Sentada, descansando as pernas e a alma, se é que é possível descansá-las, pensava na morte, próxima, tão próxima que lhe sentia o cheiro. Acordou com os gritos.
A sala onde estava fechada era escura, mas iluminada por frechas no telhado, não sabia se era o sol que se descobria ou se era a noite que chegava. Tinham-na deixada inconsciente, fora apanhada por um grupo de populares, que a pontapeara. Por isso afagava as pernas, ainda que todo o corpo estivesse cheio de hematomas, a pele branca era agora arroxeada, como que por milagre a cara não tinha sido atingida, por milagre pensava ela, afinal tinha sido propositado. A morte de alguém é sempre um marco, mas matar uma bruxa tem mais sentido quando se reconhece quem se queima na fogueira. Era esse o modus operandi do vigário, “apanhem-nas, amoleçam-nas, mas não as desfigurem. Todos devem reconhecer o aspecto de uma bruxa”.
Afinal o cheiro que sentia era o da lenha, pronta para a queimar e provavelmente a outras.
Chegara à aldeia há 10 anos, fugida da guerra que lhe matara a família. Fora assim que explicara a sua chegada, agora, ali, na penumbra, pensa que não é a guerra que mata ninguém, somos nós, homens e mulheres, toldados pelo medo, pelo ódio, pela violência.
Tendemos a chamar nomes ao que não conhecemos, aprendera desde miúda a arte do herbarium, com a avó velha. Fugida da guerra, atravessou montanhas e rios e teve de aprender uma nova língua. Começou a trabalhar no campo, o suficiente para lhe dar o pouco que precisava, pouco a pouco foi fazendo amigos.
Não é normal uma mulher da sua idade só. Não é normal uma mulher da sua idade tão bela, ainda para mais trabalhando de sol a sol entregue aos caprichos da natureza. Não é normal uma mulher saber tanto de plantas e ervas. É?
Nada disto por si lhe ditaria a sorte funesta. Há dois anos chegou o vigário, homem seco, tanto de carnes como de feitio. Ela reconheceu-o, mas guardou-o para si.  Estava na igreja na primeira missa, a face dele era-lhe familiar, mas não conseguia perceber de onde. Ele lia I Coríntios 13 e quando gritou “Sem amor” ela empalideceu. Há onze anos ouvira aquela mesma voz, comandando um grupo de homens, mandando que estes exterminassem crianças e velhas. Saíu à pressa, sob o olhar de todos.
Naquela noite não dormiu, via a cara da mãe e dos irmãos, do pai já não se lembrava. “Será que o padre se lembra de mim?”
No início pensou que não, que estava incógnita. Talvez o estivesse, talvez o padre tenha perguntado por ela, talvez tivesse sabido de onde ela viera, alguém poderia ter contado o que ela contara quando chegou à aldeia. Deixou de ir à igreja, temerosa, temendo o homem não o Senhor.
Há poucos meses a caça às bruxas tinha começado, pensou em ir-se embora, mas poucas vezes se cruzara com o diácono e nas poucas vezes em que acontecera ele tinha sido simpático, nada lhe indicava que ele sabia quem ela era. Fugir, outra vez? Para onde?
Da rua chegam-lhe gritos, urros, o murmurar de uma multidão. A porta abre-se, reconhece o homem que a agarra com maus modos, ódio e talvez temor.
“Jan, não. Porquê?”
Ele agarra-lhe nos cabelos, puxa-os, quase que a vira ao contrário e puxa-a pela porta. Consegue perceber, entredentes, a palavra bruxa.
Esperneia, grita por misericórdia, mas é levada, com a ajuda de mais dois homens, em direcção de uma pilha de madeira, com um tronco no meio. Consegue ver, de relance, duas fogeiras já acesas, com dois corpos, parecem duas bonecas, queimadas. O cheiro a carne assada dá-lhe voltas ao estomago, num misto de fome e agonia.
Atam-na à fogueira, o som é ensurdecedor. Os gritos que, por momentos, pensou que fossem só dela são de toda a aldeia. Crianças, mulheres, velhos, homens, gritam como animais, desejando a morte e o fogo dos infernos.
Chora, grita por clemência, diz-se inocente.
Um homem pequeno que não conhece aproxima-se com uma tocha acesa, que aproxima da madeira. Começa a sentir o calor das labaredas, tenta soltar-se, “Que Deus tenha piedade da tua alma”,  ouve o padre dizer na sua voz de homicida, mas de ar compungido. O povo cala-se, benze-se e parece olhar para os céus, pedindo a misericórdia divina.
Um troar enorme parece abrir a terra ao meio, depois, por uma milésima de segundo, um raio ilumina ainda mais o dia que nasce.
Perante o ar compungido do público, começa a chover sem que haja nuvens.
“Bruxa! BRuxa! BRUxa! BRUX…”
As chamas apagam-se, a praça fica vazia. Ela pensa na morte e em Deus, engalfinhada pelo fumo negro da madeira molhada.
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Portista

