O Breves Narrativas foi lavado e passado a ferro.
De cara nova, volta para dar a conhecer contos, narrativas, tentativa e leituras.
É esse o programa.
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Confesso que nunca percebi, ainda tenho dificuldades, em perceber as mulheres, juntando a isto o timing a minha vida amorosa fica contada, pelo menos parte dela.
Nunca entendi o disse que não disse e o não disse que disse próprio das mulheres. Nunca percebi no sorriso, no riso, no olhar algo mais do que aquilo mesmo.
Ela era a minha melhor amiga, morávamos distantes um do outro, mas as cartas mitigavam qualquer distância. Víamo-nos de vez em quando, ríamos, conversávamos, ela buscava a minha presença e eu a dela. Nunca pensei nela de outra maneira que não como amiga, não porque não gostasse dela, mas porque me via inferior, inadequado, ela era inacessível.
Um dia alguém me disse que ela gostava de mim, e eu que não, como era possível? De mim?Passaram-se meses, as cartas continuavam a fluir, e os meus pensamentos caminhavam de vez em quando para aquela conversa. “Ela gosta de ti.”
Convidei-a para ir ao cinema. Falámos um pouco, comprámos água e pipocas. Depois de acabadas as pipocas procurei a sua mão no escuro e coloquei-a na minha, apertando- -a.Passámos assim os últimos 30 minutos de filme, de mão dada, mas a mão dela estava frouxa, senti-lhe um misto de sentimentos, por um lado não respondia como eu esperava, por outro não a tirou bruscamente. Manteve-se ali, de encontro à minha numa frieza constrangedora, mas ao mesmo tempo como prova de uma amizade enorme.
Levei-a a casa, falámos um pouco mais e deixei-a imerso nos meus próprios pensamentos, sem termos tocado no que tinha acontecido.
Nessa semana descobri que namorava há dois meses, pensei na minha mão na dela, e na forma como ela, humanamente e com amizade, me deu a sua resposta, sem articular uma única palavra.Chamei-me de estúpido umas quantas vezes, teria perdido o amor da minha vida?
Vi-a com alguém que não conhecia, com alguém que invejava por uma questão de timing e de incompreensão.
Claro que é possível que ela nunca tenha gostado de mim.

Memórias

Olho para trás e sorrio. Apesar do quarto de século, acredito que já vivi algumas coisas engraçadas. Pelo menos para mim…
Acho que nos esquecemos, facilmente, do que experienciamos diariamente. E isso é o que nos faz ser nós mesmos. Somos resultado de tudo. Da rua em que vivemos, dos amigos que temos e tivemos, das experiências por que passámos, pelas viagens que fizemos, pelo que vimos, etc. Acho que já perceberam o ponto. Como humanos gostaríamos de voltar atrás e poder mudar algumas coisas.
Era bom, mas ainda bem que não podemos. Desse modo podemos (e devemos) aprender com os erros.
Olho para trás… Ter pais alentejanos permitiu-me uma enormidade de experiências (uso enormidade, pelo que vou dizer a seguir e comparando com essa realidade) em relação ao que vejo hoje em dia. Tive oportunidade de conhecer a vida “citadina” (à falta de palavra melhor) e a rural. Tive oportunidade de ir ao teatro e ao cinema, mas também andei de burro, de carroça, fui buscar água à fonte, alimentei bezerros, assisti a vacalhadas, fui à pesca e à caça, apanhei lagostins, sei lá mais o quê.
E para o bem e para o mal, isso fez de mim o que sou hoje. Os verões eram passados aqui pela praia, por Montargil e por Montejuntos, perto do Redondo/São Pedro do Corval. A barragem, as hortas, as caminhadas (se calhar era por isso que não era tão redondo) pelos montes e planícies alentejanas, Montargil (um dos meus locais favoritos), Ponte de Sôr (outro) são imagens que habitam cá dentro. E por vezes sinto falta de andar por ali, não só em memória, mas também literalmente.
Foi em Montargil que comecei a namorar com a minha trolhinha (em 2006), foi em Montargil que conheci muitos dos meus verdadeiros amigos, no ABS durante os verões. É de bom tom o português ser saudosista. Está na herança genética. Mas pode ser bom, viver e reviver as experiências passadas. É este o meu desejo e a minha vontade, em próximos posts.

Gostava de ter escrito isto I

“Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera, n´esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. (…)
– Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos Rothschilds ou a corôa imperial de D. Carlos V, à minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo…Não! Não sahia d´este passinho lento, prudente, correcto, seguro que é o único que se deve ter na vida.
– Nem eu! – acudiu Carlos com uma convicção decisiva. (…)
– Oh, diabo!… E eu que disse ao Villaça e aos rapazes para estarem no Braganza pontualmente
às seis! Não apparecer por ahi uma tipoia!…
– Espera! – exclamou Ega. Lá vem um “americano”, ainda o apanhamos. – Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. (…)
-(…) Com effeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ancia para cousa alguma…
Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras:
– Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder… A lanterna vermelha do “americano”, ao longe, no escuro, parára. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
– Ainda o apanhamos!
– Ainda o apanhamos!”

