Lost – Seis anos depois

Spoiler Alert
O texto que se segue pode desvendar alguns dos mistérios ou factos que aconteceram ao longo das séries, se te queres guardar para ver tudo sem saber parte da verdade, não leias.
Spoiler Alert

Lost terminou no Domingo, ou na madrugada de 2ª Feira, como preferirem e dependendo do país em que viram este último episódio.
Em primeiro lugar, quero explicar o meu relacionamento com a série. Tornei-me fã na primeira season da série, perdi um pouco o interesse na segunda e deixei de a ver ao 6 episódio da 3ª. Vi um resumo da 3ª season e recomecei a ver a série ao 5 episódio da 4ª e de lá para cá não deixei de a seguir fielmente. A razão do semi-abandono foi a sensação da série não avançar, durante alguns episódios achava que somente os últimos 5 minutos da série interessavam realmente.
No entanto, os produtores nunca mentiram, para eles, e para nós, quer queiramos ou não, o que interessa, o cerne da questão é a viagem. It’s not about the destination, it’s about the journey. Miguel Esteves Cardoso, ontem no i, reclamava que Lost era uma história mal contada, consigo perceber a crítica, mas penso que o objectivo da Lost nunca foi contar uma história, foi contar várias, a nossa interpretação do que era a história estava errada, com o último episódio percebemos o tema de Lost e todo o tempo perdido com as histórias pessoais de cada uma das personagens.
Claro que nos podemos queixar das perguntas que ficam sem resposta, mas se por um lado, as questões levantadas ao longo das seasons eram uma maneira de nos obrigar a ver a série, por outro, somos impelidos a encontrar explicações. Lost nunca tentou explicar tudo, talvez por isso, tenha tido sucesso. É irónico que seja uma série de televisão que nos ponha a pensar em questões filosóficas, religiosas, entre outras.
Lost obrigou os fãs a envolverem-se em debates sobre aquilo que tinham visto e fê-lo como poucas o conseguiram ou conseguirão fazer.
Lost trouxe novas formas de contar histórias à televisão, começámos com os flashbacks, passámos para os flashforwards, depois para as viagens no tempo e terminámos com algo que parecia uma realidade alternativa.
Acrescente-se a isto os mistérios, respondidos ou não, os avanços e recuos na história principal, e parece que o maior desafio seria criar a partir de todos estes artifícios um objecto único e coeso. Desafio, para mim, cumprido.
O que é a ilha? O que é a luz amarela? Porque é que a ilha é importante para o resto do mundo/universo? Se for destruída, todo o mundo perece com ela, porquê? Estas são algumas das perguntas não respondidas.
Lost deixa imensas dúvidas, questões não respondidas, mas a viagem dependia delas, foram as questões que nos levaram a ver semana após semana, season após season a série. Depois de ver o último episódio, fica-se com uma noção de conjunto, que agradará mais a uns do que a outros, mas ficamos com a sensação de que aquelas histórias terminaram, mas as questões mantêm-se. Isso é mau? Quantas perguntas não respondidas ou respostas não ideiais deixamos atrás de nós? Conseguimos responder a todas as questões? Quantas considerações vamos criando, quantas realidades, ao longo do nosso percurso. As nossas dúvidas eram as dúvidas das personagens, o problema é que com o final elas recebem mais respostas do que nós.
