Breve Narrativa

A noite desce rapidamente. Os últimos raios de sol já não aqueciam, alumiavam timidamente o território invadido rapidamente pela penumbra. No quintal ainda nenhuma luz eléctrica, ao fundo via-se a raia, espanhola e alentejana, os pássaros cantavam alto em busca de refúgio em algumas azinheiras e oliveiras. O frio levou-o a entrar em casa, aquecida pela lareira, que servia não só para os aquecer, mas também para cozinhar um cozido de grão em panelas de barro.

A avó, viúva e só, quase todo o ano, dividia-se em tarefas caseiras, a mãe ajudava-a. Batem à porta, um tio de noventa anos entra com ar jovial e aquentado pelos copos de vinho tinto. Tem uma simpatia especial por este Tio, Domingos de seu nome, vê-o descer a rua, mora no monte ao lado da vacaria, vem direito que nem um fuso, gosta de vê-lo subir a rua, encostado ao muro para que o álcool o não derrube. Uma vida estranha esta, passada entre a casa, em que nunca entrou, e a taberna, onde há uns chocolates espanhóis.

Durante a tarde viu um pardal não se desviar a tempo de uma carrinha de caixa aberta, apanhou-o já morto e deu-o ao pai, “sem flobber, uh?”. Viu o ritual do pai, a que está habituado, depenar o bicho, cortar-lhe a cabeça, abri-lo ao meio. Juntou o pardal a outros pássaros que foi apanhando com a pressão de ar, uma tarde destas serão o petisco, fritos em alho e azeite.

Falam do acontecido com o pássaro, o tio olha-o sério e diz-lhe se foi a primeira vez que viu tal coisa, “um pássaro atropelado”. Ri-se nervosamente, diz que sim.

-Não é o mesmo, sabes, mas o meu bisavô dizia que quando um pássaro bate contra uma janela e morre, há alguém que morre.

Os adultos olham para ele, que sorri nervosamente.

-Ti Domingos, porquê? Há tanta gente a morrer e não vejo assim tantos pássaros a bater contra as janelas.

-Estas são mortes especiais, encomendadas.

Continua a história com um gesto, despeja o copo de vinho tinto, olhando-o nos olhos e terminando a despejar umas gotas de vinho em cima do pão.

Acordou com o carpir de algumas vizinhas, o Ti Domingos morreu durante a noite. Aquela conversa estranha fica-lhe na memória e liga-a à morte do tio. Um pardal a fazer de Valquíria, levando a alma do tio para outro lugar, no Alentejo não se deve chamar Valhalla.

Lembrou-se desta história hoje, entrou-lhe um pardal em casa, pela janela aberta. Assustado, tentou voltar à liberdade, matando-se contra as janelas. Já não pensava no Ti Domingos há mais de trinta anos.

Este post acabará por ser sobre cinema

Nunca fui de fazer fretes, e enquanto aluno do ensino superior tive vários. Tive um professor que num semestre inteiro de aulas, deu um artigo da sua autoria de quatro páginas. Durante 12 aulas de hora e meia, bem entendido. O teste era um comentário a tão profundo artigo. Tive um professor que passava uma hora, da tal hora e meia, a contar anedotas que, na sua opinião, punham a ridículo a cultura portuguesa, eu só me ria da sua visão estreita e devo ter ido a… três aulas. Podia continuar a discorrer sobre as amarguras de um aluno que até entrou na faculdade interessado, mas que foi perdendo o interesse em grande parte das aulas. Duas cadeiras houve que me encheram as medidas, Estudos Queirosianos, com o professor Luiz Fagundes Duarte, cadeira dada à 6ª Feira, das 16h30-18h30, horário complicado para um aluno tido como baldas, mas a que devo ter faltado uma aula no máximo. A outra foi uma cadeira opcional, às 08h30, que nunca finalizei, por um lado porque o que queria era o conteúdo, por outro porque nunca me vi capaz de enveredar pelo trabalho final, que era uma análise de um filme, conjunto de obras, aspeto particular ou de um realizador à nossa escolha. A cadeira chamava-se História do Cinema e era dada pelo atual diretor da Cinemateca José Manuel Costa.

