No carro do Fernando rumo à barragem ou no autocarro a caminho das piscinas, no Recordar o ABS.

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Rich and Famous

Eu gosto deste tipo de filmes. Filmes que se inserem num conjunto de obras como Bullet in the Head de John Woo e Era uma vez na América de Sergio Leone. Filmes que retratam o crescer de um grupo de amigos e a introdução destes no mundo do crime e, por vezes, a traição de um deles.

Pelo que tenho lido, a maior parte das críticas na internet não mostram um grande apreço por este filme.
Eu gostei. Ainda para mais depois de o ter visto a seguir a The Nun e a Gonin de Takeshi Mike.

O filme versa sobre dois irmãos, Yung (Alex Man Chi-lung) e Kwok (Andy Lau), que se metem em confusões com uma das máfias, e são acolhidos por outro (Chow Fat) dos chefes.
Os temas em destaque são essencialmente traição e fidelidade. O filme é criticado por não ter um final completamente satisfatório, o que pode ser explicado pela sequela, que foi filmada ao mesmo tempo, e mesmo lançada antes, pelo simples facto dos produtores terem achado que tinha maiores possibilidades, financeiramente falando.
O elenco é estelar, ainda que a maior parte em início de carreira.
Toda a gente prefere a sequela – Tragic Hero – a este Rich and Famous.
Eu fiquei convencido. Já vi bem pior.
7/10

Paleeeeese

Já não bastava tentar concentrar-me no que estou a fazer com o vizinho de cima a ouvir Amália em generosas ondas sonoras, como agora a senhora está riscada. e o infeliz do vizinho ou adormeceu, ou acha que assim está bom!

Está a precisar de um dose de Iron Maiden ou Pantera uma tarde inteira, no máximo, comigo fora de casa. Nunca falha!

O Segredo

O Segredo, por si só, já é um nome demasiado corriqueiro, ainda para mais quando o filme que vi tem como nome original, THE NUN. Ora, isto, meus caros, é um nome à maneira, A FREIRA, mas não, a criatura esquisita e tonta que dá os nomes em português deve ter decidido que A Freira não era um nome muito apelativo. Então decidiu-se por O Segredo.
O que é pena, porque assim uma das poucas coisas que vale a pena, o título, não existe em português.

A Freira é um filme sobre uma vingança, a de uma freira morta há 30 anos para com aquelas que a mataram. Está tudo dito. Ah, e é em Espanha, mas podia não ser. Podia ser no Uzbequistão, que funcionava à mesma.

A Freira é teoricamente um filme de terror. Teoricamente, por várias razões.
Primeira, porque tenta, mas não mete medo. Um episódio de Supernatural causa mais pele de galinha do que este filme. Não mete medo, não assusta, tem suspense, mas pouco.

Em segundo lugar, os filmes de terror devem muito do seu segredo à premissa e à forma como são realizados. A premissa parece-me engraçada, a realização nem por isso. Metam o senhor a realizar outra coisa qualquer, mas não um filme de terror.

Terceira, os actores. Imaginem ver um filme de terror com actores dos Morangos. Pois… Foi essa a minha sensação. Não são muito expressivos, nem convincentes.

Quarta, a água. O filme mete água ao barulho, o fantasma da Freira está associado à àgua. Compare-se as cenas deste A Freira com as de Dark Water de Hideo Nakata e veja-se a distância enorme que existe entre um e outro. No último conseguimos sentir um ligeiro formigueiro, no A Freira parece que estamos perante um filme catástrofe dos anos 70 e vai haver uma ou outra inundação.

Há coisas boas? Deve haver. Mas, não são muitas. Não desgostei assim tanto do argumento, não é bom, mas podia ser um filme engraçado de série z. Há duas mortes que são gráficas, e que sinceramente não acrescentam nada. Oops, estava a falar das coisas boas…

hum…o final é ligeiramente engraçado, mas… é muito espanhol, já vi aquilo em filmes de terror espanhóis umas três ou quatro vezes. E nunca me pareceu convincente. Engraçado. Medianamente surpreendente. Mas forçado como o raio.
Cada vez mais que convenço que cada vez gost mais de filmes asiáticos. Principalmente, dos de terror.

