Releituras

Cristo diz: «Dai-me tudo. Não quero tanto do vosso dinheiro, e tanto do vosso tempo e tanto do vosso trabalho: quero-vos a vós. Não vim para atormentar o vosso ser natural, mas para o matar. Meias medidas não bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali, quero derrubar a árvore. Não quero meter a broca no dente ou pôr-lhe uma coroa ou obturá-lo: quero extraí-lo.
Dai-me todo o vosso ser natural, todos os desejos que julgais malignos – absolutamente tudo. Em compensação, dar-vos-ei um novo ser. (…) a minha vontade será a vossa.»
Mais difícil e mais fácil, como vêdes, do que o que todos nós temos procurado fazer. Observastes com certeza que o próprio Cristo por vezes se refere à via cristã como muito difícil, outras como muito fácil. Diz ele: «Tomais a vossa cruz.» Quer dizer, vai ser como se fossemos mortos à panncada num campo de concentração. E num minuto depois diz-nos: «O meu jugo é fácil, o meu fardo é leve» E fala a sério em ambos os casos. E pode-se perceber porque é que ambos são verdadeiros.
Ele o disse – um cardo não pode dar figos. Se eu sou um campo onde não há senão sementes gramíneas, não posso produzir trigo. Cortar a relva conserva-a curta: mas continuarei a produzir erva em vez de trigo. E se quiser produzir trigo, a transformação não pode ser só à superfície. Tenho de ser lavrado e semeado de novo.
CS Lewis – Para além da personalidade, Edições Gama, 1946

Terror

Nos últimos dias consegui ver dois filmes de terror, bem…terror, terror…
Mantendo o desejo de conhecer mais cinema asiático comprei História de Duas Irmãs (um filme sul coreano que há muito procurava comprar) e Spirits (um filme vietnamita).
Confesso que em adolescente vi muito cinema de terror, obrigatoriamente e naturalmente, americano. A determinada altura fartei-me. O molde era sempre o mesmo, e poucas coisas de jeito se fizeram no género nos últimos anos, e o que se fez ou é demasiado gore para o meu gosto ou remakes do cinema asiático, aliás, História de Duas irmãs sairá brevemente nos cinemas, num remake americano!
Entretanto descobri o cinema de “terror” asiático. E mais do que das histórias ou dos actores, agradam-me a ambiência de vários filmes, estes dois são um bom exemplo disso. Agrada-me por vezes a forma quase poética com que se filma, ou se quiserem, a forma como se abordam as personagens, dando-lhes um pouco de profunidade, algo estranho à fraqueza psicológica e ausência de densidade das personagens dos filmes de terror norte-americanos.
História de Duas Irmãs (HDI) subverte o filme de terror tradicional, quase que me atrevo a dizer que é um filme de não terror, filmado como se de um se tratasse. É lento, como muitos dos filmes de terror asiáticos que tenho visto o são. Da paciência do realizador e da história depende a ambiência de que falava.
HDI é um filme familiar. Duas irmãs vivem com o pai e a madrasta, tendo chegado recentemente de uma instituição psiquiátrica, aparentemente após a morte da mãe. As duas têm dificuldades de relacionamento com a madrasta, e como se isto não bastasse começam a ver fantasmas em casa e o pássaro da madrasta aparece morto.
HDI vê-se como a descoberta de um mistério, das razões do que estamos a ver, o que impele as personagens, da melancolia, do desespero.
O filme consegue ser enervante e ao mesmo tempo belo. No final, o filme é explicado através de três ou quatro momentos (flash-backs).
Um filme a ver.
7/10
Aproveito para fazer um parêntesis, tanto HDI como Spirits foram comprados a 5 ou 6 euros, na FNAC.