Foi o interesse pelo cinema que me levou à cadeira opcional, foi o conteúdo e a estrutura da cadeira, o olhar arguto e conhecedor de José Manuel Costa que ali me mantiveram. A ele devo uma paixão assolapada por Howard Hawks, o único filme que vimos integralmente na aula foi o brilhante Only angels Have Wings, filme que tem o pavoroso título, em português, de Paraíso Infernal.

Mas avancemos, ando a ler o fabuloso livro de François Truffaut, Os filmes da minha vida. Nele reconheço uma facilidade de escrever sobre cinema que me incomoda, pela simplicidade da escrita, pela profundidade da crítica, pela análise capaz e desarmante. Há uns anos convidaram-me para fazer um comentário de um filme numa sessão saudosista desta prática nos idos anos 60. Dificuldade acrescida, não consegui ver o filme antes e fui compondo algumas ideias-base enquanto o via pela primeira vez. Parafraseando um outro professor, dos bons, Abel Barros Baptista, só começamos a ler à terceira ou quarta leitura, como querer ser profundo, prático ou minimamente crítico após somente um visionamento? Estupidez da grossa, o exercício foi rasteirinho e praticamente dedicado à narrativa e interpretação do filme, nem uma palavra, quanto mais frase, sobre planos e ideias visuais.

Confesso esta minha idiossincrasia, fascinar-me pelo que vejo, não querendo antecipar as resoluções ou interpretações até que a experiência esteja terminada. Não que não o faça, descobrir o criminoso a meio do filme ou da leitura é prática comum, mas deixada para último lugar, porque quero, em primeiro lugar, ter o prazer de não ser afastado do conjunto total do objeto.

Ora, um dos aspetos da aula do Professor Fagundes Duarte, era discutir a génese e construção das obras de Eça de Queiroz, como ele escrevia e construía as tramas, mas também o estilo. O trabalho final era, com base num texto ficcional nosso, escrever uma discussão da construção, das escolhas, da escrita do nosso texto. Ora o que será o cinema senão um texto visual, com os seus códigos e escolhas de cada autor? Ler o filme como algo mais do que uma narrativa, mas entender os planos, os significados internos e subliminares de gestos, seja dos atores, seja da câmara.

Truffaut fá-lo com uma, repito, simplicidade e inteligência que me desarmam e humilham, descubro filmes que não vi, anseio por descobri-los pessoalmente e esse é o melhor contributo que qualquer crítico pode dar. E deixa-me a pensar no como gosto do cinema clássico americano, quase tanto como me aborrece o atual, pejado de efeitos especiais,  oco de estilo e conteúdo narrativo.

A Terra de Ninguém de Santana-Maia Leonardo

Oferecer (e receber) livros é uma tarefa ingrata, baseada nos nossos gostos ou no pretenso conhecimento que temos dos outros. Oferecer um livro de que gostei pode chocar com o interesse e gosto do outro. Tiro ao alvo que muitas vezes o falha.

Não que esta tarefa me tenha impedido (ou impeça) de oferecer livros, mas fico sempre na dúvida se o outro gostará (tanto) do livro como eu. Este verão a minha tia Ilda ofereceu-me um livro de crónicas (A Terra de Ninguém, de Santana-Maia Leonardo, Sinapsis), esse género ingrato, facilmente datado, e que dependerá sempre do génio e capacidade do cronista para nos interessar. Um livro de crónicas é também uma forma eficaz de atirar à sorte, entre tantas haverá algumas que atinjam na mouche. Este atingiu no alvo, com pontuação máxima.

Santana-Maia Leonardo é um caso atípico na opinião portuguesa, sendo de direita não come e cala, defendendo sempre a direita, discorda e mostra que é possível fazê-lo sendo coerente com aquilo em que acredita, o corrente livro é disso prova. É alentejano e parte das crónicas têm a ver com essa “natureza”, com o ser alentejano, com as terras alentejanas. Há sempre uma crítica à cidade-estado Lisboa e ao esvaziamento do interior, melhor, aos esvaziamentos, culturais, políticos, sociais, etc. Um cronista do interior esquecido e ostracizado, mas atento.

Pela dificuldade que é acertar ao se oferecer livros, destaco esta oferta e algumas frases.

“Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.” p. 149

“O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão… Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim de semana.” p. 149,150

“(…) um alentejano nasce num sítio qualquer.” p. 153

Arquipélago de Joel Neto

Estou desempregado há quinze meses, uma eternidade!