Lost termina numa igreja, que por acaso tem uma míriade de símbolos religiosos, não necessariamente cristãos, há uma tentativa de colocar ali não uma, mas várias religiões, dando a ideia de que estamos perante o depois da morte, ideia concretizada com os últimos minutos e a última cena na igreja. O final de Lost é a vida eterna, no céu ou não.
“Guys, where are we?”, pergunta Dominic Monaghan ou Charlie no primeiro episódio.
Nunca saberemos concretamente o que era a ilha, pelo menos com base nestas 6 épocas, mas o que ali fizeram, o que ali lhes aconteceu teve um papel preponderante no seu futuro “eterno”. A ilha sempre foi um motivo, não um mistério, um motivo para desenvolver a História, um motivo para prender o espectador.
Quando encontramos Jack na igreja todos já estão mortos, já estão no depois da morte. Jack conversa com o seu pai:
Jack: Where are we, Dad?
Christian: This is the place that you all made together so that you could find one another. The most important part of your life was the time you that spent with these people. That’s why all of you are here. Nobody does it alone, Jack. You needed all of them. And they needed you.
Jack: For what?
Christian: To remember. And to let go.
Jack: Kate … she said we were leaving.
Christian: Not leaving, no. Moving on.
O sub-texto é delicioso, os autores da série estão-nos a dar dois conselhos, Remember and let go e Moving on; mas a mensagem imediata para Jack é que todos estão mortos, noutra frase de Christian a Jack somos informados que alguns morreram antes de Jack, outros depois de Jack.
Todos ou quase todos os personagens tinham “pecados” por expiar, não eram perfeitos. Kate tinha morto a sua melhor amiga, Jack tinha falhado no seu casamento, Sayid não consegue ultrapassar a tortura infligida a prisioneiros de guerra, etc. As personagens que ali se encontram tentam redimir-se (inconscientemente) ou pelo menos têm uma oportunidade última para o fazer e fazem-no em conjunto, com mais ou menos conflitos, com diversos inimigos, de diferentes naturezas – humanos, outros que ali estão há mais tempo e o falso Locke, inimigo (quase) mitológico, inimigo sobrenatural.
No último episódio, mas também ao longo das diferentes seasons, encontramos o perdão como tema, neste último episódio é Ben que pede desculpa a Locke, mas ainda que perdoado, não se sente preparado para estar com os restantes membros.
Percebe-se que muitas das nossas questões (iniciais ou finais), a ilha, o urso, o monstro de fumo, as viagens no tempo foram veículos para explorar a condição humana. Terá sido o purgatório aquilo a que assistimos? Essencialmente assistimos a homens e mulheres viverem uma série de aventuras e desventuras buscando a redenção, baseadas nas realidades da condição humana: vida, morte e vida eterna. Ou o purgatório terá sido a realidade alternativa desta 6ª season? São dúvidas e questões em aberto, que ficam para depois, a edição em dvd traz mais 20 minutos com a promessa de responder a algumas questões.
Lost termina em beleza, criando um final coeso e unificador, ainda que não desvendando todas as questões essenciais para cada um de nós. Lost termina mostrando o valor da amizade, do sacrifício e da unidade.
Quanto a vocês, não sei, mas eu gostei bastante.
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Silva e Pombo – 14 de Maio

