Um pequeno conto, no Breves Narrativas.

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Era uma vez…

Era uma vez…
Eu sei que é uma forma recorrente e recursiva de começar, mas quantos textos não começam assim? E a problemática com que nos deparamos é a do início de uma narrativa. Logo é justo, ou pelo menos expectável, que uma história comece assim. Era uma vez…
Claro que teremos tempo (ou teríamos, porque ainda que tenhamos tempo, não temos vontade) para outras caracterizações, nomeadamente temporais, geográficas, psicológicas e outras que tais.
Mas se o conto tem de começar por algum lado que comece pela sua vez, era uma vez, distinta de outras, ainda que igual a outras tantas.
Era uma vez… Afinal não! Os autores enganam-se, escolhem formas e fórmulas, pensam, repisam nas palavras e frases, avançam e voltam atrás, recomeçam.
Há muito tempo atrás (parece-me melhor!), tão atrás que não guardamos registo de ter existido, havia um reino no meio de um deserto. Como foi ali parar, como alguém decidiu construir alguma coisa ali não sabemos. Seriam loucos, fugitivos, nómadas fartos de viajar, ascetas? Fiquemos na dúvida.
Temos à nossa volta um deserto. O reino encontra-se a sudoeste, a cem quilómetros de uma rota de comerciantes. Não é desconhecido, reina na mente de muitos, maioritariamente como uma fábula, uma lenda. Poucos são os que se afoitam a caminhar cem quilómetros de deserto, areias movediças, tempestades de areia e escorpiões!
Nesse reino, como em quase todos os reinos da Antiguidade e antes dela, há um líder (o nome varia de cultura para cultura). Esse líder tem 30 anos, pele obviamente tisnada pelo sol. É amado pelo seu povo, igualmente encarvoado. É justo, pouco dado, obviamente, a trabalhos manuais, mas amante da sabedoria popular e filosófica. O povo estranha esta tendência, diz em palavras baixas que o rei troca sem pesar uma noite de prazer carnal por uma tertúlia com os sábios, filósofos, mágicos e velhos ascetas.
Um dia esse Rei olhou para o sol. Durante uma hora, não fechou os olhos, tentando, talvez, vencer o brilho do astro pela tenacidade. Em vão, o sol continuou a refulgir, os olhos do Rei sofreram o castigo na impertinência, não ficou cego, mas a visão ficou reduzida.
Nessa noite, o Rei convocou aqueles que se dedicavam à arte do pensamento, da discussão, da oratória. Mas convocou mais alguém. Um viajante que ali chegara delirante, quase morto, e que convidado a ficar não ousou voltar a palmilhar as quentes areias do deserto. O Rei tornara-o o seu pessoal contador de histórias, não imaginadas, assim esperava, mas reais. O que lhe pedia era simples, “descreve-me o que conheces para além do deserto”.
Decidiu, naquele dia, que o homem devia contar a todos os outros o que lhe contara a ele. O homem vinha de uma terra onde o sol nascia e se punha no horizonte. Todos os dias, contara-lhe, havia horas de luz, entre o momento em que o sol nascia e o momento em que terminava a sua viagem no céu. Depois vinha a noite, por vezes escura, outras mais clara, havia – dizia o homem – um outro astro, a lua, que por vezes apresentava-se com fulgor, mas sem o calor do sol, outras quase que se ignorava no céu. “Existem estrelas, pontos mais pequenos, brilhantes, e em grande número”, acrescentara.
O Rei sonhou com isto, acordado, mas também a dormir. Sabia que a imaginação era poderosa, as discussões, as histórias tinham-lhe provado isso, pelo menos isso. Mas o Rei guardava no seu coração um desejo, queria ver esse espectáculo ao vivo.
O homem contou várias histórias, hábitos, descreveu animais, paisagens, frutos e no fim, como o Rei lhe tinha pedido, falou do sol, da lua, do firmamento estrelado.
O conselho de sábios torceu, metaforicamente, mas num caso ou dois objectivamente, o nariz. Discutiram esta última parte, chegando à conclusão, maioritária, de que o homem estava louco, afinal o calor e fulgor tórridos do sol tinham deixado a sua marca naquele pobre desgraçado. Externamente foi isto que repassou, mas internamente todos sonhavam com aquela possibilidade, criando e recriando nos seus interiores o que tinham ouvido.
O homem terminara com uma frase que os marcara. “Continuo a achar estranho que aqui o sol não nasça, mas o que mais me marca é não poder voltar a ver o sol se pôr.”
Poucos anos passaram, tudo corria na modorra alegre do dia-a-dia. Mas na cabeça de muitos havia o desejo de não morrer sem ver aquele expectante desconhecido, o sol a viajar no céu, a despedir-se por algumas horas e em seu lugar uma escuridão de pequenos pontos luminosos.
Ora, como porventura sabeis, o desconhecido exerce um poder enorme sobre o nosso conhecido, sobre a nossa inércia. O desejo começou a transformar-se em vontade, a vontade em projecto e um dia um grupo de jovens, homens e mulheres, decidiu pôr em risco a sua vida, a sua rotina e pôs-se a caminho, guiados pelo homem.
Riscos e medos pairavam na sua mente. Conseguiremos ver a noite, como o estranho lhe chamara? Se algum dia chegarmos lá, voltaremos? Quereremos voltar? Conseguiremos voltar? Despediram-se dos amigos, dos familiares, do local a que chamavam casa e Reino, despediram-se de um Rei pesaroso, que via e abençoava a ida de alguns aventureiros abençoados pela vida e pela sorte. Ele teria de se quedar ali, não porque quisesse, mas porque sim. Um Rei é um REI e tem obrigações, morais, sociais, políticas e, neste caso, locomotivas.
O grupo partiu e nunca mais voltou. Sei que poucos chegaram a esse local onde o sol nasce e se põe, dando lugar à lua. Foram poucos os que ali chegaram, de lábios gretados, meio loucos. Mas a alegria, a surpresa que tiveram quando viram a finalmente a lua e as estrelas valeu pela viagem, pelas mortes, pelas lágrimas, que a determinada altura secaram.
Terminemos a história. No reino, no deserto, debaixo do sol abrasador, o Rei ia temendo pela vida dos que tinham partido, irritado com a sua condição.
Um dia, já velho, tomou uma decisão. Começaram a retirar as muralhas de um lado da cidade e a reconstruí-las do outro, na direcção que o grupo tomara. A cidade percorreria o caminho até às estrelas. Como se supõe, era uma obra lenta, cansativa e que penou o carinho do povo pelo seu rei.
Dizem que morreu louco, só, desafiado pelo povo que se fartou de estar a carregar pedras de um lado para o outro, consciente da sua condição, das suas latitudes. Mas se é verdade que morreu, não é mentira dizer que ao morrer sonhou com as estrelas, sem contudo as poder ver.