Spirits é um filme vietnamita, o meu primeiro. E um filme belíssimo.
Spirits não engana ninguém com o título, já que todo o filme anda à volta do espiritual, e de fantasmas, mesmo quando os não vemos.
Está dividido em 3 episódios. Cada um com a sua personagem principal, embora as restantes apareçam, e com ligeiras alterações de estilo e enquadramento.
No primeiro episódio, “the visitor”, acompanhamos um jovem escritor, loc, que chega a uma casa velha e decadente, pensando estar abandonada, e encontra hoa, única sobrevivente naquela zona. Triste, mas simpática vai cativando loc, escondendo um segredo fatal.
No segundo episódio, “only child”, loc ainda mora na velha casa. Está sob o cuidado da mãe e de uma jovem estudante de psiquiatria. Os dois acabam por casar, e o idílio conhece algumas dificuldades quando se apercebem que ela não consegue engravidar. Também ela guarda um segredo terrível, que poderá trazer conseuqência terríveis para aquela família.
A parte final, “the diviner,” passa-se anos mais tarde. Loc, já de cabelo grisalho, recebe a visita de uma espiritualista itinerante. Ao chegar àquela casa, a charlatona descobre espíritos verdadeiros.
Ao resumir o filme, fico com a sensação de que as histórias são básicas, quase telenovelescas, e podem, ao mesmo tempo, induzir o leitor em erro. A força não está tanto na história em si, o segundo episódio é fortíssimo, mas na forma como se escolhe contar a mesma. E é neste campo que o filme merece os nossos aplausos. É extremamente interessante. Muito bem realizado e estilisticamente mais do que meramente apelativo.
O filme vale pela áurea de mistério que carrega e que vai passando de história para história, mas ao mesmo tempo a noção de tragédia e peso que as personagens vão carregando, e a forma como cada uma delas reage ao seu pathos, e ao pathos dos que já morreram.
Os espíritos do filme não são os fantasmas americanos, não são almas em busca de vingança (nem todas, pelo menos), ou não o fazem de maneira sangrenta.
O que não quer dizer que não meta medo de vez em quando, ou não nos deixe indecisos quanto ao seu final (que infelizmente é um pouco expectável).

Uma nota final para a péssima edição nacional (?). Aparentemente devemos este festival de erros na capa do DVD e de uma legendagem em brasileiro (não, é mesmo brasileiro) a Eurocinefilms. Uma miséria.
Traz um trailer, em espanhol. O resumo, na capa do DVD traz erros em quase todas as linhas e quem o escreveu não sabe que há uma coisa chamada vírgula.
Se o filme não fosse tão bom, pedia o meu dinheiro de volta.

8/10

Cloverfield


Não resisti e fui ver o filme mais falado dos últimos tempos.
Mais uma vez, os tradutores portugueses decidem acrescentar algo ao título, e temos Nome de Código: Cloverfield. Whatever…não deviam ter mais nada que fazer, e deixar ficar só Cloverfield devia ser complicado…

Li alguma coisa antes (não muito para não estragar) e depois.
Os interessados devem saber a história, Nova Iorque é atacada por um monstro. Aquilo que vemos são as filmagens de alguém que esteve sempre com a máquina a filmar.
Por isso, foi comparado a Blair Witch Project. É a única coisa que aproxima os filmes, este é bem melhor. Mas preparem-se para uma ou outra dor de cabeça, porque quando é para tremer e desfocar não ficamos decepcionados. Escolham os lugares mais de trás.
E esqueçam a ideia de que é um filme de monstros, ou melhor esqueçam BI do monstro. Não interessa, o filme não é sobre ele, é sobre o que ele causa, especificamente a um determinado grupo de amigos, e a forma como reagem, sobre o medo, e o amor.
Lembram-se do Titanic? Em que para vermos o barco ir ao fundo tínhamos de gramar com 2 horas e tal de amor e tragédia? E quando o barco ia ao fundo eu já agoniava? Aqui nada disso se passa. Há um relacionamento em pano de fundo, mas não toma o lugar do filme, da busca, da fuga, da sobrevivência. Tem diálogos, acção e trama ao contrário de Blair Witch.
E não há lugar, ainda bem, para personagens demasiado nervosas.
O filme joga bem entre o que se vai vendo ou não, o que em relação ao bicho é essencial.
O filme criou muito hype, e mereceu-o. Não me senti minimamente defraudado, e há-de haver muita coisa para descobrir com mais calma, quando sair em dvd.