A leitura sempre foi para mim um prazer, e tenha sido enquanto estudante ou enquanto trabalhador os livros sempre me acompanharam e ajudaram a ritmar os diferentes períodos do dia, por vezes diferentes livros para diferentes momentos. Nunca apanhei comboio porque me poupava vinte minutos de viagem, e eram menos vinte minutos de leitura! Antes, por vezes durante, e depois das aulas os livros sempre foram âncoras, principalmente nos dias mais atarefados. Um dos maiores prazeres era sair da escola, durante vinte minutos e ler algumas páginas acompanhadas de um café. Claro que fora do trabalho era o mesmo, mas foco no trabalho ou no período de atividade para estabelecer melhor a diferença para os hábitos e disponibilidades de leitura atuais.

Continuo a ler a um ritmo semelhante, mas o interesse, a vontade, a disponibilidade alteraram-se. Pode ter a ver com a idade, os interesses vão mudando e a paciência para algumas coisas esfuma-se, aqui é paradigmático o desinteresse crescente com alguma BD, ainda que este possa ter a ver com a qualidade atual da mesma, mas isso é discussão para outra altura. Pode ter a ver com imensa coisa, mas na realidade penso que é a ausência de ritmos diferentes a causa. A verdade é que cada vez leio mais  não ficção, a dificuldade e desinteresse de continuar a leitura de um romance tem sido uma surpresa e vejo-me a devorar crónicas, a ler ensaios, a ler reportagens.

Talvez por isso a surpresa que foi Arquipélago, de Joel Neto, um livro que me foi chamando e apelando, mas ao qual resisti até à semana passada, depois de ter lido alguns comentários de leitores. A resistência é facilmente explicada, li alguma crónica do autor que me afastou dele, as primeiras impressões são tramadas, mesmos as que são incómodas para o nosso preconceito.

Na última Ler li um artigo de Joel Neto, sobre a estadia na ilha e , penso, a escrita do livro, o regresso às origens, ao interior, neste caso à ilha, interessam-me cada vez mais.

Conheço um pouco de São Miguel; conheço o Pico pelas letras de Dias de Melo, desconhecia a Ilha Terceira, descrita e habitada agora pelas personagens de Joel Neto.

Arquipélago conta a história de José Artur, professor universitário, que volta à ilha onde cresceu com o intuito de escrever uma tese de doutoramento. Arquipélago não é um romance policial, mas é um romance com mistérios, José Artur não sente os terramotos, até sentimentalmente tem dificuldades em senti-los ou assumi-los; são descobertos ossos na casa do avô, para onde vai morar, ossos que o vão levar a descobrir o papel do avô  nessa morte; mais do que os acontecimentos narrados, mais do que a busca de José Artur, mais do que os mistérios naturais, arqueológicos, antropológicos e históricos que fazem a narrativa andar, ficam as personagens, com as suas idiossincrasias, com a sua humanidade rija e frágil, com os seus medos. Fica a ilha, com os seus lugares mágicos, com os seus rituais, um santuário no meio do oceano, um porto de abrigo, nem sempre seguro.

Um romance pode, por vezes, ser plantado num outro lugar, sem que a história sofra com isso, Arquipélago, no entanto, agarra-se à terra e gentes dos Açores e fá-lo com amor. A mestria de Joel Neto não está tanto na narrativa que urde mas nas descrições físicas e sentimentais, o interesse e a leitura foram crescendo, parafraseando o Ti Elias, porque se trata de gente de verdade, e quando o dizemos de personagens de um livro dizemos muito do livro!

As conversas da avó

Uma vez por semana, pelo menos, almoço em casa da Avó Joaquina, avó materna, e conhecida na Aldeia como Avó Joaquina. Parece que em pequeno me chateava com o facto de todas as pessoas, petizes incluídos, a tratarem por Avó, hoje já não.

A semana passada, almocei lá, só eu e ela, antes do almoço liguei para uma prima minha, sobrinha dela, perguntei como estavam e passei-lhe o telefone, que as notícias são mais verdadeiras em primeira mão.

Um desfiar de como estão, passando por todos os familiares das redondezas, pelo nome. A determinada altura, uma pergunta que me desarmou, “quem morreu nas últimas semanas?” Cinco minutos à conversa. Um mundo que diminui, ou pela morte ou pela morte e pela memória.