Festival da Canção – a homenagem que mata

A homenagem que mata o homenageado (de coração), o artista (ai, minha mãe) e as hipóteses de vencer qualquer coisa. Quê que foi isto?

Ora, eu até ando com um cd ao vivo do José Cid no carro, mas não sabia se havia de rir, ir à casa de banho ou chamar o psicólogo.

A letra é sublime, duvidam?
“Encontrei-te por acaso, numa rua da cidade, nosso olhar quando cruzado, foi logo de cumplicidade, foram dias, foram meses, foram horas a sonhar, eu confesso que por vezes muito mais para acreditar (…) fui para ti mais um passatempo. Desaparece da minha vida, não aguento nem mais um dia, antes quero solidão que viver na humilhação (…) mas o meu amor por ti, continua a crescer”.

Na melhor das hipóteses, bipolar, não?
Claro que a inspiração deve vir quase toda de O Melhor Tempo da Minha Vida: “Foi só por curiosidade Que tu estendeste a mão, Foi só mais uma aventura, Do teu ego sem paixão. Eu que fui todo ternura, Que fui todo o coração, Tarde de mais compreendi Qual a tua intenção…
 E no entanto obrigado, obrigado para sempre. Pois por mais tempo que eu viva, Eu nunca vou esquecer Que tu mesmo, sem querer, Me vieste oferecer O melhor tempo da minha vida, o melhor tempo da minha vida, o melhor tempo da minha vida…
Os meus amigos de sempre, Vieram-me avisar Para ter cuidado contigo, Que mais tarde ia chorar. Só que eu dei tudo por tudo, Julguei que tu poderias Amar alguém que te amasse, Que te modificarias.”

Fica a homenagem e o estilo do cantor, que mais do que ninguém me parece acreditar no que canta, convicto, mais do que quando diz que quem não arrisca, não………petisca.

Portanto, duas músicas, uma canção à Cid (pois, pois. Todos podem querer, mas nem todos as sabem  fazer) e a vencedora, um rip of da Disney. Mas há mais, amanhã, provavelmente.