Se já o viram, vejam a página na Wikipédia que vos dá um enorme rol de informações. As mais interessantes, na minha opinião, são as que dizem respeito ao marketing e subplots que JJ Adams nos habituou.

8.5/10

Releituras

Decidi reler CS Lewis.
Comecei por Beyond Personality (Para além da Personalidade, trad. de A. Gonçalves Rodrigues – 1946, Edições Gama)

“A Teologia é uma coisa práctica. Não se conseguirá a vida eterna a sentir a presença de Deus na música ou nas flores.”
“Todos lêem e discutem. Consequentemente, se não atenderdes à Teologia, isso não significará que não possuís ideias sobre Deus: significará porém que tereis ideias erradas.”
“A vida biológica é Bios, a vida espiritual é Zoe. (…) Um homem que passasse a ter Zoe em vez de Bios teria sofrido uma mudança tão grande como a que sofreria uma estátua que, de pedra lavrada, se transformasse em homem.
E é disso mesmo que o Cristianismo trata. O mundo é uma grande oficina de escultor. Nós somos as estátuas, e por toda a oficina se rumoreja que dentre nós alguns vão um dia receber o dom da vida.”

Google News – a versão tuga

Estava a ler as notícias no Google News (versão Portuguesa) e apeteceu-me ler a área – Entretenimento.
Estas são algumas das notícias de entretenimento, às 22h45, no dia 22 de Janeiro.
Consegui resistir a fazer piadas. Umas mais bregas e outras mais fáceis.
Será assim tão difícil catalogar as notícias?
Aparentente…

Heath Ledger – RIP

Foi encontrado, há poucas horas, morto, no seu apartamento de NY. Fontes policiais falam de uma drug related death.

Aos 28 anos, Hollywood despede-se de um dos seus mais jovens e promissores actores.

De 10 Coisas que Odeio em Ti a Roar, de O Patriota a Brokeback Mountain, até ao ainda por estrear Dark Knight Returns.

Hoje, o Joker não ri…

Dot-Com

Vi, ontem, o filme pela 3ª vez.
É assim tão bom?
Não é e, ao mesmo tempo, é.
Filmes portugueses sem maminhas (sexo) ou asneirada a torto e a direito são uma miragem.
Este não tem sexo, e poucas asneiras. Continuo a achar que o sucesso de filmes como Corrupção ou Call Girl (que não vi) se deve mais aos atributos físicos da actriz, do que ao conteúdo do filme. Infelizmente, os portugueses só vão ao cinema ver filmes do burgo se estes mostrarem carne. O que a mim não me choca, é a evolução natural das revistas choque e cor-de-rosa. Enfim…
Gosto de Dot-Com porque nos mostra que podemos fazer um filme, sem grandes condições de produção, que nos faça rir e ao mesmo tempo que nos pinte como realmente somos.
É um filme simples, uma comédia engraçada (que é cada vez mais difícil de fazer), mas que fica a milhas do filão Malucos do riso.
A questão é se podemos fazer filmes? Claro. Mas há que ter sabedoria para discernir o quê e o como. Já percebemos que temos alguns realizadores interessantes. Falta o graveto, e muitas vezes os textos. Queremos fazer CINEMA, mas faltam-nos as cordas para podermos tocar.
Dot-Com prova que com tempo e jeito podemos fazer cinema com alguma qualidade, que agrade a muitos espectadores. Pena que muitos não o tenham percebido, e o tenham deixado passar despercebido.
Mas, está aí em venda directa. Aproveitem…

A noivita tava doentita, hoje, e passámos o dia a ver filmes.
Bem, foi a tarde, que de manhã fomos mostrar o futuro lar à prima e à tia.
Ela viu, eu revi, o Lost in Translation e o Dot.Com (3ª vez em um mês, e cada vez gosto mais).
Ao chegar a casa dela, provámos um bolo que o mano mais novo fez. Hummmm….desta vez estava muito bom.