“Já não sei quem é.” Os anos na margem sul, os anos vividos em cima desta terra, as pessoas que passam pela vida… “Já não sei quem é”. Um mundo mais pequeno.

E antes que se eclipse, vou almoçar lá, pelo menos uma vez por semana.

A minha escola secundária já não existe.
Está lá, sim, mas a realidade é outra. A escola onde andei era quase a mesma em que o meu pai andou, tinha uns pavilhões novos, que hoje são velhos, tinha uns pavilhões velhos que hoje já não existem, penso que no último ano em que lá andei demoliram dois ou três, demoliram como quem diz, que os alunos querendo ajudar a empresa de demolições deitou abaixo as paredes ao pontapé!
A minha escola era a pior do concelho, hoje é uma das melhores, à custa de recusar alunos com médias baixas ou dificuldades de aprendizagem. O ano passado, a par do processo de adopção, e tendo de colocar a miúda numa escola, fui lá. A lei diz que o Director tem de aceitar a colocação, o Director diz que não, que tem alunos acima da média por turma, que já tem alunos suficientes com más notas. “Volte no final do terceiro período que vemos o que se pode fazer.”
A minha escola secundária tinha alunos que faziam turismo, outros curso prático de banditismo, lembro-me do jornal da escola fazer uma sondagem sobre quantos alunos do 7º ao 9º eram roubados semanalmente, ficavam de fora os que perpetravam os roubos.
A minha escola secundária tinha bons e maus professores, tive uma professora que deu um 101% a uma colega minha porque a conta dava 101%; tive um professor comunista que nos dava a segunda guerra mundial, a guerra fria e o comunismo a vermelho; tive um finalista em direito que dava biologia sem perceber um caracol daquilo, as notas escritas no teste mudavam consoante a cara do aluno na aula em que os entregava – vi oitos transformarem-se em dezoitos e dezoitos em oito.
A minha escola secundária já não existe, pelo menos quando a comparo com esta versão moderna, higiénica e direccionada para o sucesso.
Mas ao falar com funcionárias e professoras do meu tempo, ao rever os amigos de então, ao ser o que ela me ensinou, a minha escola está ali, mais presente do que nunca.

Número Zero de Umberto Eco

Número Zero é o novo romance de Umberto Eco, a ação passa-se em 1992, na redação de um jornal criado para difamar, afastar as atenções, enterrar a notícia no meio de outras, criar um ambiente propício para que o leitor se perca e perca o importante.

“Certo. Os jornais ensinam às pessoas como devem pensar”, interrompera Simei.

“Mas os jornais seguem as tendências das pessoas ou criam-nas?”

“Ambas as coisas, menina Fresia. As pessoas, de início, não sabem que tendências têm, depois, nós dizemos-lhas e elas apercebem-se de que as tinham. (…)”  P.78

“A questão é que os jornais não são feitos para difundir, mas para encobrir as notícias. Acontece o facto X, não podes deixar de falar dele, mas embaraça demasiada gente, e então, nesse mesmo número, metes grandes títulos de fazer eriçar os cabelos, mãe degola os quatro filhos, talvez as nossas poupanças acabem reduzidas a cinzas, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio, e por aí fora, a tua notícia afunda-se no grande mar da informação.”  P.128

A narrativa é então ambientada na redação de um jornal criado para difamar, desinformar e apoiar o seu dono.O título remete para os números zero que o editor quer publicar, e muitas das páginas são exercícios estapafúrdios inseridos na missão pouco ética do jornal. O livro parece, então, um manual de mau jornalismo.

O meu conhecimento de história italiana baseia-se maioritariamente em alguns filmes e séries de televisão, sei vagamente o que foram as Brigadas Vermelhas, tenho conhecimento da alta instabilidade da economia italiana e do papel da máfia e crime organizado. Resumindo, pouco sei sobre a história recente italiana, e digo recente, porque Eco discute a história de Itália desde o fascismo até aos dias de hoje. É um emaranhado de dados factuais e hipóteses mais ou menos fantasiosas, que Eco combina de forma a dificultar o discernimento do leitor.

Número Zero termina com um exemplo de bom jornalismo que tende a perder-se quando já ninguém consegue distinguir o bom do mau jornalismo.