Tentativas I

6ª Feira 21h00
A porta fechou-se. Barulhos de passos ecoaram pelas escadas até que percorreram calmamente o espaço do prédio até ao carro.
Com calma aparente o carro foi ligado e posto em andamento. Cerca de um quarto de hora depois a polícia chegava ao local.
6ª Feira 22h15
José arruma o carro a cerca de meio quarteirão de casa. Anda um pouco e é reconhecido por um vizinho. Dois polícias correm para ele e dão-lhe ordem de prisão. Não reage, nem mostra qualquer sinal de surpresa. Apático é conduzido para o carro da polícia e depois para uma pequena cela onde passa a noite.
2ª Feira
Acordo pelas seis da manhã. Deixo-me estar um pouco mais. Estico o braço e sinto o vazio. Quando será que me acostumarei à sua ausência? Ser polícia não é fácil, mas é o meu emprego e o que eu gosto de fazer.
De qualquer maneira ser polícia em Portugal é muito mais seguro do que nos EUA. No entanto a mulher do polícia sofre sempre, seja num país pequeno e calmo seja numa metrópole violenta. Mas quem sou eu para inventar desculpas para o comportamento dela ou para o meu? Não soubemos viver a nossa vida a dois, fosse pelos ciúmes mútuos, fosse pelo medo de um ou o zelo do outro. Amámo-nos, tememos o nosso amor e começámos a criar muros, dúvidas e fossos. Deixámos de ser dois num e passámos a ser um em dois. Éramos um para os outros e um para o outro. Estranhámo-nos. Levanto-me.
O corpo dói-me todo depois de estar deitado quase 36horas seguidas. Passei o Domingo na cama, pelo simples facto de não me apetecer levantar para nada. As únicas pessoas que me apeteciam ver eram aquelas que não necessitam da nossa resposta, as da televisão. Levantei-me para mictar e beber um copo de leite.
Como vivemos hoje em dia em prole dos outros. Senão fosse por eles não me levantava da cama. Ponho água a ferver para o café. Vou à casa de banho e desfaço a barba. A Luísa gostava de me ver de bigode. Dizia que a fazia lembrar um actor qualquer. Desde que a Luísa se foi que deixei crescer um pouco mais em baixo, de modo que agora tenho pêra completa. Gosto mais assim. O telefone toca. Que toque! Nada se interpõe entre mim e a minha higiene pessoal. Não saio da casa de banho antes de estar completamente lavado. Já vestido vou para a cozinha e faço o meu café. Forte e simples, sem açúcar. O telefone toca outra vez. Levanto-me contragosto e atendo. Querem-me na esquadra imediatamente. Tem a ver com um suposto caso de violência doméstica na 6ª Feira. Para que raio precisarão de mim? Tudo me lembra dela. Nunca lhe fui infiel, vistas bem as coisas nunca lhe fui fiel também. Nunca olhei para outra mulher senão ela. Mas ela sabe tão bem como eu que nunca ocupou o primeiro lugar na minha vida. Eu e a minha profissão est

Ao vento

Sentado junto ao rio observa o horizonte.
Do outro lado a outra margem, no meio um rio brilhante e calmo.
Pessoas e animais vão passando atrás e à frente.
“Combinei com a João que íamos almoçar lá amanhã?”, “Amanhã? Mas amanhã…”;
“Venha, Bernardo. Porte-se bem! Ai que apanha, Bernardo.”;
“Não sei como conseguem comer aquelas gorduras todas, Deus me…”
Sente-se como um leitor caótico de livros rasgados ao meio. Sente-se uma página rasgada de um livro olhando para outras páginas que são lançadas pelo vento para lado nenhum…

Aniz

Lembro-me de descer uma rua com uma pesadíssima garrafa de aniz!:p
Era pequeno, três(?) ou quatro (?) anos, talvez mais, quiçá. Na terra do meu avô, no Alentejo (Montejuntos – junto à fronteira e ao Guadiana), no inverno, numas festas quaisquer, com lama até ao joelho (aqui é figura de estilo), via o meu pai comprar rifas.
Farto da triste sina, foi-se embora. Pedi-lhe dinheiro para uma rifa, para ser eu a comprar. Foi andando. Dois ou três minutos depois, eu gritava por ele, a descer pela rua com uma garrafa de aniz na mão, contente, excitadíssimo por tão grande prémio. Diz-me ele que ainda nesse mesmo dia ganhei outra garrafa, dessa não me lembro, nem tenho ideia alguma. Só da de aniz…

Vender uma imagem de guerra como arte é obsceno, a reportagem de P2, suplemento do Público de hoje – 6ª Feira, 30 de Março – é extremamente interessante, e mais ainda porque vai de encontro a um dos livros que ando a ler. O Pinto de Batalhas de Pérez-Reverte.
No livro, Reverte conta a história de um fotógrafo de guerra que é abordado por um ex-soldado que fotografou anos antes. Se essa fotografia deu fama e prestígio ao fotógrafo, e é encarada como arte, transformou a vida do ex-soldado, que foi preso e torturado pelo outro lado do conflito, que viu a sua família perecer por causa dessa mesma foto.
Trata-se de um livro pesado, que pensa a questão da guerra, da arte da guerra, pinturas e fotografias, e a forma como nós a encaramos hoje. Trata também do imaginário bélico, e dos soldados e guerrilheiros fotografados ou pintados.
Para Jean-François Leroy, entrevistado na reportagem do Público, uma boa fotografia é “aquela em que estou a ver pessoas na imagem, e não estou a pensar no talento do fotógrafo.Se começo a pensar ´meu deus, que fotógrafo tão talentoso´, isso é mau.
Leroy fala da morte do fotojornalismo, e diz que não quer viver num mundo, já vive, em que o casamento de duas estrelas de Hollywood é mais importante que “a guerra no Iraque ou a fome no Darfur”.
Um livro e uma entrevista a ler.