A Neblina do Passado

Muito se tem divulgado e escrito sobre o último romance de Leonardo Padura editado entre nós, A Neblina do Passado.
A verdade é que é imprescindível na biblioteca de qualquer amante de romances policiais e de quem quer conhecer a vida contemporânea do povo cubano.
Mario Conde é a personagem principal, um polícia que já deixou de o ser, ainda que mantenha a natureza inquisitiva e detivesca.
– Diz-me a verdade, meu amigo, uma pessoa pode ser maricas por uns tempos e depois deixar de o ser?
– Nem sonhes. A mariquice não tem retrocesso. Se alguma vez engoliste espadas, isso já ninguém o conserta… E um tipo que já foi polícia nem que se mate o deixa de ser. (pág.91)
Conde dedica-se agora a outros negócios, inclusive à venda de livros, assim descobre uma biblioteca intacta e nela um livro que contém uma página de uma revista com o anúncio do abandono de uma cantora dos anos 50, Violeta Del Río.
Esta descoberta vai atormentá-lo e Conde vai procurar descobrir a verdade nunca descoberta sobre o que aconteceu a Del Río, mergulhando na história recente de Cuba e na realidade soçobrante contemporânea.
A Neblina do Passado é um policial, uma tentativa de descoberta de alguém de quem já ninguém se lembra, mas ao mesmo tempo leva-nos à Cuba dos anos 40-60 e à Cuba mais recente (90-2000). Mostra-nos as misérias do comunismo, no homem comum.
(…) Tu sabes, Vivemos numa selva. Desde que saímos da casca estamos rodeados de abutres, de gente decidida a lixar-nos, a arrancar-nos dinheiro, a gamar-nos a miúda, a denunciar-nos e a ver-nos tramados para poderem ganhar pontos e subir um pouco… Há uma monte de gente que vai aguentando, para não complicar a vida, e a maior parte o que quer é pôr-se a andar, pôr água de permeio, nem que seja para Madagáscar. E os outros que se amanhem… Sem esperar muito da vida.
-Isso não se assemelha ao que dizem os jornais – espicaçou-o Conde, para o ver saltar, mas Yoyi era ágil de mais.
– Que jornais? Uma vez comprei um, para limpar o rabo, e fiquei com ele sujo, juro-te…
– Ouvista falar do homem novo?
– Isso o que é? Onde o vendem?
(pp 74-75)
A desilusão para com o presente e a dicotomia partir/ficar.
– Somos diferentes: temos três patas ou só uma, não sei bem… O pior foi terem-nos tirado a possibilidade de viver ao mesmo ritmo que viviam as outras pessoas no mundo. Para nos protegerem…
-Sabem o que mais me lixa? – interrompeu-o Coelho, revelando os dentes à porta do quarto. – Terem-nos desbaratado o sonho de podermos ir a Paris com vinte anos, que é quando ir a Paris é bom (…)
-Estivemos a viver durante todo o tempo, todos os dias, a responsabilidade de um momento histórico. Empenharam-se em obrigar-nos a ser melhores – disse Coelho, mas Conde negou abanando a cabeça, quase sem se poder conter.
– Então, por que razão há agora tantos jovens que querem ser rastafáris, roqueiros, rappers e até muçulmanos, que se vestem como se fossem palhaços, que se maltratam enchendo-se de argolas e tatuando-se até aos olhos? Por que razão há tantos a meter drogas durissimas, tantos que se prostituem, que se tornam chulos, travestis e suam colares de santeria (…) Por que razão há tantos que querem sair daqui?
– Eu tenho um nome para isso – retomou a batuta o historiador do grupo: – cansaço histórico. (…)

(pág.174)

Aliás, algo que domina o romance é este cansaço e tensão entre ficar e partir. E entre o desejo de ficar há a realidade, mais brutal que nunca, mais miserável que nunca, mais “libertadora”.
-Muito trabalho, uma loucura. Nem imaginas como estão as coisas. Aquilo antes era uma brincadeira de crianças, agora é a doer. Os roubos com uso de força estão na ordem do dia, a droga está por todo o lado, os assaltos são uma praga, a corrupção cresce mais que erva daninha, não acaba por mais que se arranque… E nem te falo do proxenetismo e da pornografia. (pág. 91)

Conde esforçara-se ao máximo por sorrir, convencido de que seria incapaz de ir para a cama com aquela mulher, ou mesmo de beijá-la, e olhou para o Africano, que gozava com a situação. Nessa altura compreendeu que toda a sua liberalidade moral era apenas uma brincadeira de crianças naquele mundo alucinante, onde o sexo adquiria outros valores e usos e se transformava numa forma de vida, num meio de desafogar as misérias e tensões.

(pág. 194)

Mas A Neblina do Passado é também um romance sobre os livros, sobre o seu papel cultural e financeiro, sobre a amizade, sobre a nostalgia do passado desconhecido ou meramente vislumbrado, sobre o manter-se à tona, sobre a natureza humana, sobre a loucura sã (quem chegar ao fim, perceberá melhor), sobre a poesia e a música, sobre os boleros e a sua natureza.
Depois de vivermos

vinte desenganos
que importa mais um, depois de conhecermos
a batalha da vida
não devemos chorar.
Temos de saber
que tudo é mentira,
que nada é verdade.
Temos de viver o momento feliz,
temos de gozar o que pudermos gozar,
porque contas feitas, no fim,
a vida é um sonho
e tudo se perde.
A realidade é nascer e morrer,
para quê enchermo-nos de tanta ansiedade,
se tudo não passa de um eterno sofrer
e o mundo se apresenta… sem felicidade.
(Arsenio Rodríguez)

Para ler devagarinho, com prazer.

9/10