E vais ter com quem?”, perguntou-me. “Primeiro, não te arruínes por minha causa, segundo, aonde vais contar este assunto quando os jornais, percebo-o pouco, são todos feitos da mesma massa? Protegem-se uns aos outros…” p.123

Na minha opinião não é um grande romance de Eco, ainda que tenha todas as características da sua escrita, muitas citações e alusões, clássicas e da cultura popular, por exemplo. Podia ser um ensaio, e os dados estão lá todos, enquanto romance perde para com outros de maior fôlego do autor, no entanto deixa-nos a pensar sobre o jornalismo factual e isento dos dias de hoje.

Parentalidade como discipulado

Intentional Parenting

Ser pai nunca é fácil, mas ser pai cristão traz responsabilidades acrescidas. Quando nos nasce uma adolescente de catorze anos cá em casa, a noção dessas responsabilidades e a prática diária do discipulado encontram-se muitas vezes separadas. Quando a idade da estupidez, vulgarmente conhecida por adolescência, se casa com a inexperiência de determinadas práticas espirituais e com o desconhecimento de uma vida familiar mais estruturada a fotografia fica ainda mais composta – os desafios crescem e multiplicam-se!

Intentional Parenting – Family Discipleship by Design é um livro de Tad Thompson, sobre discipulado familiar, da Cruciform Press – uma editora cristã americana, que tem como plano editar um livro por mês, livro esse que responda a algumas premissas, tem de ter cerca de 100 páginas, ser relevante e biblicamente confiável, simples, com um preço acessível e, no seu conjunto, os livros editados devem explicitar o credo da editora.

A preocupação de Thad Thompson é dupla, por um lado tem constatado a quebra do discipulado nas famílias cristãs, que deixam o ónus para as igrejas, que por incapacidade ou inação pouco têm conseguido alterar esta situação; por outro lado, tenta cativar e capacitar os pais para o discipulado, enquanto prática que se preocupa com a salvação dos seus filhos.

“(…)the discipleship model in which church professionals essentially replace parents as the primary agents of discipleship is just not working.” (p.9)

Thompson é claro ao colocar a responsabilidade do discipulado cristão nos ombros dos pais (Efésios 6:4 e Salmos 78:5)

Thompson escreve pastoralmente para pais que reconhecem ou se desculpam com a sua imperfeição e incapacidade de levar a cabo tal tarefa; usando a passagem de I Coríntios 13:11-13 relembra o leitor de que a perceção dessa incapacidade é vital no discipulado familiar. Deus conhece-nos intimamente e sabe do que somos ou não capazes, apesar disso deu-nos essa responsabilidade, capacitando-nos para essa tarefa (Efésios 3:20).

O objetivo do discipulado é ensinar e “to cultivate truth in the hearts of your children. (…) you should lovingly and prayerfully encourage your children in their walk with Jesus. The nature of the parental role changes as our children mature, but its essence does not, and we are called to steward faithfully all the days the Lord has entrusted to us.” (pág. 21)

Thompson torna-se assustador, ao sistematizar aquilo que o discipulado abarca, i.e., aquilo que o pai deve saber ou investir para discipular o seu filho. Deste modo, sistematiza o discipulado em Evangelho, Teologia Bíblica (A Grande História), Teologia Sistemática (As Grandes Verdades), Grande Comissão, Disciplinas Espirituais, Vida Cristã e Cosmovisão.

O autor demora cerca de um terço do livro, 30 das 108 páginas, a falar destas áreas.

Deixem-me sintetizar (ênfase no sintetizar) os pontos principais feitos pelo autor.

O Evangelho

“you will do whatever it takes to saturate your home life with the message of the gospel!” (p. 23)

Thompson demora algum tempo a distinguir entre o evangelho bíblico (Deus é o santo e soberano Criador do Universo; o Homem rejeitou o santo e soberano governo de Deus; Jesus é o Filho eterno de Deus que veio para resgatar pecadores; O Evangelho exige que todos lhe respondam em arrependimento e fé – p.28-33) e os falsos evangelhos (os falsos evangelhos do aperfeiçoamento pessoal, da prosperidade, da paz e propósito e o Evangelho do “ora esta oração” – p. 24-28)

Teologia BíblicaA Grande História

Conseguimos explicar e explicitar a narrativa bíblica às nossas crianças e adolescentes? Esta tem sido uma área chave para a nossa filha, já que o conhecimento está estilhaçado em várias narrativas,  não há uma noção do conjunto, da Narrativa.

