antes de mais, uma apresentação da dupla de agentes e da Galiza, região onde a acção se desenrola.
Caldas fala pouco, é o cérebro da dupla, o seu nome é conhecido por toda a região, fruto da participação num programa radiofónico, “Patrullando en las ondas”. Estevez é o oposto de Caldas, aragonês, enviado para a Galiza de Saragoça, mostra-se incapaz de perceber ou aturar a forma de ser galega. Estevez funciona como comic relief do romance, já que, por ferver em pouca água, acaba por gritar com as suas testemunhas, quer sejam jovens ou adoráveis anciãs, com empregados de balcão e com quem mais apareça à sua frente. Imaginem como reagirá quando a investigação o levar (a ele, homofóbico) a um bar gay!
Paradoxalmente, Ojos de Agua preocupa-se mais na descoberta de um enigma (Quem matou o saxofonista) do que na definição dos personagens, na descrição do mal (como, por exemplo, Mankell, que nos coloca dentro da mente do assassino) ou da acção pela acção. Ao terminar o romance, fica-se com uma pálida noção de quem são estes dois personagens. Sabemos que Estevez tem quase dois metros e cerca de 130 quilos, de Caldas, sabemos que é calmo, que gosta de comer e que é assombrado pela memória de Alba, antiga, muito recente?, paixão.
Ainda assim, a curta duração do romance serve para descrever o espírito, os hábitos, a geografia e a culinária galegas.
Concluindo, Ojos de agua satisfaz, pelo estilo e pelo final convincente, mas abre o apetite para futuras continuações.

La playa de los ahogados já está na estante