14 de Maio – 6ª Feira
14horas
O dia está quente, não tão quente como fará, esperam, daqui a dois meses, mas o suficiente para os fazer esquecer da chuva e do frio. O inverno foi rigoroso mas, apesar do calendário dizer que já estão na Primavera, o clima parece até aqui desdizer o calendário.
Aproveitando o sol,e o facto das aulas terem terminado à uma e meia, Daniel convida-a a darem uma volta à praia. Escolhem a Lagoa ou o Meco como destino. A meio caminho, ela diz-lhe para pararem, ele dirige a mota para as árvores onde costumava “piknicar” com os pais quando era pequeno.
Ela sai da mota e encosta-se a uma árvore com um ar lânguido.
14 de Maio –6ª Feira
23h30
Pombo coça a cabeça, cansado e tentando antecipar o fim do turno, a mais de oito horas de distância.
Encontra-se perto da paragem da Arrentela, na marginal, antes do Eco-Museu. Paragem auto-stop, numa noite de sexta-feira, trabalho não há-de faltar. Ao seu lado, Silva acende um cigarro. Do outro lado da estrada, mais três colegas.
– Que noite. Já viste? Devem estar, o quê, uns 24 graus?
Pombo acena, a cabeça pesa-lhe. Já tomou três comprimidos para a dor de cabeça, mas esta subsiste, sabe que o mal está nas noites mal dormidas das últimas duas semanas. Há ainda pouco trânsito, por isso, antes de começarem a operação, Silva quer fumar um cigarro.
Quando este termina de fumar, começam a mandar parar carros. Não gosta desta tarefa, Silva muito menos. Eles os dois estão ali somente para prevenção, conferir limites de velocidade, taxas de alcoolemia e se os seguros estão em ordem ou não. Ao menos a noite está agradável. E o trabalho será menos pesado do que o dos colegas do outro lado da estrada, já que esses mandam parar os que voltam do Seixal.
Pombo cresceu em Paio Pires, Silva conhece meio mundo, há medida que vão pedindo aos condutores para parar, vão reconhecendo caras e encontrando amigos. Tanto um como o outro, cumprem o que lhes é pedido, mas acrescentam um ou outro pedido de desculpas, pelo tempo perdido, pelo transtorno.
Um dos que manda parar andou com ele à escola, comenta a noite que está e acrescenta que ouviu na rádio que Portugal tende a ter um clima tropical. Brasileiros já temos, diz, com um sorriso, ao menos que tragam o clima com eles.
Silva olha para o relógio.
-Pombo, fazemos uma pausa? Há uma hora que não fumo um cigarrito.
Fazem a pausa, Silva pergunta-lhe como vai a dor de cabeça, Pombo esqueceu-a, com o trabalho.
-Está melhor, já passou.
Mais umas semanas e começam as festas, no Seixal, na Torre e depois em Paio Pires. Pombo tem pena que não lhe dêem férias nessa altura. A confusão é muita e as noites ocupadas a passear pelas Feiras, nomeadamente pelas do Seixal e Torre da Marinha. Aquelas duas semanas, felizmente com uma de intervalo, cansam-no e desgastam-no. O som dos altifalantes, a música, os pequenos furtos, as bebedeiras, as ocasionais lutas, combinadas ou não, principalmente na Torre da Marinha.
-Silva, vá, estás despachado, ou quê?
Silva apaga a beata, aproxima-se da via e manda parar o carro, vira-se para Pombo e quase em sussurro realça a grandeza de Deus. Pombo estranha.
Mal o carro encostou à esquerda, Silva reconheceu a cara do GNR que o multara quase um mês antes. Tentou não sorrir, mas não conseguiu.
-Boa noite, senhor condutor. Os seus documentos e os da viatura, por favor.