“The Bible is about God working in the lives of men, women, and children, directing all of history toward a sure conclusion.” (p. 35)

“Reading the Bible to extract its “life lessons” puts much of the focus on the reader of Scripture. But the real story of the Bible is about the Author.” (p.35)

Thompson reitera o ponto, a Bíblia foi-nos dada para nos ensinar acerca do carácter e propósitos de Deus, não para reforçar as nossas opiniões pessoais acerca de Deus. (p. 36) Quando conhecemos e reconhecemos a Grande História acerca de Deus e dos Seus propósitos conseguimos interpretar e compreender melhor as passagens mais difíceis, lê-las à luz do Plano de Deus, nomeadamente à luz da pessoa do Seu Filho, Jesus Cristo.

Teologia Sistemática 

Ou na terminologia do autor, As Grandes Verdades, que verdades são estas? A Palavra de Deus, o Carácter de Deus, a Trindade, a Criação e o Domínio Providencial de Deus, a Natureza Humana e o Pecado, a Pessoa de Jesus, a Obra e Ministério de Jesus, a Pessoa e Obra do Espírito Santo, Salvação, a Igreja, e as Últimas Coisas.

“Your children are going to formulate their ideas about the Bible, God, man, and salvation from somewhere. If you do not teach your children biblical doctrine, they will be forced to synthesize key ideas (about who God is and who they are) from random bits of truth and falsehood they collect from church, peers, teachers and the media.” (p. 40)

Deste modo, conhecer e ensinar estas Grandes Verdades às nossas crianças é vital para o seu crescimento espiritual e desenvolvimento. (p. 41)

A Grande Comissão

Temos sido bons dispenseiros do evangelho e discípulos de Jesus? As nossas crianças devem perceber o alcance do evangelho, não só nas nossas casas, mas também a partir delas.

“God has not given us Christ so that people will make much of us; he has given us Christ so that we will make much of him!” (p.43)

“How vital is that our children understand the heart of God for the nations. Our eternity is in heaven, but God keeps us on this earth for a purpose!” (p. 43)

Disciplinas Espirituais

Thompson convida-nos a perceber que as disciplinas espirituais são um meio essencial para o crescimento espiritual (I Timóteo 4:7,8)

Vida Cristã

A ideia nesta área é viver a vida de forma cristã. Como agimos e vivemos no que, por exemplo, ao perdão, pureza sexual, paternidade, casamento e vida familiar, diz respeito? Que exemplo temos sido para as nossas crianças?

Cosmovisão

“A worldview that is not genuinely and therefore God-centered will inevitably be man-centered. But as we pass along to our children a sound Christian worldview, we equip them to navigate the waters of our humanistic, postmodern culture. This may include teaching them how to argue against atheism or scientific naturalism/evolution, and to speak clearly on ethical issues such as abortion, stem cells research, and homosexuality. Worldview also helps us develop biblical philosophies for education, economics, and law. Make sure your own view of the world in wich God has placed us is solidly biblical, and then pass it along your children.” (p.47)

Como é que um pai cristão gere este conhecimento e prática e se dedica a esta tarefa? Thompson é prático, compromete-se a ler a Bíblia, “if you won´t commit yourself to read your Bible, you will never commit to family discipleship.” (p.49); lê, pelo menos, um livro acerca de cada uma destas áreas por ano; escreve o que tem aprendido e discute-o com outros pais, cara a cara ou através de um blog, por exemplo; compromete-se a servir numa igreja que valorize a pregação e o discipulado teológico; recicla o que tem aprendido.

Antes de discutir as quatro áreas do discipulado familiar (a casa, a comunidade, a igreja e o mundo), Thompson relebra que não podemos discipular as nossas crianças para além do nosso próprio nível de discipulado. Baseando-se em Deuteronómio 6: 7-9, mostra que o ensino é rotina e repetição. “Etching requires routine, dedication, focus, knowledge, skill, and consistency, as we repeatedly teach God´s word and apply its truths to everyday life.” (p.58)

O ponto é tão simples quão complicado, saturar a vida familiar e comunitária da Palavra de Deus, em oposição à forma como somos (pais e filhos) saturados pela cultura e cosmovisão seculares.

