Há coisas que me irritam solenemente. Demoraria muito tempo a enumerá-las, muito por culpa da fraca memória. Fiquemo-nos por uma. Há um produto qualquer (livro, filme, álbum, etc) que tem sucesso. Os autores de outros produtos similares, ou nem tanto, são logo apelidados como o próximo qualquer coisa.
Andava agora a ver se comprava para as férias o livro de Jo Nesbo que me falta. Uma das capas que vi na Amazon, dizia “O próximo Stieg Larson”. Porquê? Porque é nórdico? Estamos a comparar dois autores de talento, mas completamente diferentes. Ok, os livros de ambos têm um ritmo alucinante, há violência a rodos, normalmente, mas não só, contra mulheres. Mas só…
Eu não preciso que me vendam Nesbo, mas quando o comparam com Larson a única vontade que tenho é de bater na mente iluminada que se lembrou disso.
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João Carlos Silva é o autor da moda.
Escusa o leitor de ir procurar na internet, este texto é ficção e corre o risco de encontrar um João Carlos Silva que aparente ser o personagem e isto causará decerto problemas de interpretação. – O Narrador.
Escreveu, aos trinta e cinco anos, cinco livros. Dois ganharam prémios, quatro são bestsellers, um é incompreendido pelos fãs, ainda que objecto de culto por parte daqueles que não gostam de João Carlos Silva.
João não gosta de multidões, é tímido e prefere não discutir com estranhos aquilo que escreve, por isso encontra-se, agora, num inferno muito próprio, uma Feira do Livro.
É tão branco que poderia ser herói de uma dessas ficções actuais sobre vampiros. Claro que a pigmentação que possui é fruto da estadia longa e frutuosa em locais fechados, nomeadamente o seu quarto e umas quantas bibliotecas. Poderia encontrar o seu nome no baixo-assinado contra a Biblioteca Nacional, se fosse de carne e osso. – O Narrador
Está sentado ao lado de uma das barracas da editora, com o seu editor ao lado. Está quente, 35 graus, sem uma brisa que o alivie.
Só para explicar que as minhas frases encontram-se a negrito não para me evidenciar, podia ser, talvez seja essa a razão a um nível inconsciente, mas para vos dar a oportunidade de as evitar, lendo o texto sem os meus apartes. Escuso de assinar novamente, se leram as dua notas anteriores sabem que sou O Narrador.
Bebe um golo de água, já morna, e levanta a cabeça. Uma mulher, morena, tanto a nível capilar como epidermicamente, lindíssima, sorri-lhe e estende-lhe os cinco livros. João olha para ela, menos demoradamente do que quereria. 
Qual o seu nome?
Valquíria.
João pára um pouco. Sorri-lhe e responde.
Morri e vou para Vallalla?
A moça olha para ele com um ar incompreensível. João pensa se vale a pena explicar a piada e desiste.
Não os dedique a mim, são do meu irmão e do meu pai. Eu só vim para o ver ao vivo.
Explica-lhe quais os nomes a colocar em cada um dos livros, João termina as dedicatórias e sem pensar, e aproveitando a situação, dá-lhe um cartão.
Envie-me um mail, podemos falar sobre as Valquírias.
Ela ri, um riso que a João parece irritante e oco, mas leva o cartão.
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Poderia demorar um pouco explicando a presença de Valquíria nos pensamentos de João, no resto daquele dia; poderia, também, evidenciar mais alguns aspectos da personalidade de João, vincados nas suas acções ou inacções durante a sessão de autógrafos – a forma como se engasgava quando alguém lhe perguntava sobre um dos seus personagens ou quando alguém (na verdade um indivíduo de fato, gordíssimo e a suar por tudo quanto eram poros) tentava retirar algum ensinamento esotérico que simplesmente não está no livro). Poderia, posso mesmo, mas prefiro ir atrás de Valquíria, que por sinal pára em mais duas bancas, as duas de carácter esotérico/duvidoso, onde compra três livros, que me abstenho de nomear.
Valquíria chega a casa com um sorriso nos lábios. Entrega os livros ao pai e ao irmão, dirigindo-se ao quarto. Retira o cartão de João de um dos sacos. Senta-se ao computador e escreve um mail, onde demonstra toda a sua admiração, não para com o escritor, mas para o homem que este é.
Claramente, Valquíria é daquelas mulheres bonitas com queda para homens apagados, talvez porque sobressaia ainda mais ao lado destes, talvez porque sofra de miopia ou dioptria (nunca sei qual), se não das duas.
Está para ir buscar um dos livros que comprou quando nota que recebeu um mail. Abre-o.
“Desculpa, mas axo que t enganaste no mail, eu n escrevo, profissionalmente, p menos. Mas és gira, gostei bué da tua foto. Isto não é uma brincadeira, pois não? Envio-te uma foto minha também. Se quiseres podemos ir beber um copo.”
Valquíria abre o ficheiro e pasma perante um tipo mais moreno que ela, com ar de surfista.
Pode sofrer de miopia, mas não é parva. Sair com um surfista também é de valor. Quedo-me por aqui. Para quê avançar mais na narrativa, se ela já saiu dos eixos que João terá imaginado naquela tarde? Valquíria encontrou-se com o surfista. João esperou pelo mail. Desesperou até que descobriu que os cartões que tinha feito tinham um erro. Faltava um ponto a dividir o Carlos do Silva. Depois voltou a fechar-se em casa e escreveu um livro, uma história de amor sofrida, mas que acaba em casamento. A ficção serve também para isso, criar ilusões.