O condutor parece atrapalhado, reconheceu-me, pensa Silva. Confere os documentos, tudo em ordem, mas um brilho no olhar do outro leva-o a pedir que saia da viatura e sopre para o balão. O agente da GNR hesita, olha para Silva e começa a balbuciar alguma coisa, Silva interrompe-o.
-Algum problema, senhor condutor?
-Sabe, Agente Silva, sou capaz de ter bebido alguma coisita a mais.
Silva mede o tom e o cinismo, acrescenta um sorriso e responde-lhe.
-“ Os agentes da autoridade têm de dar o exemplo, não é?”
O GNR, com ar irritado, sai do carro. Silva passa-lhe o balão.
– Sabe como funciona, certo? Ou quer que explique? É só inspirar e soprar até que lhe diga para parar.
Pombo observa a cena à distância, sem se aperceber da identidade do condutor. Estranha a postura do corpo de Silva, parece divertido, há algo aqui que não bate certo, pensa. Manda parar outro carro.
Silva termina o auto e pede ao GNR que lhe pague os 120 euros da multa, em dinheiro ou cartão. A fúria nos olhos do condutor é visível. Pombo estranha a demora do colega, está com aquele condutor há quase 25 minutos. Finalmente, ouve Silva desejar uma boa noite ao condutor. Desconfia que o tenha multado por excesso de álcool, estranha ainda mais que o tenha deixado ir. Silva pega no telemóvel, fala durante uns segundos e Pombo percebe que está a transmitir os dados do veículo. Vê-lhe um enorme sorriso.
– Para quem não gosta de passar multas, estás muito satisfeito.
– Era o Gê Nê RÊ que me multou em Paio Pires . Vomitou 120 euros e com sorte ainda vomita mais outros 120. Telefonei ao Chaves, estão ali no Alto das Cavaquinhas, tinham-me mandado uma mensagem para o telemóvel, houve um acidente, dei-lhe os dados do veículo, se passar por ali, é multado outra vez. Por isso é que o deixei ir. Não estava assim tão enfrascado, mas o suficiente para o balão se queixar.
– Tu às vezes… Mas mandaram-te mensagem porquê?
– Foi há coisa de 10 minutos, para irmos dar lá uma mãozita. Mas já não é preciso, já está no rescaldo.
Pombo sorri, a vingança fria é um prato delicioso.
14 de Maio
23h45
Os pais estranharam que Daniel não tenha saído, ainda para mais, numa sexta-feira à noite.
Daniel está sentado na cama, em frente à televisão, onde ganha 3-0 ao Real de Madrid com o seu SCP. Joga PES.
Ouve o telemóvel apitar com o tom de chegada de mensagem. 80 minutos de jogo. Já te dou a atenção devida. Nos dez minutos, menos do que dois minutos reais, que faltam o telemóvel apita mais duas vezes.
Tira o som da televisão e começa a ler as mensagens.
MSG1: De certeza k não queres vir beber1copo?Tamos no Seixal. Carlos
MSG2: Sabes da Filipa? Tem o tlm desligado. Susana
MSG3: A TMN oferece-lhe msgs grátis…
Apaga a última mensagem antes de a acabar de ler.
“Porra! Porra! Porra! E agora?”
Manda mensagem à Susana a dizer que não sabe nada da Filipa. Telefona para o Carlos. De início percebe que o amigo não o consegue ouvir. A chamada demora mais de 20 minutos, quando desliga a chamada, fica a pensar nas palavras do amigo. “Não te preocupes. Deve estar lixada contigo, só isso!”
Apaga a luz, mas passa a noite acordado, sem conseguir adormecer.A escuridão não o acalma, nem o adormce, bem pelo contrário, tolda-lhe os sentimentos e não pára de pensar para si mesmo, “ O que é que eu fiz? Filipa, onde é que estás?”
Liga-lhe várias vezes, mas o telemóvel continua desligado.