Desde pequeno que sou do Porto e muito levei na cabeça por sê-lo.
Ser do Porto na margem sul era quase uma novidade há 25-30 anos. Numa casa com um portista, um sportinguista e um benfiquista era motivo para algumas brincadeiras, ainda que o irmão, benfiquista, sempre tenha sido mais gozão do que eu ou o meu pai. Lembro-me de o meu pai o mandar para a cama, no célebre 6-3 do Benfica ao Sporting, porque não se calava, picava, gozava e foi, mas vinha à sala sempre que o Benfica aumentava a vantagem.
Admirei, como admiro, alguns jogadores do Porto. Jorge Costa, Madger, Baía, Aloísio, Rui Filipe, Kostadinov, outros…
Uma das maiores mágoas, enquanto adepto, foi a destruição, por parte de alguns treinadores, em conivência com a direcção, daquela dupla mortífera, Domingos e Kostadinov. Nunca percebi, continuo sem perceber. Sempre vi Domingos como um símbolo do Porto, mas os “empurranços” para Espanha, a forma como o aceitaram de volta, como nunca voltou a ter um papel preponderante na equipa, a forma como acabou a carreira. Não gostei. Sempre simpatizei com Domingos, continuo a simpatizar, já percebi que continua a ser persona non grata para Pinto da Costa, que nunca o elogiou como treinador como elogiou, por exemplo, Jorge Costa.
Sou do Porto, mas não me esqueço e há uma parte de mim que gostava de o ver ganhar a Liga Europa, mesmo!
Mas só daqui a uma semana se verá quem sairá vencedor.