Festival da Canção – A vencedora

Ah!, o Festival da Canção. Derreado com uma dor nas costas, que me moeu todo o fim-de-semana e continua hoje, fui ouvindo o anteriormente Acontecimento da TV portuguesa. Confesso que aquilo me fez bastante confusão, quase todas as músicas pareciam homenagens a artistas/canções/estilos mais ou menos conhecidos, mas em mau. Irritante, também foi o facto de ver que todos os cabelos e vestidos ondolavam ao sabor do vento, e as cores que apareciam nos ecrãs lá atrás eram dignas de nos levar hoje ao oftalmologista.
Bonito, bonito, foi ver a vencedora agradecer a vitória ao som de um coral de assobios.
Mas sobre as músicas (querendo a sorte, todas) falaremos ao longo desta semana.

Comecemos pela vencedora.

No início parece ser outra coisa, mas quando chega ao refrão é impossível não pensar na Banda Sonora do Aladino da Disney.  Não consigo ouvir a canção vencedora sem me lembrar do Aladino, e tem tudo para ir a andar no Eurofestival. Depois queixam-se que os Lordi ganharam há uns aninhos. Pode-se não gostar da letra, do estilo e da caracterização, mas é muito melhor do que esta coisita.

Mayer no Rock in Rio

Há por aí um livro interessantíssimo, que mostra que nem todos os grandes artistas foram grandes Homens (neste dia, parece-me de bom tom escrever também Mulheres), chama-se Intelectuais.
Tenho, pelo menos, dois amigos (cunhado incluído) que veneram a música de um senhor chamado John Mayer. Se John Mayer tosse, acredito que eles vão comprar um remédio à farmácia e enviam por correio.
A semana passada começaram nas invectivas para com a organização do Rock in Rio, tudo porque parece que no dia de John Mayer tocam Ivette Sangalo e Shakira. O que me parece que não terá passado pela mente destes dois fãs é que o cartaz desse dia pode ter sido resultado de duas ou três coisas: uma homenagem da organização a John Mayer, um pedido de John Mayer ou uma forma de o convencer a vir ao Rock in Rio. Já explico as razões da minha teoria.
Antes, somente, realçar uma realidade, muitas das vezes os fãs de determinado artista ignoram as convicções religiosas, políticas, sociais e outras do mesmo, ou até os hábitos da criatura.
As hipóteses avançadas atrás têm como base uma entrevista do artista à Playboy americana, que deu, como seria de esperar, celeuma.
Deixo aqui algumas passagens, sem me dar ao trabalho de as comentar.
“there have probably been days when I saw 300 vaginas before I got out of bed,” (falando de pornografia online).
“When I watch porn, if it’s not hot enough, I’ll make up backstories in my mind. My biggest dream is to write pornography.”
A entrevista (talvez por ser para a Playboy) versou sobre as ex-namoradas, causou celeuma por Mayer usar a palavra nigger e apelidar o seu pénis de supremacista branco, etc, etc, etc.
Por tudo isto, parece-me que Mayer deve ter ficado agradado com o cartaz do Rock in Rio, mas se calhar sou só eu que sou mauzinho.

Estou na Escola, para ler material para a tese. Cheguei com um saco de documentos, artigos principalmente, sobre a temática. Ficaram 45€ na loja de fotocópias. Por estas e por outras, vou namorar o Kindle.

Ando no carro com os Diabo na Cruz. À primeira audição fiquei desconfiado, gostei de três músicas. Algumas soavam mais pesadas do que esperava, ainda para mais depois do início com Vitorino. Obriguei-me a ouvir mais umas quantas vezes.
Gosto, ainda que ache o álbum desequilibrado. Tenho alguma dificuldade com algumas letras, que me fazem pouco sentido, mas a verdade é que o álbum tem sido companhia útil nestes últimos tempos.
Ontem, vi publicidade na tv. Mais uma acha para a tese:p

Depois de ver o segundo Sinais de Fogo, fiquei com algumas dúvidas.

Tudo o que não faz sentido a Sousa Tavares é mentira? Os crimes têm de ser lógicos? A realidade tem de ser lógica?

Sousa Tavares só ataca quem não respeita ou não admira? Gostava de ter visto aquela “acutilância”/ agressividade a semana passada.

Para quê convidar alguém para uma entrevista, se o objectivo é que a pessoa ouça a voz de Miguel Sousa Tavares? A primeira parte do programa é ridícula. Sousa Tavares cansou-se de comentar o que queriam que ele comentasse, agora comenta o que ele quer – as peças são tão fraquinhas!!!

Espero que depois dos Sinais, o programa arda por completo, por este andar, não deve demorar muito.