O Caso Jane Eyre

E quando um livro foge daquilo que esperamos? E então?
Pelo que lera e me tinham dito esperava que O Caso Jane Eyre de Jasper Fforde fosse mais situado na trama do que é, o que convenhamos não é mau.
Somos introduzidos a um Reino Unido diferente do que estamos habituados, ou melhor, estamos num universo alternativo, em que algumas coisas se parecem com o que conhecemos e outras não. A guerra da Crimeia, por exemplo, ainda subsiste e tem papel importante na acção.
Há um sem número de Departamentos dentro da Rede de Operações Especiais, sendo que desconhecemos o que faz a maior parte deles. Quinta-Feira Seguinte é a heroína, pertence ao OE – 27 (Detectives Literários) e vai tentar impedir que o livro de Jane Eyre seja reescrito como o conhecemos.

É esta, sumariamente, a trama, sumariamente e de uma forma bacoca e simples. Muito mais acontece, gente que viaja no tempo, traças que criam coisas ou ajudam pessoas a entrar em livros.

Há pouco escrevia no Facebook que não sabia se tinha gostado muito ou pouco, sei que gostei, talvez porque por uma das descrições tivesse imaginado algo completamente diferente e porque estou à espera de ler os seguintes para formar uma opinião mais coerente.

Aquilo que fica por enquanto é o amor pela literatura e o gosto de imaginar a história e os finais de algumas obras. A oportunidade de discutir a literatura, amarrada quase por completo (a discussão) nas salas de aulas das universidades. A incompreensão pelo final  (as opções do autor) de determinada obra e a oportunidade de o leitor ir reescrevendo a seu bel-prazer aquilo que lê.

Há imensas formas de começar um texto. Alguns exemplos.
Vejo futebol cada vez menos. Sem vontade de pagar 25 Euros mensais por um pack de canais desportivos, quedo-me pelos jogos que vão dando na televisão pública. As arbitragens não ajudam, as fracas prestações do meu clube o ano passado também não. 
Vejo cada vez mais futebol, mas futebol americano. Sim, a transmissão chega a demorar mais de três horas, mas normalmente gravo e vejo os jogos depois. Parece-me um jogo mais justo, há câmaras, há repetições, mas não são feitas a eito. Há contacto físico, os tipos chocam uns contra os outros, mas continuam de pé, alguns. Fartei-me de ver gente caída no chão depois de um sopro à espera que o árbitro mostre um cartão.
Desconfio de treinadores que têm como primeiro nome o título de Professor. Fiquem vocês com o Professor Queiroz e o Professor Jesualdo. Gente que fala muito, característica própria de um professor (sei por experiência própria), mas que falha no momento de acertar. Gente que em vez de ter jogadores para determinada posição faz adaptações,  de repente e ostracizam aqueles que falham. Gente que parece que só teve aulas de defesa, o objectivo das suas equipas é não sofrer, ou sofrer poucos, golos. Esquecem-se que o jogo ganha-se marcando golos. Gente que quando acerta, esquece.
Não gostava de Scolari, perdão, não gosto de Scolari. Como também não gosto de Queiroz. E evito fazer comparações. Queiroz foi para a África do Sul querendo imitar Mourinho, coitado. Defendeu-se em todos os jogos, menos contra a Coreia do Sul. Portugal fez um dos melhores jogos dos últimos 4/5 anos. Podem dizer que a Coreia era uma equipa fraca, concordo, mas jogámos contra outras equipas fracas, nesse período,  e não fizemos nada parecido.
Empatámos (não em termos de resultado, mas em termos exibicionais) contra a Coreia, contra o Brasil e afogámo-nos contra a Espanha, porque simplesmente não jogámos à bola. Um treinador que se gaba de ter treinado Ronaldo dia e noite, durante três ou quatro anos, devia saber onde, como e de que forma ele rende mais. Mas não! Um treinador devia levar e meter um trinco, não o Pepe, com seis meses de paragem e que é, para mim, um central interessante, mas um trinco fraquinho.
Queiroz gaba-se de ter perdido por um só golo contra a Espanha. Um treinador que diz isto, com a equipa que tem e jogando como Portugal jogou devia levar uma carga de porrada. Como Jesualdo, fala muito, a sua equipa é sempre a melhor, mas dentro de campo acobarda-se, tem medo, não joga nada.
A vitória contra a Coreia foi a única coisa positiva deste Portugal. Mas nem na vitória Queiroz soube aproveitar a equipa. Inventou contra o Brasil, continuou a senda contra a Espanha.
Infelizmente, acha que fez um trabalho meritório.