Feira do Livro

Convenço a esposa (feliz do homem que não precisa de convencer muito a mulher amada) a darmos um pulo à Feira do Livro. Dia de semana à noite, dia de Festival da Canção (eu prefiro os Festivais de Cação, mas pronto!), noite fresca, pouca gente no recinto, enfim, a Feira convida ao passeio.
Já lá vão uns aninhos desde que participei num dos stands, mas olhando para a feira ontem, a evolução tem sido negativa.
A penumbra é a qualidade que mais me apraz realçar. Caminhando entre as barracas, caminhamos na penumbra, talvez a imagem seja a de que a cultura traz luz, já que a única luz é a do interior de cada um dos stands. Talvez a lição seja a de que os amantes de livros vivem na penumbra, ou de que, pelo menos, gostam de passear entre ela, escondidos, meio envergonhados. Não sei, decidam vocês.
Para mim, que tenho mais de um metro e oitenta, as laterais dos stands não apresentam problemas de maior, para a mulher, um pouco mais baixa do que eu, a altura das laterais impedem-na de ver os livros que “oferecem”, vá lá que algumas colocam uma escadinha, mais uma vez, se calhar, a moral é que os leitores querem-se altos.
Depois há uma iniciativa interessante, mas quando a esmola é grande o pobre desconfia, chama-se hora h, deduzo que de Happy Hour, mas poderia ser traduzida para português como Hora uH? Explico, na última hora ou meia hora da Feira, os livros com mais de dezoito meses são colocados com pelo menos 50% de desconto, nos Stands Aderentes. Do que vi ontem, apenas uma pequena parte dos stands aderiram, e mesmo dessa pequena percentagem somente alguns obedecem ao espírito da iniciativa, em alguns há um ou dois livros a 50%, ou mais, de desconto. Penso que outra ideia da Hora H seria possibilitar às editoras o escoamento de livros mais antigos, mas das duas uma, ou as editoras já os têm a preços reduzidos, ou o que têm à venda fazem parte do catálogo mais recente. 
Para quem como eu  trabalhou há alguns anos, e durante alguns anos, na Feira, a actual divisão em feudos estranha-se. Numa das ruas, ao cimo, temos o feudo da Leya, na outra rua, temos o feudo da Babel, claustrofóbico, e ao lado deste o grupo de que fazem parte a Bertrand, Círculo de Leitores, Quetzal, entre outros. Não gosto destes feudos, por um lado porque se colocam à parte, é um círculo restrito, com seguranças e caixas registradoras específicas, fazem aparato com, quase sempre, as últimas novidades, poucos títulos mais antigos são os que conseguimos encontrar. É a mentalidade de hiper mercado que impera, a mim não me agrada.
Com tantas críticas, pode-se deduzir que não gostei da visita, dedução limitada à apreciação da Feira e não tanto ao que dela trouxe.
A noite acabou por se saldar, antes da leitura, num sucesso. Encontrei um Dias de Melo, Mar pela Proa; trouxe dois Ruben A.; Silêncio para 4 e O Outro que era Eu; comprei também dois volumes da colecção Folhas da Cinemateca, um sobre Howard Hawks e outro sobre Ingmar Bergman; mais um volume de homenagem a José Álvaro Morais, provavelmente o meu realizador português de eleição, destaco Zéfiro e O Bobo; deu ainda para comprar Los Libros Arden Mal de Manuel Rivas, autor galego que descobri há pouco tempo.
Podia perorar ainda um pouco como num país pequeno se desconhece e se dificulta a descoberta da obra de Dias de Melo, autor que descobri em São Miguel, o ano passado, mas que é praticamente desconhecido no continente, mas fica para outra altura.

Leituras

Sempre fui compulsivo, embora me pareça que não é essa a imagem que a maior parte das pessoas tem de mim, mas posso estar enganado.
Com a compra e utilização do Kindle a compulsividade tem-se manifestado, ainda mais, na intermitência de títulos que vou lendo (para além dos títulos, também vou lendo as páginas que vêm a seguir. Adiante…).
Nunca consegui ler somente um livro, neste momento tenho demasiados a meio, no início, quase no fim.
Tenho O Assédio de Pérez-Reverte no início, tenho dois Bolaños no início (acho que vão continuar durante algum tempo), mais uns quantos. Mas há alguns que vou lendo devagar porque quero que se mantenham durante algum tempo. Os soldados de Salamina, de Javier Cercas; Todo es Silencio de Manuel Rivas; Um adeus aos deuses, de Ruben A. e Onésimo, Português sem Filtro, de Onésimo Teotónio Almeida são exemplo desta velocidade lenta que tento manter.
Ruben A. e Onésimo são dois dos meus autores/escritores favoritos, Ruben A. pela utilização da linguagem, pelas imagens, onomatopeias que cria, por mostrar que a língua escrita é tão viva como a falada, por vezes mais; Onésimo pelas histórias e anedotas, pelas críticas que faz, pelo humor.
Tendo lido pouco mais de 50 páginas, em castelhano, guardo de Rivas uma capacidade de me fazer imaginar o que escreve, juntando a cultura popular à vivência numa localidade pesqueira. Cercas leva-me a uma busca pelo facto, pela verdade, pelo desconhecido.
Vou lendo diversos estilos, diversos âmbitos, diversos modos de escrever talvez na ilusão de ler de formas diferentes, de apreender experiências diferentes ou de forma diferente.

Mais um regresso

Como acreditam os cristãos, a morte não é o fim, parece confirmar-se com este blog, mais uma vez volto a esta morada no éter, bastantes meses depois da última visita.
Ontem pensava em quanto me apetece escrever, escrevinhar, voltar a ter um cantinho meu, com todas das minhas idiossincracias escarrapachadas neste fundo, agora negro (somente fruto de um gosto, não se trata de um augúrio, pelo menos consciente).