Avulsos

Vou sair agora da Escola, a ler material para um trabalho que também será sobre criatividade. Pelo menos o tema tem-me deixado desperto. Ficava aqui mais uma ou duas horas, estou com pica, mas quedo-me. Espero que a vontade que agora tenho fique suspensa até amanhã.

Abri o site da Bola e vi uma frase do ou sobre o Paulo Bento, com FCPorto em cima, no canto esquerdo. Acho que deve ser a escolha de Pinto da Costa, mas parece-me que será outro Jesualdo (embirra com jogadores, só tem um esquema táctico, fala demais. Se for ele, o que fará ele com Varela? Colocará Rolando à esquerda, ou Fernando? Parece-me que cada vez mais fico órfão do futebol americano, mas esse só começa depois do verão e em Fevereiro termina!!!).

Puseram-me a dar prémios no Sábado, a mim, que pouco jeito tenho para aquelas coisas, a mim que preciso de pensar e preparar discursos. Pelo menos, não implodi com a coisa.

A semana está no início, mas tenho de preparar testes, trabalho e tese para o mestrado, reunião para sábado e já comecei com outras ideias para outros projectos.

Vou-me… até logo.

Pombo e Silva (4)

Cansado, abre a porta de casa. Entra, fecha-a ao trinco, hábito ganho em casa dos pais. Vai até à cozinha, abre uma garrafa de água com gás e bebe-a em três tragos, sentado no sofá, fazendo zapping com o comando na mão. Levanta-se, colocando a garrafa no chão, vai até à casa de banho e põe água a correr. Volta à sala, senta-se novamente no sofá. Está cansado, sente o corpo tenso, espera que a água quente o alivie da sensação.
Desliga a televisão, coloca um cd na aparelhagem. Ao seu lado não mora ninguém, mas já são onze da noite, por cima e por baixo continua a ter vizinhos, mas nunca gostou de ouvir música muito alto.
Ao primeiro riff de bateria, sente alívio, imagina o que Silva diria da barulheira que está a ouvir, a voz de Bruce Dickinson eleva-se, as guitarras juntam-se e o bater dos sticks é cada vez mais rápido. Há coisas que não mudam com a idade. Pombo ouve todo e qualquer tipo de música, mas volta recorrentemente ao metal. Coisa estranha para Silva, que o obriga a ouvir outro tipo de música quando está com ele.
Apaga a aparelhagem quando começa The Trooper. No escritório, vai à prateleira dos livros não lidos e pega num romance policial nórdico já iniciado. Pensa no paradoxo da situação. Na Suécia há uma média de trinta mortes por homicídio anualmente, o livro que tem na mão, The Man from Beijing, deve ultrapassar essa média nas primeiras 30 páginas. Desconhece, anda para investigar há dias, quantas mortes haverá por ano em Portugal, mas faltam-nos romances policiais para equilibrar a realidade.
A banheira ainda tem pouca água, mas ele coloca-se lá dentro, a condensação tapa o espelho da casa de banho, ele aguenta, abre o livro e remeça a leitura onde o deixou. Trinta minutos depois, passa o corpo, primeiro, por sabão, depois por água fria.
Já com pijama vestido, prenda da mãe, coloca um pouco de Dimple num copo. Está na varanda, sentado numa cadeira de plástico, onde gosta de ver as luzes de Lisboa e Barreiro, ao longe. A noite está fria, mas o álcool aquece-o, gosta de terminar a noite bebendo um copo de whisky ou aguardente, vício começado com o trabalho por turnos, depois de um dia de trabalho não há nada que lhe agrade mais do que descansar o corpo e a mente com um copo na mão, normalmente o único álcool que ingere em todo o dia.
São poucas as vezes que o podemos ver como está, sentado na varanda, de copo na mão, sem phones nos ouvidos ou um livro na mão. Pombo perde-se dentro de si, imerso nos seus pensamentos ou não pensando em nada, acordado aqui a ali do torpor por um cão, pássaro ou pelo ruído do motor de um dos carros que passa na estrada em frente. Pensa no que Silva lhe disse, na mulher que o atendeu à hora de almoço, da ausência de luto, mas na permanência de uma certa tristeza que agora parece vislumbrar. Nunca tal hipótese se lhe pusera, dominou a língua, mais rápida que a mente, para evitar fazer algum comentário despropositado. Chegou ao café em hora morta, ao contrário do que àquela hora é costume o estabelecimento estava quase deserto, ele fez o pedido e alguns momentos depois estava a provar a pizza. Maria José sentou-se, depois de lhe pedir licença, ao seu lado e falaram pela primeira vez a sós, de assuntos não relacionados com a profissão de polícia. Conversaram durante praticamente todo o tempo que Pombo almoçou, depois começaram a chegar clientes para os cafés pós-almoço.
Pombo tenta relembrar-se do que disseram, não se lembra de nada minimamente interessante, começa a sentir frio, olha para o copo, bebe o que resta de um trago e entra em casa.
Pega novamente no livro, deita-se de barriga para baixo e recomeça a leitura. Ao fim de vinte páginas, está com a cabeça em cima de uma das páginas, de boca aberta, empapando a página par. Está cheio de frio, tremelica, quando acorda, a luz continua acesa, o relógio marca quatro e dez e sente a suave recordação de um sonho, tenta sem sucesso lembrar-se do que sonhou, só se lembra de Maria José, sorrindo para ele, vestida de preto. Coloca o livro no chão, numa pilha de outros, ao lado da cama, levanta-se e apaga a luz. Ali, só, de olhos abertos para a escuridão da noite, pensa na mulher que o serviu no dia anterior. Tenta evitar pensamentos mais eróticos, mas quanto mais tenta evitá-los…
Adormece finalmente, amaldiçoando Silva enquanto cupido alentejano. A madrugada voltará a trazer-lhe Maria José em sonhos.