“How will our children believe that the Bible  is all about all of life if we only talk about it during the Bible lesson?” (p.59)

Qual o propósito do discipulado? Não é oprimir as nossas crianças, mas ajudá-las a adorar Deus em resposta à sua graça salvadora.

Casa

Thompson afirma que a casa, o lar, deve ser o local seguro onde se discutem verdades espirituais profundas e se respondem a questões difíceis acerca de Deus e da Sua palavra. Os pais devem aproveitar as refeições para expressar gratidão a Deus e uns aos outros; no que diz respeito à hora de deitar, o autor defende não só a oração em conjunto, mas dá a sua prática, orar pelos filhos na presença destes, para que eles percebam as preocupações e desejos espirituais dos pais para eles; quanto ao culto familiar, Thompson refere uma prática que me parece importante, e com a qual nos temos debatido e falhado, discutir em família a pregação de domingo ao longo da semana.

Thompson tem ainda uma palavra no que diz respeito à disciplina.

“Discipline in the home, whether physical or verbal, is not about getting your children to behave in a certain way. Children cannot obey perfectly and they never will. If you discipline your children to condition them to perform certain behaviors, you are not raising them in the fear and admonition of the Lord. You are training them in self-righteousness.” (p.64)

A Comunidade

O ponto mais importante nesta área é viver na comunidade de forma a discipular quando as coisas acontecem.

“As parents we should be less concerned overall with whether our children are exposed to non-Christian influences and more concerned with what we do about it when they inevitably are exposed. Let us seize those moments and convert them into discipleship opportunities. That is how Christians are prepared to make an impact on secular society.” (p.71)

A Igreja

O argumento aqui é perceber de que forma a igreja local pode ajudar a educar as crianças a ter esperança e fé em Deus. Como? Fazê-las compreender que a igreja não é tanto um local, mas um conjunto de pessoas, o corpo vivo de Cristo; que ali adoram juntas como uma família, ajudá-las a compreender a autoridade da Palavra de Deus, “children need to learn how to listen to sermons” (p.73).

O Mundo

Esta última área consiste em ensiná-las a amar o mundo e perceber a importância e privilégio da Grande Comissão.

O penúltimo capítulo versa sobre o coração dos nossos filhos, o nosso objectivo enquanto pais cristãos é revelar o evangelho e o Reino de Deus às nossas crianças. “Our treasure is Jesus, Lord of the Kingdom of heaven. To reveal the Kingdom is to reveal the King.” (p.81)

“The goal of family discipleship is to raise children who treasure Jesus above all things.” (p.83)

Thompson destaca quatro objetivos dos pais no seu relacionamento com os filhos que falham o alvo, querer que as crianças os amem acima de tudo (“Parents who long for approval tend to obey their children.” p.86); querer crianças que se amem a elas mesmas (“Parents who raise their children with this goal teach them that their greatest treasure is themselves, not Jesus. (…) The biblical call, therefore, is not that our children would love themselves more than they do, but that they would love others as much as they love themselves, and God even more – more than anything and anyone.” p. 86); querer que sejam moralmente correctas (“Morality that flows from a heart focused on duty cannot please God and does not please God.” p. 87); e por último, crianças que tenham sucesso (“They want their children to achieve in sports so badly they are willing to sacrifice the corporate worship of Jesus on a regular basis” p.88).

Como ensinar, então, as nossas crianças a valorizar (“treasure”) Jesus acima de todas as coisas? Orando por elas, sendo exemplo para elas, em casa, ajudando-as a desenvolver as disciplinas espirituais, sendo fiel.

“Fathers must look for opportunities to encourage their children on a regular basis, pointing out their strenghts while coaching them through their weaknesses.” (p. 96)

Thompson termina com Josué 24

14Agora, portanto, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com sinceridade: lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos antepassados do outro lado do Rio e no Egito, e servi de coração a Yahweh.15Porém, se não vos parece bem servir a Yahweh, escolhei agora a quem quereis servir: se as divindades às quais serviram vossos antepassados além do rio Eufrates, na terra da Mesopotâmia ou os deuses dos amorreus em cuja terra agora habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR!”…

“God does not call us to accomplish what we can do in our own stregth. He calls us to accomplish things only he can achieve. (…) consecrate your home to the service of the Lord” (p.101)

Concluindo, um livro pequeno, mas cheio de desafios e “pragmatismo” bíblico, um livro que nos chama, a nós pais, a sermos discípulos melhores e mais conscientes por amor aos nossos filhos, amando e sendo amados por Deus.

Com um pé no passado

preface to Theologians on the Christian Life (Crossway)

 

O texto da imagem é o prefácio da série Theologians on Christian Life da Crossway. A ideia é contar um pouco da biografia de determinado teólogo e explicitar o seu pensamento e prática na vida cristã. Fazemos parte de um corpo de 2000 anos, individualmente somos pouco menos do que um sopro, não façamos do nosso tempo a condição e base da nossa fé e prática, podemos aprender com os que vieram antes de nós.

Dobragens e legendas

Discutia com uns amigos, há umas semanas atrás, (tenho uma filha de catorze anos que nos nasceu cá em casa já com catorze anos) a decisão da maioria dos canais de programas infantis e infanto-juvenis terem emissões (quase) totalmente em português, dizia que numa era como a nossa, em que a tv é digital, é relativamente fácil mudar o áudio dos canais e acrescentar/retirar legendas ao prazer do utilizador, isto claro se ambas as opções estiverem disponíveis.

Lembro-me do Cartoon Network só emitir desenhos animados no original e o meu cunhado, com 6 anos, já perceber e usar determinadas expressões em inglês; deduzo que muitos dos que viram o canal percebam alguma coisa de inglês à custa dele. A minha filha não é propriamente uma poliglota, e tem também algumas dificuldades na leitura do português, como é que conseguimos mitigar essas dificuldades (no que à tv diz respeito) se a tv não ajuda? Há duas semanas descobri que o Disney Channel permite ver as séries com o som original, não tem é legendas, mas se a gaiata não percebe patavina de inglês como a colocar aos catorze anos a ver algo sem que consiga retirar qualquer sentido? Lutas destas na adolescência são muito maiores!

Não pretendo dar respostas às questões colocadas anteriormente, até porque ainda não as temos. A razão desta introdução é pensar que estamos a regredir numa prática portuguesa, a ausência de material dobrado. Historicamente, os anos oitenta tinham mais razões para a existência de programas dobrados  do que a segunda década do século XXI, mas a verdade é que, por culpa dos canais de cabo, a realidade alterou-se.

Somos um país estranho na Europa e nas Américas, a maior parte dos países dobra tudo, que calafrio!, ao contrário de nós.

Os EUA têm dificuldades com legendas e até aqui eu levava essa dificuldade com alguma bonomia. Mas, o ano passado lia que houve queixas contra a versão americana de The Bridge, porque os produtores decidiram que sempre que existissem pelo menos duas personagens mexicanas estas falariam em espanhol e não em inglês. Séries nórdicas de qualidade foram adaptadas, porque a qualidade da dobragem americana é fraca e porque o americano que vê televisão não quer ler legendas e não o sabe fazer! Homeland, por exemplo, é baseada numa série popular isrealita. O mercado televisivo americano tem pouco espaço e necessidade para material estrangeiro, quando este é bom simplesmente adapta-o, quando o dobra a qualidade das vozes nem sempre é a desejada.

Mas agora o “estrangeiro” alarga-se e começam os remakes de séries inglesas – Broadchurch, um sucesso de crítica e público, deu lugar a Graceland, quem viu a primeira não percebe a existência da segunda; e Luther, com Idris Elba, parece estar a fazer a mesma travessia. Estas duas séries são somente dois exemplos, e mais interessantes ainda porque as personagens principais são asseguradas pelo mesmo actor, em ambos os lados do Oceano.

O nosso problema é maior, não temos ficção, ia escrever de qualidade, mas com excepção das telenovelas a nossa ficção é redundante e mínima. Toda a ficção que criamos é sucedâneo de telenovela, se não no tom, pelo menos na forma. Ainda não regredimos aos anos noventa em que a TVI decidiu transmitir séries como A-Team em português do Brasil (Esquadrão Classe A), provavelmente não o faremos, mas quando o Governo decidiu esta semana que o inglês torna-se disciplina obrigatória no primeiro ciclo, constata-se que quase não há programas em inglês para as crianças, pré-adolescentes e adolescentes!

As opções que a tv digital nos dá são reais, mas para que sejam práticas é necessário que haja vontade e dinheiro, para além da dobragem, há que pagar também a legendagem.